-ABRIL-
25 - Oh, céus! Esqueci de escrever mais pois estava ajudando minha mãe nos afazeres do casebre afim de partilhar a exaustão, ela merece descansar. Minha prima Neide veio junto de meu pai para passar um tempo em nossa humilde residência pois queria compartilhar as alegrias de minha volta junto a mim. Faz três dias que ela enfim chegou e tivemos nossos tempos para atualizar a prosa e entre esses momentos compartilhei com a mesma a inquietação do meu coração que contraria minha cólera ao mostrar-se acorrentado a Bentinho.
- Minha querida prima, não sei o que fazer com meu coração... Eu o amo mas ele insiste em tratar-me com desprezo na frente dos outros. Uma parte de mim quer acreditar que ele só o faz pois sua posição social o impede de se relacionar comigo. Contudo, a outra metade de mim não quer se submeter a tal sofrimento por mais tempo. O que faço?
- Queres saber o que realmente penso de tudo isso? - Perguntou ela segurando em minha mão e com uma expressão de falsa preocupação.
- Por favor, seja sincera.
- Deverias desistir de tudo isso. Acho uma perda de tempo continuar apaixonada por ele. Olhe as diferenças entre vocês. Não estás à altura dos Santiago. Não tens nem onde cair morta, Capitu! Por favor, siga meus conselhos e se afaste dele. Irá evitar mais dores. - ela colocou a mão em minha bochecha. - Digo isso pois me preocupo contigo e quero o seu bem, nada mais que isso.
- Você deve ter razão...
O tempo foi passando e desejei que com ele fosse embora meus sentimentos por Bento. Quando num belo dia me vi ansiosa demais e parecia que esqueci de respirar. Foi então que minha mãe me deu a tarde de folga para que recuperasse meu fôlego, ela sempre sabe quando tem algo errado mas decidiu não perguntar muito. Decidi limpar a mente no riacho que nesse sol devia estar muito lindo. Chegando lá vejo a água cristalina, os passarinhos brincando entre as árvores e a brisa leve convidava a me refrescar. Assim o fiz. Respirei fundo e me senti grata pela paz que aquele lugar transmitia e então me entreguei ao riacho mergulhando até suas entranhas e lá embaixo os raios de Sol iluminavam aquele mundo escondido. Horas depois me senti mais revigorada então sai do riacho. Voltando para meu casebre resolvi dar um final adequado àquela tarde e fui finalizar meus cabelos que eram de um moreno intenso e seus cachos traçavam um caminho dos meus ombros até meu assento. Me sentei perto do pé de manga que está plantado muitos antes de eu correr por aqueles terreiros. Cantarolo a música La belle de jour de Alceu Valença, tão linda quanto está tarde. De súbito vejo o dono de meus suspiros, aquele que transborda em mim tamanha indecisão e aumenta minha cólera ao ponto de me deixar de ressaca após tantas doses de dor.
- Capitu?
- Olá, senhor Bento.
- Não me trate como se fossemos meros estranhos.
- E não é isso que significamos um para o outro?
- É claro que não! Senti que vossa mercê andava me evitando e vim até seu... Casebre verificar como estaria a senhorita.
- Pare de fazer isso!
- Fazer o quê?
- Pare de brincar com meus nervos desse jeito! Não mereço ser menosprezada na frente de quem o senhor julga melhor que eu e quando estivermos a sós o sinhô-moço me trate de maneira gentil. Entendo que nossas posições sociais são diferentes mas me arrisquei a amá-lo pois não me importo com o que pensam de minha pessoa, contanto que tu me vejas com ternura, o que o mesmo não o faz...
- Sinto pelas minhas atitudes... Deixe-me invadir os desejos de mamãe e as cobranças a mim impostas por aqueles que residem na mesma casa que eu. Depois de tantos anos finalmente percebo a grandeza de meus sentimentos por ti, oh minha Capitu. Te vejo e hoje vim até seu encontro para dizer-lhe que a amo ardemente!
- Tu me amas? Não é amor o que vejo quando me olhas com aqueles olhos acentuados e com tamanho desprezo!
- Peço perdão minha Capitu! Não posso te perder! Não agora que enxergo que tu és o amor da minha vida, sou eternamente teu!
Nesse momento uma manga rosa do tamanho de uma rocha cai na cabeça de Bentinho e o derruba, o que me assustou de verdade. Será isso um sinal do meu Deus para ir embora? Não. Não posso deixá-lo caído e sozinho. Quando me apresso para levantá-lo sinto que sou arrebatada também por outra manga que caira com força na minha cabeça.
