Revelação

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     O lugar estava em ruínas. Tudo pegando fogo e bombeiros correndo de um lado para o outro procurando por sobreviventes. Quando se depararam com a cena não acreditaram no que presenciavam. Um garoto, sem nenhum arranhão, deitado em uma enorme poça de sangue e envolto de membros dilacerados pela explosão.
     -Temos um sobrevivente! - Gritou um dos bombeiros.
     Imediatamente Simon estava rodeado de paramédicos que prestavam os primeiros socorros. Ainda tonto e com muita dor de cabeça, Simon conseguiu se levantar com o auxílio de um dos paramédicos e caminhar até uma ambulância que estava a uns cinqüenta metros do local da explosão. Não havia nada, nem uma pequena lesão ou arranhão em Simon.
     - Qual o seu nome rapaz? - Peguntou o paramédico.
     - Sam estava errada. - sussurrou Simon.
     - Como?
     Simon olhou nos olhos do paramédico.
     - Ela estava errada!

     Na televisão chiada da loja de antiguidades repassa as últimas notícias:
     "Funcionário sai ileso de explosão em posto de combustível!"
     - Simon, tomara que seja você.
     Samara com os olhos cheios de lágrimas olha para a porta da loja. No mesmo momento ela vê um garoto chorando, correndo desesperadamente, todo sujo de sangue. Ela corre para a porta e tenta chama-lo, tinha certeza que era ele. Ela grita, mais  Simon não a ouve, está cada vez mais distante.
     Mesmo não conseguindo falar com ele, Samara se alegra por saber que Simon está vivo. E se alegra mais ainda ao se dar conta de que estava enganada. As vezes coisas estranhas acontecem.

     A porta se abre num supetão. Pam assistindo TV pula no sofá e se vira para o menino parado na porta. Ela o encara com os olhos arregalados. Estava todo coberto de sangue e com um cheiro horrível de peixe podre.
     - Eu nunca quis que esse dia chegasse.
     Simon adentra o trailer e segura os bravos de Pam. Ele estava nervoso demais... Assustado demais.
     - Que dia? Droga! Nunca te perguntei nada, mas agora quero respostas e eu sei que você as tem.
     Ele a solta e leva as mãos a cabeça. Se sente como se nada em sua vida fizesse sentido.
     Pam se levanta com alguma dificuldade.
     - Respostas? Claro. Você já alcançou a idade para tê-las. Venha.
     Faz sinal para que ele a siga.
     Os dois rodeiam o trailer até onde uma pá está encostada, ali colocada a muito tempo e nunca usada, parecia estar esperando o dia certo para exercer sua função. Ela agarra a pá com firmeza, força nunca vista por Simon em Pam, e começa a cavar sob uma planta. Simon estranha, nunca havia reparado naquilo, mas sabia que a mulher que o achou e criou como um filho escondia algo muito sombrio.
     - Porque estragou a flor? - Simon indaga com um pouco de irritação na voz.
     - Não é uma flor. - Pam responde sem parar de cavar.
     Mesmo sem entender, Simon observa a senhora atentamente. Ele sempre confiou em Pam. Ela nunca lhe deu motivos para duvidar dela. A velha senhora que não se importou em dedicar a vida a um bebê que encontrou em uma lata de lixo. Quando Simon a questionou o porquê de fazer tamanha caridade, ela lhe respondeu de uma forma simples e objetiva.
     - Deus me deu um chamado.
     Como qualquer criança Simon ficou satisfeito com aquilo. Pam lhe dissera, como uma mãe diz, que recebeu o chamado de cria-lo, o que queria dizer que ele não era um fardo, mas sim uma benção.
     Simon acorda de sua lembrança e volta a observar Pam. Ela tem bolhas na mão e Simon vê sangue pingar no chão, mesmo assim ela continua sua busca, e o que mais espanta o garoto é o sorriso de Pam, como se ela estivesse tendo prazer ao cavar aquele buraco.
     Após alguns longos minutos, ouve-se um som, como madeira velha quebrando.
     - Como pode morar a vida inteira aqui e nunca ter me contado que havia algo enterrado no quintal? - Simon questiona perplexo com a  descoberta.
     - Primeiro, você nunca me perguntou. Segundo, você não tinha a idade certa. - Retrucou Pam ofegante.
     Simon já estava irritado.
     - Idade para que? Para de bancar a pirata na caça ao tesouro e me fala logo. O que tá acontecendo comigo?
     O sorriso de Pam morre. Lentamente ela se abaixa e retira de dentro do buraco uma pequena tábua, antiga, com aspecto de madeira podre. Ela se levanta com dificuldade e observa o objeto que está em suas mãos.
     - Então foi aqui que quebrei! - A ponta da tábua havia sido lascada pela força da pá.
     - Mas o que é isso? - Simon diz, enquanto olha para um pequeno pedaço de madeira, a ponta que faltava na tábua estava próxima ao seu pé. Simon a pegou para poder observa-la melhor.  A pequena lasca continha o mesmo desenho que Simon encarava todos os dias no espelho. A marca que ele carregava em seu peito.
     Pam agarra o pedaço de sua mão e o encaixa.
     - Isso é seu passado, presente e futuro a partir de hoje... Filho!
     Pam entrega a tábua para Simon que encara o objeto. Havia várias gravuras e símbolos de todas as formas entalhados por toda madeira. Simon nunca tinha visto nada parecido. Conforme observava ficava cada vez mais confuso.
     - O que são esses desenhos? O que significa isso? É algum tipo de magia negra?
     - Não. É mais como um... Instrumento divino.
     Simon não consegue conter o riso, mas logo volta a ficar sério e confuso.
     - Seja mais específica!
     Pam da um longo suspiro e começa a caminhar pelo quintal.
     - Orações, rezas, terços... Isso tudo serve como proteção, mas nem sempre funcionam, e quando falha... É aí que vc entra meu jovem.
     Pam para de caminhar e encara Simon.
     - Você é o último recurso.
    
      

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⏰ Última atualização: Aug 16, 2017 ⏰

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