Uma mesa longa e ornamentada, seu espelho de madeira polida brilhante, estava no centro de uma sala vazia. Duas figuras estavam sentadas, uma em cada extremidade, o espaço entre elas forrado com cadeiras vazias de espaldar alto. Em cima da mesa, uma variedade de pratos suntuosos, dignos de um banquete, mal tocados, seus aromas se fundindo agradavelmente. A mulher do outro lado da mesa mexeu distraidamente em sua comida, seus pensamentos em outro lugar. Diante dela, o homem congelou, o garfo levantado até a metade dos lábios, estremecendo de dor. Sua faca bateu contra a placa de prata gravada e a mulher pulou, assustada de seu devaneio. "O que é isso? O que há de errado?" ela perguntou.
"Nada", respondeu o homem, pousando o garfo e empurrando o prato.
— Por que você está mentindo para mim? Os olhos claros da mulher eram afiados enquanto ela o examinava. "Você sabe que eu sempre posso dizer."
O homem olhou para a janela, onde os menores vestígios de verde começaram a retornar às árvores. Seu rosto pálido tinha uma expressão fechada, seus olhos se estreitaram ligeiramente em concentração. A mulher levantou-se abruptamente. “Pare com isso,” ela ordenou, lábios apertados com raiva. “Você está me deixando de fora há meses, e só piorou. Lúcio, me escute!” Abandonando seu lugar, a mulher caminhou rapidamente pela fileira de cadeiras até ficar ao lado do homem ainda sentado, perto demais para ele ignorar. "Sou sua esposa. Eu mereço saber.”
“Não é nada,” o homem repetiu, “uma mera pontada.”
A mulher o observou em silêncio, e o homem cometeu o erro de olhar para o rosto dela. Seus olhos encontraram os dela e se mantiveram, incapazes de desviar o olhar. Como se puxado por alguma força irresistível, sua mão direita agarrou a bainha de sua manga esquerda e a puxou para trás para revelar seu antebraço. A mulher ofegou, olhando para o desenho vermelho retorcido que brilhava em sua pele clara. Com dedos trêmulos, ela traçou a imagem de uma cobra serpenteando por um crânio. O homem inalou bruscamente ao toque dela, mas não se afastou. “Há quanto tempo está assim?” ela perguntou, sua voz abafada e assustada.
“Está ficando cada vez mais escuro por meses. Não sei quanto tempo exatamente, tem sido tão gradual que mal notei. É apenas nas últimas semanas que está doendo.” Vendo sua expressão, ele balançou a cabeça. “Não assim. Apenas uma picada rápida, nada mais.”
— Por que você não me contou? ela sussurrou.
“Suponho que não queria incomodá-lo com algo tão vago. Eu não queria te preocupar.” Ele pegou a mão dela, acariciando as costas dela com o polegar. “Não há como saber, ainda, o que isso significa.”
“Você acha que ele voltou?” A mulher pareceu ficar ainda mais pálida do que o normal com o pensamento, os olhos arregalados de medo.
“Não, eu não. Mas ele será.” O homem olhou para as marcas vermelhas em seu braço antes de abaixar a manga para cobri-las mais uma vez. “Não há mais nada a fazer agora. Por enquanto, só podemos esperar e planejar.”
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