06 - Relicário do passado

42 4 2
                                        

O silêncio da igreja à noite era quase absoluto, interrompido apenas pelo leve farfalhar das árvores do lado de fora e o ocasional som de madeira estalando no altar envelhecido. Matthew Hyde se encontrava ali novamente, incapaz de afastar a sensação de que aquele lugar — tanto a igreja quanto White Springs — escondia respostas que ele ainda não estava pronto para ouvir.

Naquela tarde, após o encontro inesperado com Antonella, algo novo havia se instalado em sua mente. Não era apenas a presença perturbadora da jovem, mas as palavras dela, ditas com uma naturalidade quase inocente: "Meu pai sempre menciona esse juramento. Ele diz que é algo que nos mantém unidos, como uma promessa de sangue..."

Promessa de sangue. Matthew tinha ouvido aquelas palavras antes — de sua mãe. Scarlett costumava repetir essa frase em momentos de fúria silenciosa, como se fosse uma advertência dirigida a alguém que nunca estava presente. Era uma conexão impossível de ignorar, e Matthew sabia que, se quisesse desenterrar a verdade, precisaria investigar o prefeito Dante Bellini com mais cuidado.

Ele se levantou do banco, caminhando lentamente pelo corredor principal da igreja. A luz da lua, filtrada pelos vitrais, lançava sombras em formas estranhas sobre as paredes.

Matthew franziu o cenho, tentando afastar os pensamentos sobre ela. Ele se lembrava do sorriso incerto dela, das perguntas veladas, e de como ela parecia desesperada por algo que ninguém jamais lhe oferecera: liberdade. Mas ele não podia se permitir sentir nada por ela, especialmente agora. Ela era uma distração perigosa — e pior, talvez fosse a chave para tudo o que ele procurava.

O que Scarlett tinha a ver com Dante Bellini? Matt apertou o terço em sua mão e decidiu que precisava ir além das palavras e pistas sutis. Era hora de procurar respostas reais.

Ele caminhou de volta ao altar, seus passos ecoando na vastidão da igreja vazia. Sabia que não era prudente se apegar àquele detalhe aparentemente insignificante — uma frase gravada na madeira e repetida por sua mãe anos atrás. Mas, ao mesmo tempo, sabia que as coincidências não eram suas aliadas. Não mais.

Ele puxou o celular do bolso e, à luz da tela, voltou a examinar a bancada onde encontrara a inscrição. A frase estava parcialmente apagada, mas ainda assim legível: "O sangue das promessas esquecidas." Sob ela, outra marca, quase como se alguém tivesse riscado um nome. Matthew se inclinou mais perto.

— Bellini... — murmurou, o nome escapando de seus lábios como uma sentença.

Era possível? Dante Bellini, o prefeito aparentemente intocável, poderia ter algo a ver com o passado que Matthew jurara desenterrar? Ele apertou o punho, o lenço de Antonella ainda preso entre os dedos. Não podia descartar a possibilidade, mas também não podia permitir que a jovem se tornasse um dano colateral.

Por um momento, ele pensou em Antonella — em sua fragilidade mascarada de obediência, nos olhos que pareciam implorar por uma verdade que ela mesma não compreendia. Ela era parte disso, quer soubesse ou não.

Com o coração pesado, Matthew se afastou da bancada e voltou à nave central da igreja. Ele precisava organizar seus pensamentos, e talvez o melhor lugar para isso fosse o confessionário, um espaço que ironicamente nunca usava para confessar nada. Ele abriu a porta pesada e se acomodou no banco, encostando a cabeça na madeira fria.

Matthew permaneceu na penumbra da igreja, as palavras gravadas na bancada ecoando como um sussurro incômodo em sua mente. Ele passara anos perseguindo sombras, juntando pistas fragmentadas que pareciam sempre escapar de seu alcance no último momento. Mas agora, de repente, tudo parecia convergir.

Scarlett Hyde. Dante Bellini.

Ele não sabia o que os conectava, mas sentia no fundo das entranhas que o laço era inegável. O nome gravado ali não era apenas uma coincidência, e a frase que sua mãe costumava dizer parecia carregar um peso maior do que ele jamais imaginara.

PROFANO | PausadaOnde histórias criam vida. Descubra agora