Capitulo 2 - Teresa

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O status dele no facebook mudou de "em um relacionamento sério com Teresa Lima" para "noivou-se com Teresa Lima", e eu sabia que em breve teria que mudar o meu também. Isso supostamente deveria me deixar feliz, mas não estou.

Encaro a sua foto de perfil, aonde eu apareço abraçada junto com ele naquele churrasco de terça-feira. Naquele maldito churrasco de terça-feira.

Eu deveria ter desconfiado. Quem faz um churrasco terça-feira á noite sem ter um motivo aparente?

Caí feito uma trouxa.

Quando dei por mim, lá estava Bruno, ajoelhado aos meus pés com aquela caixinha azul felpuda e dentro dela um anel prateado.

Minha mãe chorava de felicidade e meu pai olhava para mim com uma cara de aprovação - Provavelmente Bruno havia pedido sua benção antes de me consultar.

O brilho que emana do anel mais triste que já vi na vida - que agora esta na minha mão esquerda, a mão esquerda mais triste que já vi na vida - é um ultraje ao aperto no coração que estou sentindo.

Olho para o perfil novamente, o sorriso estampado no meu rosto não passa de um sorriso falso, no rosto de alguém falso, emanando uma felicidade falsa. Aquela não era eu.

Eu precisava de um milagre para me salvar dessa sentença que recebi com apenas dezessete anos.

Quando conheci Bruno, há três anos, eu só pensava em beijar alguém antes que a puberdade acabasse. Era apenas um beijo. Mas não para os meus pais.

Quando chegou aos ouvidos do meu pai que eu estava trocando saliva com um garoto um ano mais velho que eu - que, aliás, ainda não faço ideia de como ele descobriu -, pensei que iria morrer. Nunca havia visto meu pai daquele jeito. Ele gritava, batia nas coisas e apontava para mim perguntando se eu queria ir para o inferno, porque aparentemente é pra lá que vão todas as garotas de quatorze anos que trocam selinhos com um garoto.

Lembro- me de chorar por horas seguidas trancada em meu guarda-roupa - Por que era o lugar mais seguro no mundo para mim.

Minha mãe trouxe um sanduiche de presunto e queijo e me pediu para contar o que havia acontecido.

Contei pra ela que havia beijado o Bruno atrás da cantina da escola e seus olhos brilharam

- Foi o Bruno?

Ela não conseguia conter o sorriso.

- Por que você não disse que foi o Bruninho, filho do Pastor Marques?

Tentei dizer que eles não me deixaram contar a historia toda, mas ela saiu correndo pela porta chamando meu pai.

Olha. O Bruno não era minha primeira opção na lista de primeiro beijo, mas foi ele quem apareceu atrás daquela cantina e revelou ser o cara de quem minha amiga Jéssica falara. Foi um choque pra mim logo de inicio, porque era o Bruno, filho do pastor da igreja aonde eu e meus pais congregávamos, ele era o garoto que gostava de mim. Mas então aconteceu. Dois adolescentes, trocando seu primeiro beijo, atrás de uma cantina na escola aonde ambos estudavam. Foi molhado, estranho e sem jeito.

Consegui ouvir meus pais conversando na cozinha, minutos depois que minha mãe saiu correndo. Eram sussurros na verdade, mas eu era uma ninja quando se tratava de decifrar sussurros. - Eu vivia decifrando pelo que as pessoas na igreja oravam antes do culto começar.

- Moisés, querido, foi com o Bruninho que Teresa estava.

Papai respondeu com um tom tão diferente, como se fosse outra pessoa.

- Bruninho filho do pastor Marques e da irmã Ester?

Quase consegui ouvir mamãe balançando a cabeça freneticamente.

- Mas então é tudo diferente.

Não sei como narrar os fatos que vieram a seguir, só sei que quando dei por mim, minha família e a de Bruno já estavam jantando juntos e comemorando nosso namoro. Ninguém perguntou se era isso que eu queria - o que já era de pratica, ninguém nunca me consultava quando o assunto era o que Teresa quer -, mas estava tudo bem, pela primeira vez eu estava feliz por algo que escolheram por mim.

Mas eu só tinha quatorze anos. Felicidade pra mim na época era poder assistir Polly Pocket na TV.

Bruno é legal, bonito e incrivelmente educado. Não é um mal namorado. Mas é ai que está o problema. Não é um mal namorado.

Acontece que ele não é mais meu namorado, agora é meu noivo e não estou preparada para isso.

Fecho o notebook e o lanço em cima da cama.

Não quero chorar, odeio ser fraca. Mas que opções me restam. Respiro fundo e tento não pensar que ano que vem, nesse mesmo dia, estarei casada, com apenas dezoito anos. Meus olhos lacrimejam.

Eu queria ter uma vida antes de casar, mas estavam tirando isso de mim.

Não vou chorar, não vou chorar, não vou chorar.

E por isso que quando olho pra tela do computador e vejo o ícone de mensagem piscando, só consigo pensar em um milagre.

Será?

Hoje sai o resultado do vestibular que fiz para uma academia preparatória na Capital. Era por essa razão que eu estava com o notebook ligado, mas acabei entrando no facebook enquanto esperava.

Jogo-me na cama correndo, acesso meu e-mail e quando vejo quase grito de alegria.

Meu milagre.

Era a minha salvação, em formato de e-mail, mas ainda assim, minha salvação.

A caixa de entrada trazia um cartão confirmação com uma frase destacada em negrito.

"É com grande honra que informamos que você passou no processo seletivo e foi aceita na Academia Preparatória Prodígio".

Permito-me surtar após ler isso.

Só consigo pensar em liberdade.



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⏰ Última atualização: Nov 25, 2015 ⏰

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