Os seus pés arrastavam-se pelo trilho de terra batida morosamente. As solas dos seus sapatos, já muito desgastadas, não conseguiam cumprir mais a sua função. Ter aquilo calçado ou não ter nada era praticamente igual, uma vez que a pele amorenada da pobre líder era constantemente picada por pedrinhas insolentes que queriam atenção, as plantas dos seus pilares várias vezes perfuradas violentamente por pedaços de vidro que outrora constituíram uma refrescante garrafa de cerveja.
A brisa álgida balançava os compridos cabelos negros da moça de vinte e poucos anos, causava-lhe arrepios na espinha pela maneira grotesca como invadiam as suas vértebras, ignorando completamente a fina blusa vermelha escarlate que lhe cortava os ombros de forma delicada.
Os sacos que carregava pareciam pesar mais a cada passo, Mari estava esgotada. O organismo pedia-lhe suplicante uma injeção de nutrientes, que já não era dada há muito. As suas pernas imploravam, tremendo, um novo par de calças, aquelas não passavam mais de um conjunto de tecidos remendados e sujos.
Mas a rapariga não ia conceder esse desejo a ela própria. Não enquanto os seus companheiros não estivessem saciados e quentes.
Colocar a vida e o bem-estar deles sempre acima do seu... Pobre, Mari... Um dia, desmaiará no meio da cidade, com uma manifestação surpresa de uma grave anemia... E o que eles poderão fazer? Nada.
Após uma curta mas íngrime subida, armadilhada com silvas que cobriam cada centímetro da mesma, deparou-se com um vasto descampado. Vasto e solitário, somente umas meras árvores de já muita idade o ocupavam, algumas tão velhas, tão velhas que tinham mesmo caído. Caíram ali um dia e permaneceram ali caídas até hoje, com azar, permaneceriam ali abandonadas pela eternidade.
Foi ali que Mari finalmente se permitiu parar. Chegara ao seu destino. Os amigos por quem se arriscava tanto, se magoava tanto, por quem sacrificava o seu corpo e alma descansavam junto a uma das árvores mais robustas, o seu forte tronco amparava as costas doridas que não ousavam fazer o mínimo movimento para não terem de suportar as tamanhas dores que daí adviriam.
— Cheguei.
Os quatro olhares dirigiram-se instintivamente para ela. Os lumes brilhantes, expectantes das próximas palavras, coitados, esperavam ouvir que ela tinha conseguido, que aqueles três dias longe não tinham sido em vão.
— Trouxe comida e roupas. — completou, os sorrisos formaram-se, aliviados.
A leal líder sentiu o coração aquecer com as suas reações, o sentimento de culpa pela situação atual dissipou-se infimamente. Sim, porque a responsável pelos barulhentos avisos dos quatro estômagos era ela, a responsável pelo batimento involuntário dos dentinhos dos outros era ela!
Liderar um grupo de resistência não é um mar de rosas. Há que assumir culpas quando as circunstâncias fogem ao nosso controlo. Mas quem poderia adivinhar que uma simples sabotagem iria ser a origem de uma fuga de uma semana?
Um descuido... Apenas um descuido foi o suficiente para o tão conhecido grupo, comummente denominado de Rebeldes por Sua Majestade e seus associados, ter direito à mobilização de todo o exército real para que buscassem as suas cabeças. Não tiveram alternativa, restou-lhes encontrar um terreno tão abandonado, mas tão abandonado, ao ponto de nem a vegetação rasteira ali querer habitar, e esperar.
E esperaram... E esperaram... E esperaram.
Todavia, Sua Majestade sempre foi um homem persistente. Não deu folga aos soldados nessa semana, ansiava a todo o custo ver o sangue dos cinco malditos sair-lhes da boca e escorrer devagar, bem devagar, pelos seus corpos, até alcançar o chão brilhante do palácio e manchar o mesmo. Assim como nada foge ao poder da gravidade, também os rebeldes não fugiriam ao seu fim.
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𝕽𝖊𝖇𝖊𝖑𝖉𝖊𝖘 ࿐
RandomLiberdade de expressão. Liberdade de pensamento. Horários de trabalho bem moldados. Comida na mesa. Água potável à disposição. É tudo o que não há naquele reino. Um reino que só é próspero para os de fora, para os habitantes que lá vagam todos os di...