JOHN McGREGOR WEIGMAM
Em Deus está a glória: e quando os homens a ela aspiram, não passa de uma centelha de fogo celestial.
Fazia um clima perfeito para Caleb em Spring Falls quando o caixão de John Weigmam desceu e foi posto na lápide de mármore negro. Chovia ininterruptamente na cidade, deixando o dia mergulhado num crépusculo melancólico.
Quase toda a cidade estava presente no cemitério, aplaudindo timidamente e jogando rosas brancas sobre o caixão. O túmulo ficava perto do velho teixo, que se erguia como um ancião no centro do cemitério de Spring Falls.
Mesclado com o som da chuva caindo, era possível ouvir os choros baixos e lamentosos.
"Me pergunto com quem esse velho negociou a chuva." Herick comentou, ao lado de Caleb."Está sendo como ele queria."
"Talvez o céu esteja chorando sua morte." Caleb replicou, baixinho.
Herick estava inquieto.
" Já parou para pensar em uma coisa?" Herick inquiriu, balançando um pouco o guarda-chuva e deixando algumas gotas gélidas cairem sobre Caleb.
" Em quê?" Caleb murmurou. Seus olhos estavam fixos na lápide que ia sendo fechada. O choro que ia aumentando. A foto de um John sorridente acima do epitáfio.
"Não é estranho como sempre pensamos no vazio após a morte e nunca meditamos sobre o vácuo antes de nascermos?" Herick olhou de soslaio para o amigo. Caleb estava inexpressível.
" Bem, são respostas que nosso velho professor deve estar descobrindo."
Herick sorriu torto.
" Era tudo que ele sempre quis."
As lápides pálidas, epitáfios melancólicos e anjos guerreiros empunhando espadas se erguiam no horizonte.
Já era quase noite em Spring Falls e caía um chuvisco fino.
Caleb serpenteava pelos túmulos em silêncio ao lado do pai, Benjamim.
Quando se aproximaram do portão do cemitério, Caleb viu um guarda-chuva vermelho se destacando naquela palidez. Anna Weigmam se virou e não pareceu surpresa ao vê-lo. Era a irmã gêmea da ex namorada de Caleb, mas eram bivitelinas. Devia ter a mesma idade que ele. Os cabelos estavam presos e ela usava um vestido branco. Os olhos escuros cintilavam.
"Oi, Anna" Benjamim disse." Acho melhor você dar uma olhada em sua mãe."
"Tudo bem" ela suspirou, impassível.
" Caleb, eu vou buscar o carro " e Benjamim saiu andando, sem olhar para trás.
Caleb suspirou, cansado, ao lado de Anna. Os dois encaravam o nada a sua frente.
"Sinto muito pelo seu pai" ele murmurou, quebrando o silêncio.
"É, eu também" Anna comprimiu os lábios.
Permaneceram em silêncio por alguns instantes. Desconfortavelmente tenso.
"Sabe onde está a Cat?" Caleb perguntou, olhando para ela.
Anna não o olhou, mas ergueu um dos cantos da boca, numa espécie irritante de sorriso torto.
"Nunca vou entender a relação de vocês" ela disse e o olhou. Os olhos grandes e a sombrancelha erguidas.
" Nem peço que você entenda" Caleb murmurou "Até porque você não vai entender. Aliás, belo branco.
" Obrigada" Anna sorriu cinicamente e fazia questão de não esconder isso.
"Pode pedir para ela me ligar?" Caleb pediu, quando Anna voltou a olhar para o nada a sua frente.
" Vou ver o que posso fazer" ela assentiu.
" Mesmo assim, obrigada." Caleb soou irônico.
O sedã preto de Benjamim parou em frente ao cemitério.
" Até mais". Caleb disse, descendo a escadaria, saltando de dois em dois degraus.
" Que Deus não te ouça" Anna disse.
Caleb olhou para trás e viu Anna virar as costas e entrar no cemitério. Ele abriu a porta do carro e se lançou no banco traseiro.
Sua mãe, Sarah, estava sentada no banco do carona ao lado do seu pai. Os olhos estavam vermelhos.
"Pobre Anna!" Sarah choramingou." Tão apegada ao pai!"
Benjamim passou a mão pela barba e deu a partida no carro.
Caleb curvou a cabeça para trás. Spring Falls passava como o trailler de um filme pela janela.
Crescera naquela cidade, fundada por mineiros na era da exploração do ouro, rodeada por planaltos. Raramente se observava um prédio alto cortar o céu de Spring Falls. Dava até para contar nos dedos os que conseguiam tal façanha. Normalmente a cidade era pacata, com alguma agitação na primavera, quando ocorria o festival. Não existe Walmart, McDonald's ou Starbucks; no cinema só há uma sala de exibição; o teatro só funciona uma vez no ano, durante a primavera, para apresentar a mesma peça de sempre: Romeu e Julieta.
A família Lobethal era a única de judeus na cidade.
Quando se formou no ensino médio, Caleb saiu de Spring Falls para estudar em Cambridge. Sentiu-se estranhamente aliviado ao partir. Aquela cidade o sufocava. E foi nesse momento que terminou o namoro com a filha de John, Catherine Weigmam.
Benjamim parou no sinal vermelho do único semáforo da cidade, no encontro da avenida Hummels com a rua Langley. Não havia muitos carros e a chuva cessara. O dia estava mórbido. O comércio não abrira e não havia pessoas na rua.
Tudo parecia expressar uma tristeza incondicional pela morte prematura de John Weigmam.
Os Lobethal moram numa casa de arquitetura colonial inglesa, num dos pontos mais altos da cidade. Rodeada por faias e distantes do centro da cidade.
Mas havia algo diferente naquele dia.
"Benjamim, o que está acontecendo?" Sarah gritou no carro, fazendo Caleb erguer o rosto, assustado.
Havia viaturas paradas de qualquer jeito na estrada que levava à casa dos Lobethal, as luzes vermelhas e azuis piscavam e giravam. Havia homens parados no acostamento.
No alto da colina, a mansão tinha as luzes acesas e parecia cinicamente calma. Caleb viu sua irmã ao lado dos policiais.
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Nosso Jogo
Misterio / SuspensoCaleb Lobethal é um prodígio. Fala vários idiomas, conheceu muitas pessoas e lugares, leu tantos livros que já perdeu as contas. Não esperava ter que voltar tão cedo em sua terra natal, mas a morte de seu antigo professor John Weigmam o obriga a vol...
