Anna se lembrou de quando seu pai estava lhe ensinando a nadar. Ela devia ter uns 7 anos. E tudo que vinha em sua mente quando de lembrava disso, era de estar caindo e caindo, vindo a luz acima de si ir sumindo aos poucos. Afundando cada vez mais. Então um braço forte a puxou para fora e quando abriu os olhos ela viu o rosto preocupado seu pai.
Era assim que se sentia agora: afundando. Mas não tinha nenhum braço que a puxasse para fora dessa vez.
O mundo continuava o mesmo. Anna estava viva para ver e perceber isso. Era a mesma cidade e o mesmo fim de inverno que sempre vivera. Mas, era como ver um jardim de flores bonitas ser invadido por ervas daninhas. Incomodavam, mas era necessário aprender a conviver com isso.
Não importa em quantos pedaços seu coração esteja partido, o mundo nunca vai parar para que você remende.
Anna se lembrou de John lendo Shakespeare para ela e Cat quando ainda eram crianças.
Segurou o choro. Tinha que ser forte.
Caleb percebeu seus olhos marejados, mas não disse nada. Apenas desviou o olhar para a noite lá fora.
Anna parou o carro em frente a sua casa no subúrbio de Spring Falls. Uma rua calma e silenciosa. As luzes da casa estavam acesas.
Caleb reconheceu o jardim de John ao se encaminhar para a residência dos Weigmam. Ele e Anna caminharam em silêncio.
Ela parou ante a porta, soprando um suspiro longo. Dava para ouvir vozes lá dentro. Não, parecia mais um choro.
Então Anna abriu a porta e entrou. Quando Caleb se viu na sala algo se chocou contra ele.
Isabel Weigmam.
Ela estava inteiramente vestida de preto. A maquiagem borrada no rosto, chorando aos gritos, agarrada aos joelhos de Caleb.
" Caleb!"Isabel choramingou. " Minha Cat..."
Ele ficou momentaneamente sem reação, assustado. Anna o olhava.
Delicadamente, Caleb ergueu Isabel do chão, abraçando-a com cuidado.
" Caleb" ela soluçou, buscando o olhar do jovem" Faça alguma coisa, por favor! Encontre minha menina!"
Ele se sentiu impotente.
Isabel sacudiu-o.
" Prometa que vai encontra-la!" Ela gritou, enfurecida.
Caleb olhou para Anna. Havia um garoto magricela com óculos grandes ao lado dela. Devia ser o Isaac.
" Eu tenho que fazer alguma coisa!" Isabel lançou-se para fora da casa.
" Ai meu Deus!" Anna gritou.
Os cabelos dourados de Isabel se agitavam contra o vento. Ela ouvia vozes chamando seu nome, pedindo para que ela parasse.
Mas ela não ia parar.
Tudo em que pensava era em Cat. Enviando mensagens para a filha, como se pudesse ouvi-la em algum lugar. Aguente firme, Cat. Eu estou indo.
Fazia um pouco de frio, mas Isabel não se importava. Podia ouvir seu coração batendo, alto e descompassado, sua respiração estava ofegante.
Sentiu uma mão quase tocar seu braço e antes mesmo do fim da rua, topeçou e caiu de barriga no na grama úmida.
" Isabel" Caleb de ajoelhou ao seu lado, ofegante.
"Mãe!"Anna gritou. Parecia estar chorando.
Isabel aceitou a grama contra seu rosto e chorou aos gritos. Arrancava a terra com as unhas, fazendo-as sangrarem.
" Cat..." Berrava." Misericórdia, meu Deus!"
As mãos de Caleb a tocaram delicadamente.
" Isabel..." ele sussurou.
" Você não prometeu!" Ela gritou." Eu tenho que achá-la!"
" Olha para mim" Caleb pediu.
Isabel rolou na grama. Anna chorava baixinho ali perto, abraçada a Isaac, que tentava fazer com que ela não tivesse que ver aquilo.
" Minha cat!" Isabel gritou, olhando para o céu." John! Seu filho da mãe, onde quer que você esteja, faça alguma coisa!"
Caleb ergueu Isabel. Ela não agia. Não resistia. Não cooperava.
" Olha para mim" Caleb pediu, a voz grave.
Então Isabel o olhou. O rosto sujo de lama.
" Eu prometo" Caleb estava firme e convicto." Não é fim, Isabel. Eu vou achá-la."
Ela chorou em silêncio e o abraçou tão forte qus ele pensou que fosse cair.
E então ficaram assim.
Isaac abraçava Anna e lhe dizia que tudo ia ficar bem, porque é isso que as pessoas dizem quando as coisas ficam difíceis.
Mas estavam todos tão fragéis. Como crianças perdidas.
*
Catherine abriu os olhos.
Por alguns instantes, tudo que viu era escuridão. Mas depois, seus olhos se adaptaram e ela foi aos poucos absorvendo a realidade ao seu redor.
Era uma caverna subterrânea úmida e quente. Gotas caíam em algum lugar.
Ela estava dentro de uma espécie de cela. Sentia muita dor pelo corpo.
Estava nua.
Sentia muita dor de cabeça.
Nunca vira um lugar como aquele. Se parecia com um escritório. Uma sala com livros, piano, cama de dorssel e um tabuleiro de xadrez feito de vidro se destacava sobre uma mesa de mármore.
Não se lembrava o caminho que percorrera até ali.
Seu pai.
Uma lágrima desceu pela sua bochecha quando se lembrou de John.
Pensou em Caleb, e no amor que sentia por ele.
Mas ninguém poderia salvá-la. Estava só. Sem esperanças.
Então ouviu passos firmes e sincronizados se aproximando. E ele apareceu em seu campo de visão. Inteiramente vestido de vermelho.
Dom Juan Triunfante.
O rosto estava coberto por uma máscara. Mas Cat sabia quem era. Sentiu ódio quando se lembrou de seu rosto.
Em silêncio, ele abriu a sela e Cat se encolheu por reflexo.
" Cat, você já leu o conto do Barba Azul?" Inquiriu e sua voz retumbou pelas paredes de pedra.
Ela assentiu.
" Então sabe o que acontece com pessoas curiosas".
Cat tinha imaginado em sua vida várias formas de morrer. Mas aquela parecia a ideal.
Morrer no lugar de alguém que se ama.
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Nosso Jogo
Mystery / ThrillerCaleb Lobethal é um prodígio. Fala vários idiomas, conheceu muitas pessoas e lugares, leu tantos livros que já perdeu as contas. Não esperava ter que voltar tão cedo em sua terra natal, mas a morte de seu antigo professor John Weigmam o obriga a vol...
