Uma menina, Filha do Faraó, herdeira do trono do Egito e futura Rainha do Submundo, usada apenas como um receptáculo por conta de seu passado, o mesmo cujo nunca foi lhe dito
Seu dever agora é reaver seu lugar tanto no trono quanto ao lado dos Deus...
Houve um tempo em que as margens férteis do Nilo deixaram de cantar a canção da abundância.
Uma imensa nuvem de gafanhotos atravessou os céus do Egito, obscurecendo a luz do sol e consumindo tudo o que encontrava pelo caminho. Os campos outrora verdes tornaram-se extensões de terra desolada, e a fome espalhou-se pelo reino como uma sombra silenciosa.
Tomados pelo desespero, os habitantes voltaram-se para o faraó, suplicando por uma solução. Contudo, nem mesmo ele possuía respostas para tamanha calamidade.
Quando toda esperança nos homens pareceu se esgotar, o soberano decidiu buscar auxílio junto a uma força mais antiga que o próprio reino.
Uma divindade venerada e temida.
Anúbis.
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O deus encarregado de conduzir as almas ao submundo ouviu o pedido do faraó em silêncio. Quando enfim falou, sua voz pareceu ecoar pelas próprias entranhas do templo.
A praga desapareceria.
Mas toda bênção exigia um preço.
A primeira filha de Ramsés lhe seria entregue.
O faraó não possuía herdeiros, porém a rainha carregava uma criança em seu ventre. Temendo perder o reino para a fome e para a revolta de seu povo, ele aceitou. Selou o acordo nas sombras, sem jamais revelar a verdade à esposa.
E, como prometido, os gafanhotos desapareceram. As colheitas voltaram a crescer. O povo celebrou. Mas... Ramsés jamais voltou a dormir em paz...
Nove luas se passaram.
Na noite do nascimento, o faraó aguardava diante dos aposentos reais enquanto os gritos da rainha atravessavam os corredores do palácio. Cada instante parecia uma eternidade.
Até que o choro de uma criança rompeu o silêncio.
Uma menina.
Uma linda menina de cabelos vermelhos, raros como fogo em meio às areias douradas do Egito.
Naquele instante, Ramsés sentiu seu coração afundar.
O preço do acordo havia nascido.
Horas depois, enquanto a rainha dormia exausta, ele tomou a recém-nascida nos braços e atravessou os corredores envoltos pela escuridão da madrugada. Nenhum guarda ousou questionar seu soberano.
O destino da criança era o templo.
O antigo templo de Anúbis.
As chamas das tochas tremulavam inquietas quando Ramsés alcançou o salão principal. As sombras dançavam sobre as colunas cobertas de hieróglifos, como se observassem cada um de seus movimentos.
Com mãos trêmulas, ele colocou a menina sobre o altar de pedra. A criança dormia. Pequena. Inocente.
Alheia ao destino cruel que lhe fora reservado antes mesmo de nascer.