- Meu Deus, que dor! Por que isso meu senhor?!
Se isso foi algum sinal de alerta para que me retirasse da vida de Bentinho, não me persuadiu o suficiente. Fui ajudar o homem que agora já acordou.
- O que aconteceu? Perguntou o rapaz.
- Fomos acertados como alvos por essas mangas!
Me ajoelho ao seu lado e ponho a mão onde a fruta caira.
- Vai ficar tudo bem, não foi grave.
- Com você ao meu lado posso passar por tudo.
Ele então toma minha mão para si e a põe em seu peito.
- Sente isto, minha Capitu? Ele anseia por você! Por obséquio, sintonize seus batimentos com os meus.
E como num passe de mágica meu coração se acelerou como o de Bentinho e nós ficamos ali nos olhando com brilho nos olhos. A tarde estava indo embora e a Lua surgia no céu da chácara. O que não nos incomodou pois a luz do nosso amor era o suficiente para nós.
- Fique junto a mim minha Capitu e lhe prometo só ter olhos para ti. Quando separados, ansiarei nosso reencontro para que nossa conexão se torne mais forte.
- Me entrego a ti, meu amor pois meu coração anseia nosso reencontro desde nossa infância.
- Me queira que por ti desistirei dos planos de mamãe e sua promessa com nosso Deus.
- Oh, por favor, não quero ser o objeto que atrapalhará seu futuro!
- Não diga isso, minha Capitu. Há tempos penso que não sirvo para tal área e agora contigo junto a mim vejo nosso futuro juntos.
- Se é o destino que você quer então irei compartilhá-lo contigo, meu Bentinho.
Nesse silêncio sinto-me puxada para perto de meu amado que acaricia meu rosto e trilha sua mão até minha nuca. Naquele momento senti como se não existisse nada além de nossos corpos ali se esquentando na noite que começara a lançar seu véu gélido sobre o terreiro. Ele me toma para si num beijo demorado e pouco a pouco aceleramos o ritmo nos aproximamos cada vez mais. Me encontro agora no colo de meu amado que não me deixa afastar nem um centímetro do seu corpo. O pé de manga é a única coisa que impede que outras pessoas do casebre nos percebam. Ele então segura minha nuca mais forte mas não me machuca, nosso beijo toma todo meu ar mas não me importo. Estou amando, amando! Enfim paramos para tomar fôlego mas ele me mantém em seu colo.
- Enfim somos um do outro, minha Capitu. É com pesar que te digo que minha partida para o seminário de aproxima.
- Quando ais de partir, meu Bentinho?
- Em dois dias... Não quero deixá-la para trás e não o farei. Voltarei para seus braços. Mas peço que em minha ausência lembre-se de nossos bons momentos juntos e não se sinta tentada a repetir eles com outro alguém. Sei que é difícil para você segurar essa sua magia que me deixa inebriado mas por favor lute!
- O que estás a me pedir?
- Achas que não consegue?
- Não é isso! Não acredito que depois de tudo que passamos você ainda dúvida de minha integridade ao nosso amor...
- Não é isso minha Capitu! Sinto-me sem direção quando não estou ao teu lado, apenas estou com medo que um terceiro te veja como eu te vejo.
- Mesmo que alguém me veja como tu não significa que o verei como meu Bentinho!
- Assim me sinto mais seguro.
Nesse instante ouvimos algo na mata que nos cerca, como se fosse algum galho se quebrando. Será que alguém nos viu?! Tenho que ir!
- Melhor entrarmos agora, está na hora da janta!
- Já tenho certeza que hoje provei a sobremesa primeiro. Diz ele com um sorriso de lado.
- Não diga isso! - Corro envergonhada para dentro, o que surpreende meus pais que estão pondo a mesa.
- Filha, você está bem?!
- Estou mãe! Só me assustei com um coiote!
- Esses bichos imundos ousam assustar minha filha?! Hoje eu vou caçar!
- Que ótimo! Amanhã teremos coiote para o almoço.
Fiquei no quarto me acalmando quando vejo minha prima entrar no lugar.
-Olá Capitolina.
- Minha prima! Não sabes quão alegre estou! Meu Bentinho se declarou para mim!
- O que?! Como assim? Não minta para mim!
- Não é mentira! Agora mesmo ele disse que não iria tornar a promessa de sua mãe realidade! Ele está disposto a viver uma vida comigo.
- Como ousa tirar o sinhô-moço de seu caminho predestinado?! Não podes fazer isso! Vai deixar ele nas mãos da desgraça e tu serás a culpada!
- Não fale assim... Busco seu apoio para seguir meu coração.
