Capítulo 9

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 Tudo na casa em Vassouras sugeria que a responsável por aquele lar fosse uma fervorosa dona de casa — mas ledo engano de quem pensasse assim. Cuidar do lar e criar os dois filhos, foi só algo que Íris fizera no meio tempo entre lecionar para o estado e pintar suas telas. Era quase uma super-heroína.

A disposição e o bom humor de Íris também eram tão fora do normal que, muitas vezes, Stela duvidava que a mulher fosse mesmo sua mãe. Não herdara nada daquilo.

Íris já havia feito as compras da semana e, agora, amassava as sacolas biodegradáveis até transformá-las em bolinhas disformes, otimizando o espaço dentro do puxa-saco. Virou-se para a filha ao finalizar o pequeno ritual:

— Ontem fui à casa da Cleo. Contei que você passou num concurso e está dando aulas. Ela ficou surpresa, nem sabia que você já tinha se formado.

Essa era outra mania de Íris que Stela não tinha herdado: aumentar as coisas.

—Mãe... — A garota reclamou, depois de retirar da geladeira uma garrafa com um restinho de refrigerante que já havia perdido o gás. — Foi um processo seletivo, não é um concurso de verdade. E outra, ser professora de ensino médio não causará inveja na sua vizinha, que tem filhas estudantes de Medicina. Então, poupe saliva.

Íris franziu o cenho e tomou a garrafa da mão de Stela. Nem pensar que deixaria a garota tomar aquele veneno de manhã. Retirou laranjas da fruteira e separou os ingredientes para um sanduíche. Cortou o queijo de modo que coubesse perfeitamente dentro do pão, sem escorrer pelas bordas, e levou as tirinhas restantes até a boca. O estômago de Stela roncou. E ela se lembrou, de repente, porque aquelas viagens rápidas valiam tanto a pena.

— Eu não estava contando vantagem. Eu me orgulho de você. E você ainda é jovem, Stela. As coisas vão se acertando com o tempo. — Agora a mãe parecia o pai falando. O pai que quase nunca estava em casa aos fins de semana. Durezas de ser policial.

— Vão sim.

— Ei, Otávio! — Íris gritou da porta da cozinha, ao ver o garoto tentando passar despercebido. Ele congelou e encarou a mãe com zero entusiasmo. — Esquece um pouco o videogame e venha ficar com sua irmã!

Com todos, reunidos Stela achou que era o momento para dar a notícia:

— Ah, adivinhem? Minha pesquisa foi selecionada para ser apresentada num congresso em Boulder, Colorado no final do mês. A UFRJ vai bancar minhas passagens e as diárias.

Íris parou de salpicar manjericão desidratado entre fatias de tomate e sorriu orgulhosa.

— Querida, é uma grande oportunidade! Parabéns!

— Demais! E quando você vai? — Otávio perguntou.

— Última quinta-feira do mês.

— Acho que também quero seguir carreira acadêmica. Ser pago para ser um eterno estudante. — Stela ignorou a implicância do irmão. Já Íris o encarou com um olhar acusador:

— Para isso é preciso se dedicar a sua faculdade. Não existem pesquisas científicas sobre jogos de Playstation se é isso que você tinha em mente.

Stela achou melhor não dizer que, daquela vez, a mãe provavelmente estava enganada. Era impressionante como hoje em dia existia pesquisa para quase tudo. Otávio fingiu não ouvir e pegou o maior dos sanduíches. Justificava-se dizendo que era o único ali em fase de crescimento.

— De barriga, talvez. — Stela comentou, e ele rebateu com a elegância de uma língua para fora.

Íris agora espremia as laranjas. Não gostava de sucos de caixinha nem nada que tinha mais nomes químicos do que ingredientes naturais na sua composição.

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