Não existe certo e errado

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Não existe certo e errado. Com o passar das semanas, percebi que aquele era um grupo normal, banalizando em excesso a automutilação e o suicídio.

Os adolescentes podiam rir como quaisquer outros que eu via por aí, e até o homem desolado chegou a sorrir, certa vez. Eu não tinha gaze nos pulsos ou tatuagens sobre pedidos de ajuda. Eu tinha dor no coração, daquele tipo que parece nunca querer ir embora. Perto daquelas pessoas, porém, a dor parecia ceder espaço a um sorriso amigo e a um comentário engraçadinho quando o assunto começava a ficar pesado demais.

Não foi um mar de rosas.

Chorei um pouquinho no banho, deixei alguns bolos queimarem no forno e adotei um gato cinzento.

Combinamos um piquenique no parque quando a primavera chegou, e o homem desolado tirou suas ataduras, revelando duas linhas desbotadas e róseas perfeitamente horizontais nos pulsos. Pulsos que foram usados para carregar a pesada cesta de comida e estender a toalha sobre a grama verdejante.

Levi, um dos meninos mais novos, chorou um pouquinho quando estávamos indo embora. Nada disse à orientadora, mas cochichou em meu ouvido que a mãe estava de cama após ter levado uma segunda facada do pai.

***

Três meses depois, eu me retirei do grupo. Sorrindo mais, falando mais, com um gato e Levi para cuidar. A história dele é tão ou mais triste do que a minha — ainda mais quando a mãe morreu afinal, dos maus tratos a ela infringidos, e o pai foi preso —, mas de piquenique em piquenique a vida vai melhorando. Porque eu sei, que se um de nós dois tropeçar na grama, o outro estará logo ali.

Levi parece pequeno, mas tem braços fortes.

Ode À HumanidadeHistórias para pegar e não largar. Descubra agora