5. A Fuga

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Pov Lena

Acordo e escuto a respiração da General ao meu lado. Ela está deitada de bruços, aparentemente dormindo profundamente. Isso nunca aconteceu antes, geralmente depois que transamos, ela logo chama um soldado que me leva de volta para a cela.

Em silêncio, observo a espada presa na parede e uma ideia arriscada passa pela minha cabeça. Olho novamente para a General adormecida e penso que eu poderia sair sorrateiramente para fora da cama e pegar a Katana. Suspeito que a General sempre deixa um soldado de sobreaviso do lado de fora do quarto, mas e se eu a fizesse de refém? Talvez conseguisse sair daqui.

Ainda com o olhar fixo na mulher dormindo ao meu lado, levanto-me devagar. Já com os dois pés apoiados no chão, começo a dar passos silenciosos e, vez ou outra, olho para a cama para confirmar que ela continua deitada.

Cuidadosamente, tiro a espada do suporte, tentando fazer o mínimo de barulho mas, quando me viro, não a vejo mais deitada na cama. Agora, ela está sentada, com os braços cruzados sobre os seios nus, enquanto me encara com expressão insolente.

— Vejo que alguém acordou com vontade de lutar — comenta, cínica, antes de se levantar, exibindo toda a nudez do corpo e andando na minha direção. — O que pretende fazer com essa espada, Lena? Me matar? — desafia, aproximando-se de mim.

Reajo erguendo a ponta da espada, mas ela não se intimida. Chega ainda mais perto e pressiona o abdômen musculoso contra a lâmina fria e cortante.

— Não — falo, controlando o tremor da voz — Pretendia fazê-la de refém e conseguir meu passaporte de saída deste inferno. — confesso com absoluta franqueza.

— Hum... Está sentindo falta do seu bravo cavalheiro de armadura brilhante, é? Do homem que vai salvar a humanidade? — ironiza, referindo-se claramente a Ben.

— Também! — retruco, encarando-a e decido provocá-la para saber se o que Hank me disse tem fundamento. — Sinto muita falta de Ben... Especialmente na cama, porque mesmo que você tentasse, jamais seria capaz de me satisfazer, não da mesma forma que o meu marido me satisfaz.

Os lábios da General se curvam em um sorriso enigmático e um brilho fugaz toma-lhe os olhos. Antes que eu possa compreender o que se passa, ela tira a espada da minha mão e a joga longe com tanta rapidez, que custo a acreditar no que acabou de acontecer.

Na sequência, ergue-me pela cintura e dá alguns passos, jogando-me na cama, como se eu fosse uma boneca de pano.

Seu cabelo está todo desalinhado e sua respiração mais ofegante.

— Se eu não tivesse uma reunião agora pela manhã com Khan, eu iria te mostrar do que sou capaz na cama, para que aprenda a não me desrespeitar. — fala, entredentes. — Mas não se preocupe que à noite estarei aqui e se você não estiver neste quarto, no momento que eu chegar, vou buscá-la e te foderei onde encontrá-la. — avisa e pega a farda deixada sobre o encosto de uma cadeira, vestindo-se com pressa. Ela ainda ajeita o cabelo sob o quepe e sai do quarto feito um redemoinho.

A reação da General a minha menção ao desempenho de Ben na cama foi, no mínimo, curiosa. Talvez eu devesse mudar minha atitude com ela. Passar a tratá-la de maneira dissimulada, demonstrar um pouco de carinho. Quem sabe assim, eu consiga manipulá-la e fugir deste campo de prisioneiros antes do previsto?

Quando estou voltando das plantações ao lado de Eve e Sam, vejo a General conversando ao longe, com um homem alto e careca, que anda em círculos, parecendo nervoso.

Segundo minhas companheiras, trata-se de Rama Khan, o criador dos spurious. Nunca tinha visto ele antes, pois se mantém recluso para evitar ser identificado e assassinado por algum rebelde humano.

De acordo com Eve, que ouviu alguns soldados conversando, o homem veio procurar o filho. Mon-El está "desaparecido" há vários dias e o último sinal que o chip dele emitiu foi justamente aqui, na Terra-38.

Fico tensa e, provavelmente, mais pálida, quando elas falam sobre o sumiço de Mon-El. Felizmente, ninguém percebe e quando olho novamente para a General, ela está meneando a cabeça, num gesto negativo, enquanto Khan esfrega os dedos na testa.

Ao entrarmos no galpão, onde o almoço é servido para os prisioneiros, vejo Lois cochichando com a prisioneira Kelly. Lois faz um gesto para que eu me aproxime também.

— Você ainda está querendo fugir?— Lois me pergunta num sussurro conspiratório.

— Sim! — respondo, entusiasmada.

Ela faz um sinal para que eu me contenha.

— Kelly estava me dizendo que por causa do temporal de ontem, uma árvore tombou sobre o muro de ferro, danificando a cerca elétrica que rodeia a prisão no lado norte das plantações e nenhum soldado percebeu ainda. — Lois faz uma pausa. — Ela disse que dá para alcançar o topo do muro. Mas, do outro lado, se não tiver nenhuma árvore na qual possa se apoiar, você terá que pular uns cinco metros de altura para chegar no chão.

— Se realmente planeja fugir, o momento é este, porque a General ainda está falando com Khan e logo fará a inspeção de rotina. Mas é bom saber que a prisão é cercada por uma floresta e, muito provavelmente, você pode se deparar com algum grupo de canibais. Os soldados já disseram que eles geralmente vivem perto da prisão, esperando, justamente, alguma prisioneira fugir. Isso tanto pode ser lenda, como pode ser verdade. — Kelly fala, assustada — Sem falar que quando a General sentir sua falta é provável que mande os cães ferozes no seu encalço.

Reflito um pouco.

— Prefiro arriscar a sorte lá fora, do que continuar aqui dentro! — pontuo, olhando de uma para outra, mas sentindo um pouco de medo por causa da história dos canibais — Vamos? — encaro Kelly.

— Eu não vou com você... — ela responde — Se me pegarem te ajudando serei castigada e prefiro evitar passar por isso de novo. Mas posso lhe ensinar como chegar lá. — afirma e apesar de ficar meio decepcionada com a atitude dela, entendo seu temor.

Lois também se nega a me acompanhar e dou de ombros.

Kelly me orienta e me diz o que fazer para chegar na parte do muro onde a árvore tombou, explicando também como evitar passar por algum soldado até lá.

Não demoro muito para encontrar o meu destino, pois sempre tive um excelente senso de direção. Felizmente, a distância até o topo do muro é pequena e logo estou em pé, sobre a estrutura de ferro, no lugar onde a cerca eletrificada cedeu.

Respiro fundo e olho para baixo, antes de pular e me agarrar a um galho de árvore que tem perto. Ele aguenta o meu peso e deslizo até me segurar ao tronco.

Escorrego pelo tronco e chego perto do chão, soltando-me e caindo de uma altura pequena. Fico apenas com alguns machucados e arranhões, porque ainda estou usando o uniforme de tecido grosso dos prisioneiros que cobre boa parte do meu corpo.

Dou uma última olhada para a prisão e encaro a vasta e nebulosa floresta que se estende diante de mim. Usando o sol como bússola, ando na direção de um lugar onde suponho que esteja um dos nossos esconderijos ainda não descoberto pelos spurious.

Spurious - KarLenaOnde histórias criam vida. Descubra agora