Capítulo Único

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A voz que gritava expressava uma agonia indescritível, vívida, o puro sofrimento que corria por cada expansão das cordas vocais transformando a melodia sem rítmica no indizível. A voz invadira o seu crânio, derretendo o cérebro e transformando tudo ao redor em algo distante e imutável.

As luzes eram muito claras e brilhantes, o rosa arroxeado doía os olhos sensíveis, o roxo o lembrava daquele dia, e ele não queria se lembrar daquele dia.

Ele lutava contra aquele dia todas as noites em que deitava a cabeça em seu travesseiro.

Engoliu em seco, a imagem do ocultista estaria impregnada em sua mente, ele saberia disso no momento em que fecharia os olhos. Os gritos ressoando como um eco distante, mesmo que incapaz de serem escutados em meio a tela grande e colorida, quando a voz aguda e nauseante surgiu no ambiente.

Seu coração batia com força contra as costelas, os olhos ardentes lacrimejando, as mãos cerradas em punhos com o calor que irradiava em seu sangue. Os lábios estavam apertados e a garganta seca, e sua mente havia se tornado ainda mais consciente do peso da jaqueta preta sob seus ombros e o pequeno chiado decorrente dos fios no peito, coçando, doloridos.

Rubens Naluti sentia tanta raiva.

E do que adiantava tudo aquilo? Do que adiantava ter chegado até aqui? Era pra isso? Pra apenas cair em mais um maldito jogo onde veria uma pessoa ser torturada em sua frente restando apenas uma escolha e companheiros traumatizados?

Ele notou os rostos de choque, ele mesmo sequer tinha alguma expressão.

Na época do colégio, as pessoas diziam que ele era estranho e não tinha um coração, antipático, a diretora o chamou de psicopata uma vez, quando um colega caiu na sua frente e abriu o queixo, jorrando sangue pra todo lado e não demonstrou reação alguma. Não é como se não tivesse ficado angustiado, ele estava. Só era mais difícil de expressar.

Rubens notou cedo que as pessoas não precisavam pensar em suas reações, expressões faciais ou no tom da voz durante um diálogo. Na realidade, ele sequer falava até os cinco anos, e ainda era difícil, muito difícil. Sua garganta parecia fechar e sentia até mesmo uma pressão horrível no cérebro, que se esvaia sobre os seus ombros e os deixavam constantemente tensos, necessitando de movimento constante.

Os colegas da escola não gostavam muito dele. Ele era estranho, fazia coisas estranhas, não tinha reações ou se irritava fácil, e sua fala era muito embolada e incompreensível, isso se falasse, pois falar era desgastante. As vezes, era como se um bolo se formasse em sua garganta e impedia qualquer som de sair, não importa como ele tentasse ou insistisse. Ou era como estar submerso em água, abrir a boca apenas para o liquido entrar e impedir os sons de sairem, retirando o ar que resta e invadindo os pulmões em cascatas. Angustiante.

As palavras-chave vieram ainda na infância, foi a forma que encontrou de expressar o que queria sem que incomodasse tanto, e mesmo sendo confuso e as pessoas o achassem esquisito e até rissem dele à primeira vista, era o que funcionava antes que sua garganta fechasse completamente.

E doía, doía como uma infecção de garganta que no final, sequer existia. Doía como se seus lábios ficassem dormentes, como se um dentista tivesse aplicado anestesia em sua língua, como socos no estômago e os tímpanos estourando, como estar afogando no oceano

A luz roxa o fez piscar mais do que deveria, a dor atrás das orbes oculares confundindo a sua mente e deixando o arredor turvo e movendo-se como um barco em alto mar.

Johnny faria alguma coisa, Johnny Tabasco era corajoso e protegia a todos como o homem forte que era. Um homem de verdade, um amparo de verdade. Ele acabaria e quebraria com qualquer problema que surgisse no caminho, como sempre foi a sua vontade.

A sua vontade - Rubens NalutiOnde histórias criam vida. Descubra agora