O recado

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Hoje me pergunto se temos poder sobre nossas escolhas ou o destino já as definiu contra nossa vontade.

Vinte e quatro horas antes, eu lecionava minha última aula de biomedicina na renomada universidade Anhembi. Quando fiquei sozinha na sala, recebi uma ligação do professor Ícaro Fontes, um cientista da computação que há meses estava recluso em um projeto pessoal que prometia elevar a fama da instituição Brasil afora. Guardei meu celular na bolsa e caminhei até o seu laboratório de experimentos. Nada se ouvia no caminho além de conversas e risadas dos jovens à distância, saindo do prédio ao anoitecer daquela sexta-feira, treze de setembro.

O laboratório tinha pouca iluminação e a temperatura era bem menor que o exterior. Senti-me numa câmara fria, exceto que no lugar de ver prateleiras com alimentos perecíveis, contemplava o que deduzia ser uma máquina de ressonância magnética e uma mesa de escritório mais ao fundo. Atrás dela, sobressaltando com minha chegada, surgiu meu amigo, trajado numa jaqueta de couro marrom por baixo do avental transparente. Notei de imediato suas olheiras, deixando seus olhos como dois buracos negros sob a baixa claridade do recinto.

— Há quanto tempo está sem dormir? — perguntei, tentando não ser crítica demais.

Ele me respondeu com estimativas, tal como um cientista faz quando quer provar uma teoria. Suas mãos tremiam um pouco, o que disfarçava coçando a nuca. Talvez fosse pelo frio ou excesso de cafeína. Depois, me contou o que fazia no intervalo de suas aulas, sua nova obsessão. Conseguira permissão para restaurar aquela máquina de ressonância e utilizá-la em suas experiências. Parecia uma pesquisa médica inocente. Mas ele começou a usar termos de física quântica que me confundiram e precisei interrompê-lo:

— Me explique da forma que um leigo entenderia!

— Viagem no tempo! — ele resumiu, com um sorriso triunfante — Não como num Delorean ou nave futurista. Talvez daqui à seis anos, em 2030, será possível enviar um aglomerado de células ao passado. Mas sabemos que isso requer muita energia. Estou falando de ondas cerebrais, ondas que meu novo sistema pode converter em energia eletromagnética, radiofrequência ou sonora e mandá-las para o futuro ou passado próximos. Os últimos testes em ratos foram promissores. Os primeiros entraram em coma profundo e os perdi. Agora você, Mariana, como minha melhor amiga, gostaria que fosse a primeira humana a testar.

— Imagine se eu não fosse “amiga”! — debochei — Tá louco, Ícaro, sabe que tenho sono pesado, com certeza seria como o primeiro rato que entrou em coma! Você devia deixar a ciência de lado e procurar uma namorada, isso sim! Vá dormir! — dei meia volta.

Dirigi meu Sedan prata pelas ruas da capital até minha casa na Paulista, tentando rir da situação, porém, com um resíduo de pena pelo meu amigo. Alvo de gozação por parte dos colegas desde a infância por estar acima do peso, ele encontrava consolo nos livros de física da escola. Agora, com quatro décadas de vida e três vezes mais em quilos, o sonho de se casar parecia mais distante. Felizmente os pais, com quem mora, são grandes apoiadores, assim como os meus.

Enquanto preparava o jantar às oito da noite, minha filha adolescente Ana Sofia, chegou do colégio entusiasmada. Jogou a mochila sobre o sofá e apanhou um livro com um pentagrama na capa de fundo preto. Disse que algumas amigas o recomendaram e ela encontrou na ala reservada da biblioteca.

— É um livro de Wicca, mãe. Sabe que sempre gostei de me vestir de bruxa em todas as festas da escola desde criança. Agora sei o por quê.

— Tá, mas não vá inventar de fazer um ritual no meio da noite. E se eu pegar um tabuleiro Ouija no seu quarto, vai rolar palmadas! — fiz o gesto com a mão livre.

Ela gargalhou e foi tomar banho. Com dezesseis anos, é muito responsável e faz questão de participar nas eleições. Ajudará a escolher o prefeito e o vereador da cidade, exercer a cidadania. Portanto, um livro não a faria fazer uma bobagem.

No entanto, a meia-noite, meu celular começa a vibrar na cabeceira da cama. Sempre o deixei no silencioso a essa hora e normalmente nenhum aluno ou colega de trabalho me incomodaria. Estava quase pegando no sono; mais cinco minutos e a pessoa do outro lado ficaria no vácuo. Bufando, vi que era de número desconhecido. “Vou atender e xingar”, pensei, mas a voz que veio reverberava um desespero crescente:

Mariana Sofia, por favor não desligue, preciso te dar um recado muito importante…”

Arregalei os olhos e o sono desapareceu. Perguntei ofegante quem era.

