Gabriel Kim
— Posso dormir na casa da Van hoje? — Giovana pergunta, soltando a minha mão assim que entramos no carro.
— Sabe que não pode dormir na casa das amigas — respondo, mesmo que parta meu coração observar seus olhos brilhando pela expectativa e, depois, o brilho se esvaindo com a minha recusa.
Não sei por quanto tempo tem que ser assim, mas tem que ser.
— Aish — resmunga, chateada.
— E se a gente passar na sorveteria antes de irmos para casa? — Tento animá-la.
— Vai ser legal — ela responde, sem emoção.
Não gosto de magoar Giovana e, sempre que preciso negar a ela o direito de interagir com outras crianças da mesma idade, meu coração sangra um pouco mais. Amaldiçoo minha péssima capacidade de fazer boas escolhas. É graças à minha inaptidão que preciso estar atento a todo instante, que não posso baixar a guarda e viver uma vida normal. O que implica em não deixar minha irmã dormir na casa das amigas no final de semana.
Ligo o rádio para distrair meus pensamentos.
— É a banda que você gosta — menciono, aumentando o volume da música.
Ela desfaz o bico insatisfeito pela minha negativa e sorri.
Giovana é apaixonada por cultura coreana e eu acho bom que ela tenha algo para se distrair além dos estudos. Sei que não é saudável mantê-la em casa e, por isso, a levo para sair sempre que possível, mesmo ciente de que não é a mesma coisa, afinal, eu sou o irmão mais velho, e não uma garota obcecada por idols e k-dramas como ela. Ao som do BTS, chegamos à sorveteria.
Olho ao redor com uma sensação ruim de estar sendo vigiado. Já me acostumei com isso... quer dizer, acho que me acostumei. Desde que nos mudamos, sinto que a qualquer momento minha paz pode acabar. Mesmo tentando não pensar nisso, mesmo me esforçando para viver normalmente, a sensação ruim me espreita. O amargor na boca, o frio na barriga, o suspense, no geral, acaba comigo. Mas preciso me manter forte pela minha irmã. Giovana só tem a mim e eu a ela.
Escolhemos os sabores e tento ignorar os olhares, as garotas me observam, eu sei disso. Mas é algo que me deixa desconfortável. Prefiro ficar na minha, sem chamar a atenção de ninguém. Só que, na maioria das vezes, não é possível, talvez por sermos de outra nacionalidade, sempre ficam olhando para nós.
— A atendente está te encarando — Giovana graceja, com um sorriso travesso.
— Acho que não... — Evito que nossos olhares se cruzem, mesmo sem querer.
Trago Giovana aqui ao menos uma vez por semana e sei que a atendente fica me observando, mas como nunca dei abertura, não passa disso.
— Acho que tá na hora de você arranjar uma namorada — diz, fazendo com que eu quase engasgue com o meu sorvete. — Existem boas garotas por aí...
Giovana não faz a mínima ideia do porquê eu não namoro com ninguém e prefiro que continue assim. Estamos seguros desse jeito.
— Não tenho tempo para namorar — minto, sabendo que Giovana é esperta e já deve ter percebido que não é verdade.
— Sei que é por causa da Letícia — menciona, me fazendo respirar fundo para não perder o controle —, mas nem todas as garotas são iguais a ela — insiste, como se tivesse todo conhecimento de causa.
Solto um suspiro ao balançar a cabeça.
— É — respondo com a voz um pouco trémula —, mas não quero me envolver com ninguém, tá? — Procuro encerrar o assunto.
Giovana dá de ombros e se distrai com o sorvete, o que a impossibilita de fazer novas perguntas. Meu trabalho é flexível e eu faço meus horários, mas me envolver com alguém está fora de cogitação.
Queria deixar o passado para trás, essa é a verdade. Mas a sombra dela está em todos os lugares e, principalmente, dentro de mim. Não gosto mais da minha ex, só não consigo esquecer o que ela fez e seguir em frente.
Não ainda.
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Se tiverem lendo, deixem um comentário e uma estrelinha pra eu saber oque tão achando pfv
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Acordo imperfeito (Amostra)
RomanceOlivia é uma escritora de terror com algumas frustrações na vida, apesar de ser reconhecida por suas histórias. Ela nunca atingiu o sucesso que julga merecer na editora em que trabalha. Para piorar, seu pseudonimo é descoberto e uma onda de criticas...