Na noite passada você me perguntou se eu me esqueceria de você, caso um dia viesse a desaparecer. Pensei por demasiado tempo, pois nunca antes imaginei uma realidade na qual não poderia deleitar-me de sua presença. Depois de pensar, tenho-lhe a resposta: Eu passaria a minha terna vida no aguardo de teu regresso, e, após minha morte, minha eterna alma vagaria toda a infinitude em sua procura. Deus olharia para mim e diria "Pobre homem, pelo amor que tenho a ti, desista. Ela não está aqui.", eu fitaria meu olhar ao dele e arquearia a sombrancelha, desconfiando que o criador escondeu-a de mim por saber que ninguém é digno da companhia de tua obra mais plena. Entraríamos em conflito e seria jogado para o inferno por heresia. O diabo olharia para mim e diria "Oh, humano miserável, aqui só encontrarás fogo e sofrimento, nada além disto.", eu franziria o cenho, desconfiando que o profano havia lhe roubado, e, no cume de seu egoísmo, havia lhe guardado apenas para ele, para que pudesse se vangloriar de ter em mãos a mais belíssima arte que o seu inimigo já concebeu ao mundo. E meu fim seria ardendo infinitamente no fogo incandescente, mas, mesmo assim, eu às vezes poderia vislumbrar a sua imagem em minha memória, permitindo que por vezes eu tivesse a visão do paraíso.
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