Capítulo 10

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A minha rotina era quase inalterada, a não ser quando Douglas aparecia no nada e mudava tudo. Ontem à noite ele apareceu aqui em casa e me disse que hoje haveria um aniversário do filho de um amigo e queria levar Lucas. Disse também que se eu quisesse, poderia ir.

Como não confio em suas amizades aqui na favela, eu iria com a cara e com a coragem. Porque segundo a minha vizinha que não gosta de fofoca, mas conhece a vida de todo mundo, era o filho mais novo do Rocha que estava completando sete anos.

Então, como hoje é sábado, decidi acordar cedo e deixar tudo organizado para estar preparada para esse evento, aproveitei e fui no mercado com minha cria, que onde passava esbanjava simpatia, até ver Anderson montado em sua moto, conversando com um homem desconhecido para mim.

Lucas soltou de minha mão e saiu em disparado na direção dele, que era do outro lado da rua, quase foi atropelado, ainda bem que o homem freou a tempo, mas não para evitar uma queda e que ele ralasse um pouco do braço.

— Tá maluco, filho da puta? Não presta atenção por onde anda?

Anderson desceu furioso da sua moto e puxou o menino pela camisa até que ele deixasse a moto cair no chão e estivesse frente a frente com ele.

— Foi, foi ele que atravessou a rua — tentou se explicar enquanto eu ajudava meu bebê que prendia o choro.

— As placa na porra das ruasem mandarim?em inglês no bagulho? Pra tu não saber ler que tem que andar na maciota na comunidade?

— Não foi culpa minha.

— Não foi o caralho, olha o moleque aí? Se ele tiver machucado, eu vou na tua direção — disse, dando um soco no estomago do menino que já estava assustado.

— Anderson!

Ele me encarou e estava sério, no modo que exigia respeito dos moradores, assim como todos os bandidos daqui.

— Rala, porra! — Outro soco no estomago, não deixaria marca, mas com certeza o menino sentiria as dores. — Vai perder a moto pra largar de ser otário.

O menino saiu cambaleando, tentando se afastar o mais rápido possível, enquanto ele veio para perto de mim, onde estava com Lucas no colo.

— E aí, diz pro tio ondedodói?

— No braço, tio.

— Não foi nada, filho. É só um arranhão, vamos passar na farmácia e comprar Band-Adi de carrinhos.

Vâmo! — disse animado.

Sei que foi somente o susto de todo o acontecimento, pois a moto freou bem distante dele, mas todo o drama e a situação a seguir fizeram com que Lucas achasse que o problema fosse bem maior.

— Não precisava daquilo, Lucas está bem. E devolve a moto do garoto.

— Uma porra, minha palavra agora é zero conceito? Duvido.

— Fica nessa. Tchau, vou lá no mercado.

— Deixa o menor com o pai e vamos sair hoje?

— Papai vai levar eu e mamãe numa festa hoje, tio.

Recebi uma encarada nada discreta de Anderson, porque não é de hoje que ele me chama para sair e eu sempre recusando.

— É aniversario de algum filho de um amigo dele, e como não sei como são esses ambientes, eu irei.

— Aqui na favela?

— Isso.

ligado, se pá eu colo também, fui chamado pra essa parada.

— Certo, então vou indo lá, para adiantar as minhas coisas.

— E você presta atenção, hein, garoto, atravessar a rua sem olhar, qual foi, escolaensinado não?

Sabendo que fez algo errado, Lucas abaixou a cabeça envergonhado, pois não foi uma e nem duas vezes que já falei para ele olhar para os lados antes de atravessar a rua.

**********

Estava terminando de vestir Lucas com uma bermuda creme e blusa Polo da Lacoste, preta combinando com o tênis preto também da Lacoste, quando o mais novo dono da casa adentra no quarto. Sim, contém ironia em todas as minhas palavras, porque Douglas ainda não se mancou que aqui ele é visita, e mesmo que eu tenha reclamado, ainda segue entrando sem ser convidado, desde que descobriu onde guardo a chave reserva.

Ele estava de bermuda de linho pouco acima do joelho e uma camisa polo, e se tivéssemos combinado de vesti-los iguais, bem provável que não daria certo. Como esse homem era gostoso tão naturalmente, e não fazia nenhum sacrifício para tal.

— Meu filho foi atropelado e você não me avisou por quê?

Mais um para fazer um estardalhaço sobre uma pequena coisa. Já não bastava antes, Anderson para mimar meu bebê, agora este também?

— Não foi nada, ele só fez um arranhão no braço e já colocamos um curativo, mostra pro papai.

E lá foi ele todo orgulhoso mostrar o adesivo de carrinhos sob a pele que continha um pequeno arranhão.

— Tá dodói, filho, quer ir no médico.

— Mamãe colocou cuativo — falou com a chupeta na boca, e só então notou que estava com ela, tirando logo em seguida e jogando em cima da cama.

— Tem que parar com essa chupeta, hein, filho,homem já.

— Não quero mais, papai. Sou homem já.

— Preciso só de mais alguns minutos para terminar de me arrumar.

E foi o tempo que levei para passar um delineador e rímel, combinando com o batom cor de boca, apenas para não sair apagada. O cabelo deixei solto e consistia nele liso até a cintura.

— Vamos?

Chamei aos dois que estavam no sofá vendo algo no celular de Douglas.

— Tá linda, mamãe.

— É,linda, mamãe. 

VIDA REAL ( DEGUSTAÇÃO)Onde histórias criam vida. Descubra agora