Alguns causam felicidade por onde quer que vão, outros causam felicidade quando se vão..
Eu costumava achar que isso me definisse, que quando perecesse, a felicidade se propagaria enfim. Felizmente, eu estava inesperadamente errada..
A essa altura, possivelmente você já me odeia. O fato de eu ter causado minha morte para ver quem me "amava" triste.
A questão é simples de se responder.
Eles não me amavam, simples e direto. Eu tentava, juro que tentava.. Mas eles simplesmente se esqueciam da minha tediosa e indesejada existência.
Mas eu procurava refúgio de toda essa exclusão. Sem pretender, conheci a solidão..
Independente e calorosa. Uma chance a ela, eu dei. Minha amiga se tornou. Um refúgio, eu encontrei.
Ela sempre estava lá e de mim, não se esqueceu.
Eu era Julieta, solidão era Romeu.
Fui criada ao lado dela. Ela me queria e eu queria ela.
Aprendi a caminhar sozinha, eu não precisava de mais ninguém. Costumava dizer que a solidão era o caminho para minha liberdade. Nunca estive tão certa..
Naquele momento, eu era mais invisível do que pretendia. Meus passos inaudíveis contribuíam para a minha realeza no oculto. Foi no auge do imperceptível, que comecei a planejar meu declínio. Cada passo que eu daria antes da minha complexa morte, tinha uma razão. Eu planejava nos mínimos detalhes. Cada ação tinha um profundo motivo. Os bilhetes e cartas com recados após minha morte, foram "escondidos" e estavam pedindo para serem encontrados. E assim, cada bilhete era uma peça do meu obscuro quebra-cabeça. Como eu sabia que eles achariam? Bom.. Eu não seria eu se eu não fosse eu. Tinha total certeza de que eles seriam achados, um por vez, na ordem certa. O intrigante motivo disso, era a minha busca por vingança, ou justiça, chame como quiser..
Minha sina era a vontade de ser lembrada. Marcar para sempre a vida daqueles que estavam a minha volta. Eu queria que eles não conseguissem tirar o meu rosto de suas infames cabeças. Queria que eles se lembrassem perfeitamente do dia do meu velório. E queria que eles se lembrassem do final do meu quebra-cabeça, de meu estranho enigma. Eu queria ver eles conversando sobre mim daqui a 60 anos
- Se lembra da Katherine?
- Se me lembro? Jamais esquecerei..
É.. Eu devo ter esquecido de falar do meu nome, mesmo sabendo que esse servia apenas para enquanto viva. Fora daquele lugar podre, poderia ser quem eu quisesse. Sem minhas correntes, que me puxavam eternamente para o limbo, também conhecidas como "Minha Família".
Já havia esquematizado a última jogada. Tudo estava perfeitamente planejado e preparado.
Não havia como perder.
O que restou para eles, foram apenas memórias do passado. Memórias aquelas que poderiam ter sido diferentes, se eles resolvessem se importar com a indesejável..
Tudo planejado
Tudo preparado
Mas a hora ainda não havia chegado.
O que me restou? Ansiedade.
Mas eu lembrava de palavras que me traziam para a calmaria
Se você está deprimido, vive no passado
Se está ansioso, vive no futuro
Se se encontra em paz, no presente vive
Esse era meu presente. Saber que deixaria minha marca, era a minha paz.
Os últimos dias nesse mundo de podridão, eram mais que habituais.
Porém, eu estava vendo tudo de uma forma diferente..
Eu conseguia sentir, sentia a dor que eles iriam sentir.
Dor essa, que se multiplicaria ao montar o quebra-cabeça.
Se eu me arrependi ao sentir aquela dor? Aquele sentimento, só me deixou mais orgulhosa do que eu estava criando.
Eu passava por eles, caminhava entre eles.
Mas eles não me percebiam. Eles não queriam perceber.
Eles eram felizes com a vida que tinham. Eu era a penetra da vida perfeita do casal perfeito. Eu era apenas uma garota que vivia com eles. A garota que eles eram obrigados a manter dentro de casa.
Mas isso não os impedia de me ignorar.
Não os impedia de se esquecerem da minha existência. E era isso que eu queria que eles se lembrassem. Queria que se lembrassem de como eles perderam a chance de terem me conquistado. Perderam a chance de terem me feito feliz, de me amarem..
Mas isso não me incomodava. Eu era criada pela solidão.
Eu era a garota que eles iriam sentir falta..
E assim, eu finalizava meu jogo
E dava meus tão sonhados Últimos passos..
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Cartas Para Quem Ler
Romance"Suas lágrimas caíam em meio à tempestade. Não havia alguém capaz de perceber sua angústia ao redor da depressiva chuva que cai..". Uma narrativa filosófica e poética, pra uma história dramática das confissões de uma jovem em conflito, antes de sua...