MEU NOME É LOUIS, algumas pessoas acham estranho já que sou uma garota e Louis é um nome masculino francês. Eu também acho estranho, não vou negar, mas o que mais posso fazer a não ser aceitar?
Este nome foi escolhido pelo meu avô materno, antes de eu nascer ele pensou que eu iria ser um menino, por conta do formato da barriga ou algo assim... além disso, ele sempre dizia a minha família que era seu sonho ter um filho menino, mas a única a nascer foi minha mãe. Meu avô faleceu um mês antes de eu nascer, e meus pais decidiram o homenagear com esse nome por conta disso.
Eles poderiam ter colocado Louise, mas acho que estavam tão chateados com a morte dele que quando eu nasci eles só me registraram logo sem nem pensar muito.
Hoje tenho 17 anos e esse nome já não me importa mais, estou mais focada no que realmente gosto de fazer e nas pessoas que gostam de me ter por perto.
Eu não sei muito sobre a vida lá fora, mas sei que aqui no Hawaii, minha vida é incrível (bom, até certo ponto...)
Hoje o dia está lindo mesmo para mim que acordo parecendo uma bruxa de mal humor todo santo dia, hoje não foi diferente.
Eu nunca me importei em andar parecendo uma destrambelhada pela casa, sempre fiz isso desde pequena, nunca tive vergonha de nada e não é agora que vou ter.
Eu moro em uma casa de praia com minha mãe e minha irmã, bem de frente para a praia, aqui é sempre fresco e nunca fica em silêncio por conta do mar inquieto o dia todo (e da areia chata que sempre entra aqui dentro)
Minha casa sempre teve cheiro de sal, sol e lembrança.
Ela fica ali, de frente pro mar, como se tivesse sido colocada naquele exato ponto do mundo só pra me lembrar que tudo pode recomeçar — mesmo depois de uma tempestade.
As paredes são pintadas de verde água, meio desbotadas pelo sol, mas é exatamente isso que eu amo. Meu mãe dizia que essa cor era a alma do Havaí. A varanda de madeira range sob os pés, e eu sei de cor quais tábuas fazem barulho. Ali, naquele cantinho com duas poltronas e uma mesa de madeira, já vivi as melhores conversas da minha vida. Com o Kai. Com a Lia. Comigo mesma.
Tem um caminho de madeira sobre a areia branca que leva até a porta, cercado por pedras, folhas grandes e um daqueles ofurôs que quase ninguém usa — exceto quando o dia termina e a gente só quer ouvir o mar sem dizer nada.
Essa casa não é grande, nem chique. Mas é o meu lugar no mundo.
Foi aqui que aprendi a surfar, a perder o medo e a gostar de ficar sozinha.
Às vezes, só de fechar os olhos, ainda escuto o riso do Kai ecoando pelo deck, o som dos passos apressados da Lia na cozinha, e a brisa me lembrando que o tempo passa... mas algumas coisas ficam.
E bom... acho que oque ouvi não era bem apenas na minha cabeça. Kai estava na cozinha antes de mim — de novo.
Sentado à mesa, rindo com a Lia e com a minha mãe como se morasse ali. E, pra ser justa, ele praticamente mora mesmo. Desde que a gente tinha oito anos, ele aparecia aqui quase todo dia. No começo era só pra brincar de guerra de balões, depois virou mar, treino, tarefa de escola, e agora... café da manhã improvisado com mamão, pão e café preto.
Ele usava uma camiseta velha dele que já devia ter ido pro lixo faz tempo e o cabelo ainda estava bagunçado do mar. Aposto que já tinha surfado antes de eu acordar. Kai sempre gostou das horas que o mundo ainda tá meio dormindo.
Minha mãe colocou um prato extra na mesa, sem nem perguntar se ele ia ficar. Era automático. Como acender a luz. E Lia falava com ele sobre alguma coisa da faculdade, e ele fingia que entendia só pra provocar.
Kai era isso. Um pedaço da minha rotina que nunca precisou ser explicado.
Não era sobre presença, era sobre permanência.
E mesmo sem prometer nada, ele sempre esteve.
Kai é... o tipo de pessoa que carrega o verão nos ombros.
Ele entra nos lugares como se trouxesse luz. Fala com todo mundo como se conhecesse há anos. E tem esse jeito leve, quase irresponsável, de viver como se amanhã fosse tarde demais. Talvez seja por isso que me assusta tanto — porque ele nunca parece preso a nada. Nem a ninguém.
Mas nessa manhã, vendo ele ali, tão à vontade com a minha família, eu senti uma coisa estranha: uma vontade de congelar aquele momento. De colá-lo em algum canto da minha memória e gritar pra mim mesma: "Não esquece disso. Nunca."
Eu devia ter uns oito anos. Estava sentada na areia, de braços cruzados, emburrada porque a prancha nova que meu pai me deu era "muito grande" e eu tinha acabado de levar um caldo épico.
Estava decidida a nunca mais surfar. Nem naquele dia. Nem nunca.
Foi quando ele apareceu.
— Você parece que brigou com o mar. — ele disse, com os pés descalços afundando na areia e uma prancha debaixo do braço que parecia maior do que ele.
Olhei torto, sem paciência.
— Eu caí. Duas vezes. — respondi.
— Só duas? Tá indo bem. Eu caí cinco vezes antes do café da manhã.
Fiquei em silêncio. Ele sentou ao meu lado como se me conhecesse. Como se fosse óbvio que podia ficar ali. Não perguntou meu nome. Não me ofereceu ajuda. Só começou a desenhar com o dedo na areia.
Uma onda. Um peixinho. Um coqueiro meio torto.
— A gente pode cair cem vezes — ele disse, ainda desenhando — mas o mar não vai a lugar nenhum. Ele sempre espera.
Foi ali, naquele silêncio confortável, entre o vento e o sal, que alguma coisa se conectou.
Desde então, ele passou a bater aqui em casa quase todo dia.
E ficou.
A gente cresceu no ritmo das marés.
Cada um com sua prancha, sua história, suas manias. Mas sempre voltando pro mesmo ponto:
a areia quente, o mar em frente...
e a certeza de que a gente se tinha.
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O Nosso Último Verão
RomanceO Nosso Último Verão Dois melhores amigos. Um paraíso de ondas perfeitas. Um verão que mudaria tudo. Kai e Louis cresceram lado a lado nas praias douradas do Havaí, surfando cada amanhecer e colecionando memórias como conchas no mar. Unidos pelo amo...
