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Ela estava linda naquele dia.

Com os lábios cobertos por um sedoso batom preto, uma calça quadriculada em tons de vermelho intenso, e a blusa branca contrastando com seus longos cabelos loiros.

Korin era a mulher da minha vida, e eu nunca me perdoei por tê-la deixado escapar, tantos anos atrás. E, aparentemente, ela também não, porque segurava uma adaga afiadíssima contra a minha garganta.

— Yuna pediu para que matássemos os goblins, não uns aos outros — eu disse, tentando fazê-la desistir da ideia de me fazer sangrar até a morte (não que eu não merecesse, eu apenas não queria morrer ainda).

Korin revirou os olhos, me jogando contra um dos vários armários de vidro da pequena sala. Sinto o impacto percorrer toda a minha coluna e, por um momento, não consigo respirar, até que o ar volta para os meus pulmões com toda a força com que foram expulsos no baque.

Tusso, e aperto meu abdômen.

Korin era linda, forte e vingativa.

Seus charmes nunca acabavam.

— Ainda não entendo porque meu parceiro tem que ser você — ela cruza os braços sobre os peitos, e os guizos de uma pulseira dourada tilintam em seu punho.

— Porque, minha querida — eu ajeito minhas roupas amassadas, evitando o olhar zangado com que Korin me encara — Eu sou a criatura mais poderosa de todo Wunderland, pode agradecer sua falecida irmã por isso,e você é a única que consegue abrir portais por onde quer que passe. Nós somos a dupla perfeita!

— Você sabe tão bem quanto eu que as chances de brigarmos mais que resolvemos nossos problemas são gigantes. Qual o verdadeiro motivo, Chess?

Sorrio ao ouvir meu apelido novamente em sua boca. Isso era progresso. Dei de ombros.

— Porque nós dois somos os mais desocupados.

Korin estreitou os olhos e se aproximou lentamente, até estar a poucos centímetros de distância, analisando todas as minhas micro-expressões, dissecando cada uma das minhas reações.

Ela não confiava em mim, mas eu estava decidido a consegui-la de volta. Mostraria a ela que eu poderia me redimir sendo seu eterno submisso, fazendo todas as suas vontades. Se ela quisesse pisar em cima de mim para se sentir melhor, eu deixaria — e talvez até gostasse.

Não que eu estivesse mentindo. Afinal, nós éramos os únicos do grupo que não estavam atolados em deveres burocráticos por enquanto. Yuna estava ocupada redigindo novas leis e visitando seus súditos; Ragni havia se encarregado de estruturar a melhoria dos projetos sociais do governo e Edda estava cuidando do tratamento de todos os pobres coitados envenenados em Engels. Havia sobrado apenas nós dois para lidarmos com a situação dos goblins, então era natural que estivéssemos unidos como uma dupla.

Tudo bem, eu havia ̶i̶m̶p̶l̶o̶r̶a̶d̶o̶ peticionado para a rainha para ser o assistente de Korin, mas eu não iria admitir isso.

Pigarreio, e desvio meus olhos. Observo o cômodo em que ela me trouxe após recebermos a convocação oficial como caçadores de goblins.

Era um quarto pequeno na Ilha dos Mil Caminhos, repleto de ganchos nas paredes, onde armas de todos os formatos e tamanhos estavam dispostas, desde machados de guerra até tesouras gladiadoras.

— Por que você tem um quarto cheio de armas? — pergunto — É algum tipo de fetiche estranho?

Korin aperta a adaga em sua mão com tanta força que seus dedos ficam pálidos como algodão, drenados de todo o sangue naquela área. Ergo as mãos em um pedido de paz.

— Nunca disse que era contra brincadeiras perigosas no quarto — um dos cantos de minha boca se levanta em um sorriso preguiçoso — Só achei que você demoraria um pouco mais para me trazer até aqui.

A adaga corta o ar, zunindo em minha direção, mas eu não movo um músculo até ela bater na parede atrás de mim e cair no chão. Korin está com uma expressão tão neutra que chega a doer, mas sei que ela está irritada comigo. Não somente pela adaga — apesar de que ela é um ótimo indicativo — mas pela ausência de respostas debochadas, pela falta de piadas às minhas custas.

Quando namorávamos, eras atrás, fazê-la rir era minha parte favorita do nosso relacionamento. Adorava vê-la com o rosto vermelho pelas gargalhadas, e amava os trocadilhos com que me respondia. Agora, em minha presença, todo o humor de Korin parecia ter desaparecido, e não havia nenhum culpado além de mim.

Trinco meu maxilar, subitamente enjoado com a culpa que me corrói por dentro. Abaixo o corpo e pego a adaga do chão, devolvendo a arma para minha ex, com a ponta virada diretamente para o meu coração.

— Desculpe — eu sussurro — Só estava brincando.

Korin hesita, mas por fim toma a lâmina de minha mão, com cuidado e leveza. Sua voz é apenas um murmúrio quando me responde:

— Você perdeu o direito de brincar comigo quando preferiu acreditar em Evangeline ao invés de mim.

Engulo em seco, concordando.

Não havia um dia em meu cárcere em que eu não havia me condenado por ter dado ouvidos à língua peçonhenta da antiga Rainha de Espadas. Não havia um dia em minha prisão que não me amaldiçoava por ter dado razão às minhas inseguranças e escolhido o caminho mais fácil.

Porém, eu estava solto novamente, e se eu tinha sequer um pingo de chance de consegui-la de volta, eu faria tudo ao meu alcance para ganhar seu perdão, mesmo que eu mesmo nunca me perdoasse.

— Escolha uma — Korin pediu, apontando para as armas das paredes, já de volta ao seu tom de voz usual — Os goblins não serão expulsos de Wunderland sozinhos.


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