1 - O Patrão-Gostosão

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   É como se eu já estivesse morta... Vazia...

   Em "Crônica de Um Amor Louco" Bukowski diz:

   "São raríssimas as pessoas com quem aguento ficar por mais de cinco minutos sem me chatear."

   E é exatamente assim que venho me sentindo. E parece que o tempo vai diminuindo. Cinco minutos com qualquer pessoa pra mim já uma avalanche de agonia e desespero. Morar na capital de São Paulo é o pior lugar pra uma pessoa assim. 

   O transporte público, a rua e as calçadas transbordam. É gente que não acaba. E eu quase transbordava de agonia, em pé, segurando o apoio de metal do ônibus, fitando o vazio entre o vidro da janela - grosseiramente riscado por alguém aleatório - e o caos lá fora. 

   O dia estava cinza, é claro. Não passava das 6:30 da manhã e minha rinite já estava sendo atacada por um misto de cheiros insuportáveis. Havia uma garota sentada no banco a minha frente e seu cabelo estava ensopado por um creme barato que cheirava à desinfetante e massinha de modelar.

   Ao meu lado, um homem mais velho com o braço erguido segurando o apoio vertical do teto. Seu sovaco estava se deteriorando. Eu dei uma olhadinha pro lado e conseguia ver, por entre a manga curta de sua blusa, seus pentelhos grossos molhados pelo suor. Espremi meus lábios, respirei fundo por uma das narinas já que a outra estava entupida e senti um leve incômodo, uma coceira, no canal nasal. Levei a mão imediatamente ao rosto, espirrando violentamente contra a palma dela.

   A garota do cabelo ensopado me olhou. Lancei um sorriso simpático a ela, mas meus pensamentos me sussurravam: "Jogue um balde d'água na cabeça dela imediatamente".

   Eu trabalho em uma advocacia razoavelmente grande, mas que vinha sofrendo cortes de funcionários. Havia muitas reclamações e alguns casos na justiça envolvendo o "patrão-gostosão" estavam interferindo nas contratações do seu serviço.

   Em poucas palavras: a empresa estava falindo. Sou uma secretária faz-tudo de um advogado babaca e nojento que sempre arruma uma oportunidade de me elogiar quando chega e dá de cara comigo. Eu abro o sorriso mais falso do mundo e sempre lhe desejo um excelente dia, claro.

   Quando ele volta do almoço, vem direto até mim, com o canto da boca sujo de catupiry, restos de frango do recheio da coxinha presos aos dentes amarelados pelo vício em café. Sua pança caída sobre o cinto de couro velho, ajeitando o resto de cabelo grisalho que há em volta da sua cabeça enorme, ofegando a cada frase dita, me dando a sensação de que a qualquer momento irá enfartar.

   Ah, e minha colega de trabalho está fodendo com ele.

   - Não sei como consegue. - eu disse em meio a um suspiro.

   - No início é um pouco complicado, não vou mentir - Ellen começou a dizer - mas aí o Iphone surge na sua mão... Suas faturas deixam de ser um problema seu, você passa a ir ao Outback com frequência... - ela mascava um chiclete enquanto se vangloriava de chupar o saco caído do patrão por dinheiro. Aposto que o bafo dela estava fedendo a iogurte de morango e esperma.

   - Mesmo se ele colocasse alguns malotes na minha mesa agora, eu não aceitaria. - eu resmungava - Deve feder à queijo velho estragado.

   - Fede. - ela concordou com a maior naturalidade. Meu estômago embrulhou. - Mas aí é só você evitar respirar pelo nariz. Abre a boca, deixa ele bem babado e se joga.

   - Eu acho que vou vomitar... - murmurei com uma careta enquanto fitava o nada, imaginando a cena e o odor. E o sabor... Argh.

   - Amiga, não dura 2 minutos. Você nem sente de tão rápido que é!

   Eu ri e ela revirou os olhos. Dez segundos com a cara enfiada em baixo daquela pança enorme cheia de pelos e eu iria me matar. 

   - E você cospe ou... - eu me arrependi na hora de começar a expressar a minha curiosidade.

   - Eu preciso agradar o chefe, Débora. - ela exclamou.

   Fiz que ia vomitar - zoando com a cara dela - e caminhei até o banheiro.

   E dali em diante foi a mesmice de sempre. Atendi um ou outro telefonema de clientes querendo contratar o serviço do "patrão-gostosão", e inúmeros outros de antigos clientes insatisfeitos e reclamões que me davam dor de cabeça. Ellen fofocando - enquanto jogava os cabelos loiros - com uma das poucas funcionárias que ainda não haviam sido mandadas embora.

   E a sensação de querer desaparecer do mundo vinha me abraçando com o final do dia. Estava escurecendo e minha hora de ir embora já havia passado há alguns minutos, mas precisei cuidar de uma papelada que estava desorganizada e fora do lugar. Percebi algumas pastas com um carimbo escrito "confidencial", então decidi levá-las até a sala do "patrão-gostosão".

 Toc toc!

   - Pode entrar! - a voz dele se misturou com o barulho de uma gaveta batendo rápido.

   - Com licença, Sr. Antônio. - eu pude reparar no sorriso nojento dele ao me ver abrindo a porta. - Essas pastas estão com o carimbo de confidencial. Eu devo guarda-las na minha mesa mesmo?

   - Ah, não. Essas são pra ficar aqui na minha sala mesmo. - ele se levantou. Era baixo e rechonchudo. Veio na minha direção e pegou as pastas da minha mão, alisando de propósito os dedos gordos nas minhas mãos. Ele sorriu.

   -Boa noite, até amanhã. - tentei me virar rapidamente mas ele me interrompeu com a mão no ombro.

   - Calma, Lelê. - eu senti que iria morrer ao ouvir ele me chamando de um apelido que eu sempre odiei. - O que vai fazer essa noite?

   - É Quarta-Feira. Provavelmente vou cair cedo na cama pra acordar cedo amanhã e vir trabalhar. - falava enquanto pensava na Ellen se deliciando naquele saco fedorendo e gemendo toda manhosa: "tá gostando, chefinho?"

   - Não precisa vir amanhã. - ele disse, acariciando meu ombro. Puxei um pouco, tirando a mão dele de mim.

   - Estou sendo mandada embora? - perguntei. Acho que ficaria aliviada se a resposta fosse sim. Eu com certeza iria gritar de emoção. Só estava esperando a resposta.

   - Não, Lelê, claro que não. - ele voltou com a mão em meu ombro, me analisando de cima a baixo. Sua mão enrugada desceu pelo meu braço, o que me fez arrepiar de agonia.

   "Porra, para de me chamar disso"

   - Talvez eu mande Ellen embora. E as outras também... - ele dizia, ofegante. - Acho que vou ficar só com uma funcionária: você. O que me diz, Lelê? - ele encarava meu decote e fechei o casaco por cima da blusa decotada. 

   "Filho da puta nojento!"

   Aquele era o motivo da empresa estar falindo. Ele não conseguia controlar o pinto e estava com algumas acusações sérias de assédio dentro e fora da empresa.

   "Eu não vou chupar você, caralho" eu pensei e me virei, saindo rapidamente de sua sala.

   - O que disse? - ele perguntou confuso.

   Droga, acho que pensei alto demais.

   - Nada! Até amanhã! - falei mais alto, distante, tomando rumo da porta de saída, segurando minha bolsa, pisando forte e apressadamente, quase quebrando meu salto preto de agulha.

O Segurança do MetrôOnde histórias criam vida. Descubra agora