Acordei antes mesmo do despertador, o que por si só já era um péssimo sinal. Normalmente, depois de uma noite no rodeio, eu só voltava ao mundo quando alguém ameaçava arrombar a porta do meu quarto. Mas naquele dia não. Abri os olhos e, em menos de dois segundos, minha memória resolveu funcionar perfeitamente.
Lembrei de tudo.
Da dança.
Das risadas.
Da bebida.
Do beijo.
Ou melhor... da tentativa de beijo.
Puxei o cobertor até o rosto como se aquilo fosse capaz de apagar a lembrança. Não foi. Muito pelo contrário, minha cabeça começou a repetir a cena inteira, como um filme que eu definitivamente não queria assistir de novo.
— Não... — murmurei, abafada pelo tecido. — Não, não, não.
Joguei o cobertor para o lado e sentei na cama de uma vez. Arrependimento imediato. Minha cabeça girou e eu precisei fechar os olhos por alguns segundos, tentando não desmaiar ali mesmo.
— Perfeito. Além da vergonha, ainda tem ressaca — resmunguei.
Levantei devagar e fui até o banheiro com a dignidade que ainda me restava, que, convenhamos, não era muita. Escovei os dentes mais vezes do que o necessário, como se isso fosse resolver alguma coisa.
Não resolveu.
— Ótimo, Helena. Você não tem mais gosto de cachaça, mas ainda tem memória.
Voltei para o quarto e peguei o celular. Fiquei alguns segundos encarando a tela antes de desbloquear, como se já soubesse que tinha alguma coisa ali me esperando.
E tinha.
"Jake 🐂"
Só o nome já foi suficiente pra me fazer revirar os olhos e sorrir ao mesmo tempo, o que era irritante. Abri a conversa.
Mensagem nova.
"Sobre ontem... a gente finge que não aconteceu ou tenta melhorar o desempenho? 😂"
Fiquei parada, olhando para aquilo, processando. E então ri. Sozinha. No meu quarto. Como uma idiota completa.
— Ele não presta — murmurei, ainda sorrindo.
Comecei a digitar uma resposta, apaguei, digitei de novo, apaguei outra vez. Demorei mais do que deveria para algo tão simples.
"Fingir que não aconteceu parece mais seguro."
Enviei.
Segundos depois, veio a resposta.
"Seguro é chato."
Suspirei, mordendo o canto da boca.
"E perigoso dá problema."
Enviei, tentando manter um mínimo de dignidade.
"Você claramente gosta de problema."
Olhei para a tela por alguns segundos antes de responder.
"Infelizmente."
Os três pontinhos apareceram quase imediatamente.
"Então a gente tenta melhorar."
Meu coração teve a audácia de acelerar. Completamente desnecessário.
Ridículo.
Totalmente ridículo.
"Talvez."
Enviei e joguei o celular na cama como se tivesse acabado de cometer algum crime.
— Eu não tenho um minuto de paz.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Beijo, briga e boi
RomanceNo meio do caos de um rodeio lotado, entre montarias, música alta e garrafas de cachaça que "acabam rápido demais", Helena - a filha do prefeito, conhecida por carregar um nome maior que a própria paciência - decide esquecer a reputação perfeita por...
