— Qual é a cor dos seus olhos? — Anna perguntou, acariciando e beijando os dedos de Kaioul.
— Hum...acho que castanhos. — ele respondeu, beijando a testa dela.
— Você acha? — riu. — Não tem certeza?
— Acho que não tenho certeza de nada!
— Então, são castanhos. — concordou ela, descansando o queixo no peito nu dele. — Castanhos, como o quê?
— Como mel. Um pouco mais escuros. — ele suspirou, brincando com uma mecha cacheada do cabelo dela.
— Eu gosto de mel. — Ela ergueu a cabeça e beijou os lábios dele. — E gosto do modo como você vê o mundo, sabia?
— É mesmo?
— Sim. Eu gostaria de vê-lo assim também.
— Quem precisa de olhos, quando consegue enxergar com o coração? — ele acariciou a bochecha dela.
— Isso é bonito. — ela bocejou e se virou de costas para ele.
— Vai dormir?
— Eu estou cansada. Muito cansada.
— Você quer que eu vá embora?
— Não. Durma comigo. — ela tateou na cama até encontrar a mão dele e puxar para si.
Ele entrelaçou os dedos nos dela e afagou seus cabelos. Agora tudo parecia certo. A vida não tinha feito sentido por tempo demais. Mas, agora tudo parecia se encaixar como um perfeito quebra-cabeças. Ele fechou os olhos, feliz como nunca, dormiu e sonhou.
No sonho, Kaioul se viu em uma sala repleta de adereços vermelhos e forrada com um papel de parede de veludo dourado. Havia uma mesa de mogno lustrada à sua frente e uma cadeira imponente, virada para a parede. Não tinha a mínima noção de onde estava e nem como chegara lá, mas a sala exercia uma estranha atração sobre ele.
— Eu estava mesmo à sua espera. Que bom que chegou! — uma voz grave e melodiosa ecoou pela pequena sala e então a cadeira girou, até ficar de frente para ele.
Havia um homem sentado ali, vestido em um terno elegante e com as mãos unidas sobre a barriga. Parecia tranquilo e muito à vontade, como um vendedor de carros bem-sucedido. Kaioul notou que sentia inveja do homem, mas não se ateve muito tempo a isso.
— Que lugar é esse? — indagou.
— Já vai começar pela pergunta mais difícil, senhor Ludwig? — O homem perguntou e apontou para a cadeira à sua frente. —Sente-se, por favor.
Kaioul se sentiu intimidado pela cordialidade e elegância do homem, então se sentou diante dele, sem demora.
— Vamos deixar as apresentações para depois, certo? — Ele se inclinou para frente e abriu uma pasta sobre a mesa. — Venho observando você há algum tempo, senhor Ludwig. Percebo que é um homem jovem e de grande sucesso.
— Não tanto quanto gostaria. — respondeu ele, olhando à sua volta. O homem gargalhou.
— Você é engraçado, senhor Ludwig. Faz parecer sua ambição real.
— Mas ela é.
— Sem dúvidas, você é um homem de negócios, mas não me engana. Conheço o seu tipo há quilômetros de distância. — ele arrumou as abotoaduras. — Filho único, pais ausentes, criado pela babá em uma casa confortável, em uma vida confortável.
— Como sabe?
— Eu conheço você. Tenho o observado, como já disse. Sabe, muitos me pediram dinheiro, poder, fama... E você conseguiu tudo isso sem minha ajuda. Você nasceu com a prosperidade nas veias. Muitos matariam para estar no seu lugar, mas, ainda assim, aí está você: um homem infeliz, amargo, insatisfeito.
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A cor dos olhos
HorrorKaioul Ludwig caminha pela cidade de Berlim, aproveitando o dia bucólico e branco do inverno. Faminto, ele procura um restaurante onde possa desfrutar de um bom prato quente e refletir sobre a existência da vida e do mundo. Apesar de frio, o dia pa...