“Daqui a dez minutos, o quarto de sua filha Ana estará em chamas. Tire ela de lá imediatamente. Talvez você descubra a origem e evite o incêndio. Caso contrário, ligue para os bombeiros e…”

— Quem pensa que é pra me passar trote essa hora, sua vaca? Vá ligar pra TUA MÃE!

Desliguei o aparelho com raiva e o joguei no colchão. Cocei os olhos. A casa estava num silêncio mortal. Afundei a cabeça no travesseiro e implorei para o sono voltar. Mas aquela voz não saía da mente. Era familiar demais. Minutos passavam como se fossem horas. Enfim, levantei e caminhei lentamente até o quarto de Ana, do outro lado do corredor do andar superior da casa, há uma distância de uns vinte metros.
Tudo parecia normal, até uma luz amarelada tremeluzente surgir por baixo da porta. Meu coração disparou. Então veio o contraste do ambiente do laboratório de Ícaro, o calor insano atravessando a madeira. Quando a fumaça começou a escapar pelo corredor, vi que precisava agir. Aquele recado não era um trote.

A porta estava emperrada, Ana tinha o costume de passar o ferrolho, afinal somos duas mulheres sozinhas numa casa grande. Quando forcei a maçaneta, escutei seu primeiro grito de desespero. Com sono pesado também, ela foi engolfada pelo calor e despertou com as chamas engolindo suas cobertas. Não esperei que ela levantasse, devia estar em pânico para isso. Fui tomada pela força que só as mães conhecem quando têm que proteger suas crias do perigo. Chutei o centro da porta uma, duas, três vezes. A planta do meu pé direito possivelmente foi gravada na madeira. Até que ela cedeu e o ferrolho caiu. Fui tomada pela visão do inferno, com Ana no centro das labaredas, tossindo descontroladamente. A cortina foi a primeira a queimar e, de relance, vi algumas velas no chão. Ela deve ter deixado-as acesas e uma ou mais tombaram sobre a cortina. Não era hora de julgar. Tirei outra coberta do guarda-roupa ainda intacto e abafei o fogo o suficiente para agarrar minha filha e sair daquele ambiente hostil. Ela é magra e de baixa estatura e mesmo que fosse como meu amigo, com minha força momentânea ia carregá-la de qualquer jeito.

Os vizinhos se aglomeraram na calçada e um deles ligou para os bombeiros. Chegaram dez minutos depois. Uma nuvem negra como um demônio escapava pela janela do quarto de Sofia. Com os rostos cobertos de fuligem e queimaduras de primeiro grau, fomos atendidas pela emergência. Passamos o resto da noite no hospital, em observação.

Já podia ver as manchetes quando os repórteres vieram: “Professora viúva de biomedicina da universidade Anhembi, salva filha única de incêndio.”

Repousei o dia todo pensando naquela voz, enquanto dava meu depoimento e entrevistas. Omiti o telefonema, afirmando ter sentido uma forte premonição. Ninguém precisava investigar meu aparelho para me desmentir.

Ao anoitecer, retornei a universidade, enquanto as amigas de Ana a distraíram com o filme da Barbie e pipocas. Deram-me uma semana de licença para me recuperar do choque, mas eu tinha que enterrar o passado o quanto antes. Entrei mais agasalhada no laboratório particular de Fontes e o encarei nos olhos fundos:

— Mudei de ideia! — balbuciei em voz rouca, aquela que reconheci na noite passada.

Deitei numa esteira, com o corpo ereto, braços relaxados e com eletrodos na cabeça. Ícaro injetou umas drogas no meu braço e acariciou minha testa.

— Você só vai sonhar e durante o sono rem, vou estudar suas ondas cerebrais.

— E se eu não acordar mais? — sussurrei, sentindo o anestésico fazer efeito.

Ele apenas sorriu e empurrou a esteira para dentro da máquina. Nada importa, a não ser evitar que o destino de Ana seja pior. Dizem que podemos escolher nossos sonhos se nos concentrarmos previamente. Tudo que vejo é um telefone antigo branco, de painel redondo como meus pais e avós usavam. Nesse mundo onírico e porventura permanente que adentrei, sinto o fone em minha mão esquerda enquanto disco meu número com a outra. Um toque, dois toques, três toques. Mais alguns e  atendo:

“— Mariana Sofia, por favor não desligue, preciso te dar um recado muito importante…”

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⏰ Última atualização: Feb 13, 2024 ⏰

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