- Não apoiarei tal risco ao destino de Bento! Os Santiago precisam manter-se num nível alto para que a vida faça sentido ao meu redor. E você, Capitolina, está botando isso em risco!
- Me magoa ouvir isso de você, minha amiga tão querida...
- Essa sua cor do pecado não deve contaminar Bentinho.
- Não o chame assim!
- Não se ache a dona dele! Não estás a altura de tal homem.
- Você não tem escrúpulos mesmo Neide! Não me dirija uma palavra sequer. A partir deste instante não és minha família.
- Oh, estou abatida! Não me faça rir, tola.
Saio às pressas do quarto e vou respirar lá fora. Não tenho fome para jantar essa noite. Depois de instantes entro para o quarto e digo para mamãe uma desculpa que parece funcionar. Me deito e dessa vez minhas lágrimas caem não por tristeza e mágoa, esses sentimentos dão lugar ao menosprezo de uma antiga amizade. Não quero mais me deixar magoar pelas pessoas que amo, preciso ficar mais forte!
Dois dias se passaram. Dois dias era tudo o que eu tive para passar ao lado de meu amado. Ele iria embora ao anoitecer e eu não sabia por quanto tempo ficariamos longe um do outro. Dizia ele que ia voltar logo, mas logo quando? Em 1 mês? Em 2 anos? A ansiedade me consumia a cada minuto.
- Já estou farta disso Capitu! - Mamãe me chama a atenção - No que tanto pensas? Tem dias que estás no mundo da lua.
Era 11:25 e eu estava a ajudando no almoço. Estou lavando algumas verduras enquanto mamãe está sentada á mesa cortando-as. Ela tem uma feição preocupada e levemente irritada.
- Não é nada mamãe. Estou apenas pensante. - digo uma meia verdade. Não falaria sobre meus amores por Bentinho e de como estava de coração partido. Pelo menos não por agora.
- Estou apenas preocupada com você, minha filha. Sabes que podes falar comigo, não sabe?
- Sei sim mamãe, mas fique tranquila. Lhe prometo que não é nada demais.
Logo após o almoço, decidi me sentar à mangueira novamente, esperava que meu amado viesse ao meu encontro. Esse se tornou nosso local. Pus uma longa toalha no chão embaixo de onde nossas iniciais estavam gravadas na grande árvore e peguei um de meus livros favoritos para ler. Porém, não consegui pregar o olho nas palavras à minha frente. Toda minha concentração estava há dois dias atrás quando, nesse mesmo local, Bentinho e eu fizemos juras de amor um para o outro. Ainda podia sentir seus lábios em minha boca, seu toque firme em minha cintura e sua respiração em meu pescoço. Essas lembranças fazem meu corpo ferver como brazas na lareira na noite mais fria do ano.
- No que tanto pensas, minha Capitu? - assustei-me com a voz de meu amado, que estava em pé ao meu lado. O sol batia em seu rosto e refletia seu belo e grande sorriso.
- A quanto tempo estás aqui? - perguntei, sentindo o rubor em minhas bochechas crescer como se tivesse sido pega fazendo algo que não devia. Seu sorriso travesso parecia ter crescido mais enquanto me observava. Como se pudesse ler minha mente.
- Creio ter perdido a noção do tempo enquanto admirava sua beleza estonteante. - ele estende a mão para mim. - Venha para mim, minha Capitu. Quero aproveitar o tempo restante que tenho contigo.
Instantaneamente, eu pego sua mão e o mesmo me puxa para si, me abraçando calorosamente. Tudo parecia sumir quando estávamos juntos. Nos abraçávamos como se precisássemos disso para viver. Como se fossemos o oxigênio um do outro.
- Não me deixe. - eu digo com a voz embargada.
- Não quero deixá-la - ele me segura mais forte. - Prometo fazer de tudo para voltar para você, minha querida.
Eu me afasto um pouco e coloco minha mão em sua bochecha a acariciando.
- Farei o possível para tirá-lo de lá!
Nos sentamos à mangueira novamente e aproveitamos nosso resto de tarde com carícias de todas as formas, juras de amor e mais promessas. Eu não iria permitir que esse seminário nos afastasse. Nós iriamos achar um jeito. Eu iria achar um jeito de trazer o meu bentinho de volta.
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Olhos De Cigana
FanfictionVenho por meio deste registro vos mostrar um ponto de vista diferente daquele que chegou ao seu conhecimento, caro leitor pois ninguém melhor que eu, Capitolina para contar minha própria história. "Olhos de cigana" foi uma tentativa de usarem de min...
