Conheci Ayla no ensino fundamental. Éramos duas crianças elétricas, inconsequentes e impossíveis de controlar. Eu, sempre com energia demais e limites de menos. Ela, com aquele brilho travesso no olhar que indicava confusão à vista. Desde o início, nossa amizade foi marcada por provocações e pegadinhas quase elaboradas demais para duas crianças de dez anos.
Quem ouve Ayla contando sobre nossas traquinagens acha que fui o único culpado, mas ela convenientemente esquece que foi a mente por trás de boa parte das minhas humilhações públicas. Como quando colocou vinagre no meu suco. Ou o café com sal que me fez cuspir no pátio da escola. Mas nada disso era maldade. A gente ria, ria muito. Tínhamos uma conexão que desafiava qualquer definição.
Com o tempo, aquele laço infantil foi crescendo junto com a gente, mudando de forma — mesmo que eu não percebesse. Quando Ayla começou a namorar, aos quinze, eu senti algo estranho. Um incômodo. Um desconforto difícil de nomear. Não era raiva, mas ardia. Especialmente quando ela o abraçava em público ou — pior — beijava sua bochecha como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Eu dizia a mim mesmo que era só ciúme de melhor amigo. Que era protetividade. Que aquele sujeito tinha cara de problema. E, de fato, ele tinha.
O cara era uma tempestade disfarçada de céu limpo. Para os outros, ele parecia um namorado exemplar — educado, prestativo, sempre presente. Mas eu via nas entrelinhas. Nos silêncios. Nos olhares dela. Ayla foi se apagando aos poucos, como se vivesse com medo de errar, como se qualquer opinião pudesse ser mal interpretada. A Ayla que eu conhecia — intensa, barulhenta, apaixonada pelas coisas mais bobas — foi se tornando cautelosa. Controlada. Ele fazia parecer que tudo era por amor, mas havia um peso ali. Um controle sutil, cruel.
Foi quando eles terminaram que tudo se revelou de vez. Ayla estava diferente. Quebrada. Como se tivesse lutado tanto para manter um relacionamento que a consumia que não sobrara energia para mais nada. Ela tinha dezoito anos. Eu também. E foi ali, naquele intervalo entre o fim e a reconstrução, que percebi: o que eu sentia não era só amizade.
A verdade me atingiu como um soco silencioso — eu a amava. Sempre amei, talvez desde os onze anos, quando me sentia inquieto demais ao vê-la sorrindo para alguém que não fosse eu. Mas só aos dezoito entendi. Só quando vi que ela estava despedaçada demais para amar alguém de volta. E, como sempre, guardei esse sentimento no bolso. Como quem segura um segredo quente demais para ser revelado.
Desde então, Ayla nunca mais se envolveu com ninguém. É como se tivesse fechado a porta para o amor — ou talvez tivesse medo de abri-la novamente e deixar entrar o que a feriu antes. Aos vinte e dois, ela ainda carrega no olhar a doçura de sempre, mas há também uma espécie de cansaço ali. Como se não soubesse mais como confiar.
Já eu… segui fingindo. Encontrei outras pessoas, vivi outras histórias. Mas nenhuma que conseguisse se encaixar no espaço que Ayla ocupa. E quando alguma se aproximava demais, vinham os pedidos de afastamento. “Ela é só sua amiga?”, perguntavam. E eu respondia que sim — porque era verdade. Mas era também uma meia verdade. Porque ninguém entende que Ayla é parte da minha estrutura. Minha confidente, minha constante. O que sobra quando todo o resto falha.
Nunca disse nada. Nunca insinuei. Porque ainda estava ajudando ela colar os cacos. E porque eu preferia estar ao lado dela assim — meio homem, meio abrigo — do que correr o risco de ser mais uma dor em sua história.
Ela é feita de música e memória. Luan Santana, One Direction, James Arthur nas minhas lives. Ayla me ensinou a cantar, mesmo que sem perceber. Me ensinou a ouvir. E, no fundo, me ensinou o que era amor, mesmo quando ela mesma já não acreditava mais nisso.
Ainda sei suas músicas favoritas. Sei que ela ama chuva, mas odeia trovão. Que tem medo de coisas enormes — megalofobia, foi o que ela disse outro dia — e que, por minha culpa, não suporta mais gatos. Sei que não teme sapos, a não ser que eles façam barulho. Sei que sua teimosia é lendária, e que quando ela está triste, coloca a mesma música no repeat até decorar cada sílaba.
Eu a conheço como se ela fosse uma extensão de mim. E talvez por isso nunca tenha deixado de amá-la. Mesmo que em silêncio. Mesmo que escondido sob o rótulo de amizade.
Desejo que um dia ela se permita amar de novo. Que alguém apareça e a veja como eu vejo — com todos os detalhes, as falhas, os brilhos. Que a faça sorrir com o tipo de leveza que só se sente quando o medo vai embora.
E se esse dia chegar… estarei aqui. Como sempre estive. Fingindo que não dói.
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O Despertar Do Amor
Romance📣 AVISO IMPORTANTE: Essa história ja está no Kindle e Amazon! Ayla e Erick cresceram juntos - e hoje,dividem não só uma amizade intensa, mas também os holofotes das lives que fazem como streamers. Depois de um relacionamento abusivo, Ayla se conve...
