CAP 1

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Houve um tempo em que as margens férteis do Nilo deixaram de cantar a canção da abundância.

Uma imensa nuvem de gafanhotos atravessou os céus do Egito, obscurecendo a luz do sol e consumindo tudo o que encontrava pelo caminho. Os campos outrora verdes tornaram-se extensões de terra desolada, e a fome espalhou-se pelo reino como uma sombra silenciosa.

Tomados pelo desespero, os habitantes voltaram-se para o faraó, suplicando por uma solução. Contudo, nem mesmo ele possuía respostas para tamanha calamidade.

Quando toda esperança nos homens pareceu se esgotar, o soberano decidiu buscar auxílio junto a uma força mais antiga que o próprio reino.

Uma divindade venerada e temida.

Anúbis.

O deus encarregado de conduzir as almas ao submundo ouviu o pedido do faraó em silêncio

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O deus encarregado de conduzir as almas ao submundo ouviu o pedido do faraó em silêncio. Quando enfim falou, sua voz pareceu ecoar pelas próprias entranhas do templo.

A praga desapareceria.

Mas toda bênção exigia um preço.

A primeira filha de Ramsés lhe seria entregue.

O faraó não possuía herdeiros, porém a rainha carregava uma criança em seu ventre. Temendo perder o reino para a fome e para a revolta de seu povo, ele aceitou. Selou o acordo nas sombras, sem jamais revelar a verdade à esposa.

E, como prometido, os gafanhotos desapareceram. As colheitas voltaram a crescer. O povo celebrou. Mas... Ramsés jamais voltou a dormir em paz...

Nove luas se passaram.

Na noite do nascimento, o faraó aguardava diante dos aposentos reais enquanto os gritos da rainha atravessavam os corredores do palácio. Cada instante parecia uma eternidade.

Até que o choro de uma criança rompeu o silêncio.

Uma menina.

Uma linda menina de cabelos vermelhos, raros como fogo em meio às areias douradas do Egito.

Naquele instante, Ramsés sentiu seu coração afundar.

O preço do acordo havia nascido.

Horas depois, enquanto a rainha dormia exausta, ele tomou a recém-nascida nos braços e atravessou os corredores envoltos pela escuridão da madrugada. Nenhum guarda ousou questionar seu soberano.

O destino da criança era o templo.

O antigo templo de Anúbis.

As chamas das tochas tremulavam inquietas quando Ramsés alcançou o salão principal. As sombras dançavam sobre as colunas cobertas de hieróglifos, como se observassem cada um de seus movimentos.

Com mãos trêmulas, ele colocou a menina sobre o altar de pedra. A criança dormia. Pequena. Inocente.

Alheia ao destino cruel que lhe fora reservado antes mesmo de nascer.

A Mulher De Ryomem Histórias para pegar e não largar. Descubra agora