Emilie Caminhava pela floresta em busca de ervas que pudessem aliviar o sofrimento de seu pai, cuja saúde definhava a cada dia. A curandeira já lhe havia dito, com voz grave e pesar, que os dias dele estavam contados e que deviam aproveitar cada instante ao seu lado. Mas ela, teimosa como sempre, recusava-se a aceitar o fim sem lutar, e saiu à procura de algo que pudesse prolongar sua presença entre si e seus irmãos, com o coração apertado de esperança e temor.
Foi então que ouviu o galope distante, que em instantes se tornou estrondoso. Um homem passou velozmente a cavalo, e sob os cascos de seu animal, foram-se as ervas que ela havia passado horas a recolher. Uma fúria profunda e súbita tomou conta dela, ao ver destruída a única esperança que lhe restava, e gritou, sem conter a indignação:
— Seu insensato! Não enxerga por onde passa?
Ele parou de imediato, voltando devagar até onde ela estava, e fitou-a com um olhar estranho, que ela não soube decifrar de pronto, como se a visse de uma forma que ninguém jamais a vira.
— Perdão, minha querida.
Sentiu o rosto queimar de raiva e estranhamento. Quem pensava ele ser para dirigir-se a ela com tal intimidade? Não lhe dera nenhum direito a tais palavras. Preparava-se para retrucar com aspereza, quando seus olhos percorreram-lhe o porte e o rosto. Meu Deus, que traços nobres e imponentes... parecia ter saído das antigas lendas de seus avós, um príncipe em toda a sua essência. Seus olhos eram enigmáticos: ora verdes como as folhagens profundas, ora azuis como o céu em noites de lua clara. Mas afastou de si tal pensamento, apertando os punhos; ele havia destruído o que mais lhe era precioso, e falou com toda a força de sua ira:
— Não lhe concedi a liberdade de falar-me assim! E ainda mais, arruinou as ervas de que eu precisava, graças a esse seu animal descontrolado!
Ele franziu o cenho, ferido em seu orgulho:
— Retire o que disse a respeito de meu cavalo!
— Não o retiro, seu tolo!
— Tolo é você! Meu cavalo tem mais nobreza e educação do que jamais verá em si mesma, moça ríspida!
Desceu então de sua montaria e postou-se diante dela, imponente. A cólera cegou-a por instantes, e levantou a mão para lhe dar um tapa, mas ele foi mais rápido: segurou-lhe o pulso com firmeza, puxou-a a si e uniu seus lábios em um beijo roubado e inesperado. Ela ficou paralisada, chocada e perdida de súbito; como ousa tal ousadia? Contudo, antes que pudesse reagir ou recusar, sentiu suas forças esvaírem-se ao toque de seus lábios, e por um breve momento esqueceu de tudo o mais, envolvida em uma confusão que não sabia nomear.
Voltou a si num sobressalto, tomada de vergonha e fúria renovada; sem refletir, cravou o pé com força sobre o seu, fazendo-o gemer de dor, e logo em seguida lhe deu uma joelhada certeira. Ele curvou-se, aturdido, e ela fugiu a toda pressa, ouvindo atrás de si os seus brados de fúria, enquanto o coração lhe batia como se quisesse saltar do peito.
Já ao avistar a casa, viu Kieram correr ao seu encontro, com o rosto banhado em lágrimas e a respiração ofegante, e sentiu um frio terrível percorrer-lhe as veias:
— Emilie! Venha depressa! Nosso pai está à morte e pede por você!
O mundo pareceu desabar sobre ela. Aquele homem a atrasara, e agora talvez não houvesse mais tempo. Correu quanto suas pernas lhe permitiam, enquanto as lágrimas corriam livres por seu rosto, e entrou no quarto quase sem fôlego:
— Pai, suplico-lhe, não me deixe! Fique conosco!
Ele moveu os lábios com esforço, a voz quase um sussurro carregado de amor e despedida:
— Já não é possível, minha filha. Aproxime-se mais... tenho algo a lhe revelar.
Sentou-se à beira de seu leito, tomada de uma dor que parecia rasgar-lhe o peito. Ele passou a mão trêmula por seu rosto, como se quisesse gravar cada traço na memória que em breve se apagaria. Sua dor era imensa, pois sabia que ele se despedia:
— Não se canse, pai... descanse, rogo-lhe.
Ele insistiu, com firmeza suave:
— Preciso falar antes que parta... sobre a mulher que amei, sua mãe.
Revolta e amargura subiram-lhe à garganta, sufocando-a:
— Não quero ouvir dela! Ela nos abandonou! Nada tenho a saber a seu respeito!
Ele a olhou com tamanha tristeza que seu coração doeu ainda mais:
— Ela não nos abandonou, filha. Deixei que cresse nisso.
Fitou-o, sem compreender, perdida em meio à dor:
— Como assim não nos abandonou?
— Não sou seu pai de sangue. Roubei-a quando completara um ano de vida. Sua mãe me jurara amor eterno, mas quando seus pais a obrigaram a casar com o soberano de Perfect Love, ela não fugiu comigo e aceitou seu destino. Um ano depois, você nasceu... e ao vê-la, perdi-me de afeto e a tomei comigo. Pois, se ela houvesse escolhido a mim, você seria minha por direito e por amor.
Apertou-lhe as mãos, com a certeza que vinha do fundo d’alma, chorando sem poder conter-se:
— O senhor é meu verdadeiro pai, e sempre o será. Eu o amo... não me deixe, não me importa o resto!
Ele acariciou seu rosto, os olhos cheios de lágrimas:
— Eles ainda sofrem por sua ausência... e como último pedido antes de morrer, peço-lhe que me prometa algo.
— Não fale em morrer, pai! — suplicou, desesperada.
— Prometa-me, Emilie... preciso ouvi-la.
Baixou a cabeça, vencida pela dor e pelo amor que lhe devotava:
— Está bem... prometo.
— Seus pais haviam combinado seu casamento com o herdeiro do trono de Hope Dream, para unir os dois reinos, fortalecer a paz e combater a facção que quer extinguir a realeza e escravizar os mais humildes. Ainda que ela tenha partido meu coração, reconheço que seu reino é justo e próspero. O que jamais aceitei é o costume de unir vidas sem que haja amor. E é isso que lhe peço: aceite o casamento, mas lute para que tal costume se extinga, para que ninguém mais seja obrigado a entregar seu coração a quem não escolheu.
Olhou-o, cheia de dúvidas e temor:
— Mas como farei isso? Ninguém sabe que existo, que sou a princesa... como crerão em minhas palavras?
— Crerão — disse ele, com toda a confiança que ainda lhe restava —. Possui a mesma beleza de sua mãe, e só os olhos diferem — estes são iguais aos de seu verdadeiro pai. Tomei todas as providências para que seja reconhecida logo após minha partida. E leve consigo seus irmãos; eles serão seu amparo.
— E se eu não tiver afeição por esse príncipe? — indagou, com o coração apertado de receio.
— Se não o amar, filha, aja como lhe ensinei: mantenha sua dignidade. Não se entregue se não o desejar.
— Farei o que me pede, pai — respondeu, com a voz embargada de lágrimas.
Naquela noite, ele faleceu, deixando-a só com a promessa feita e a dor da perda que parecia não ter fim. Diante de seu túmulo, jurou cumprir sua palavra e fazer justiça a todo o mal que sofrera. E, contra sua vontade, sua mente voltou àquele beijo inesperado... à figura daquele homem, que parecia um nobre mas que agira com tamanha imprudência. Quem seria ele? E assim, entre o luto e a confusão, adormeceu.
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Era uma vez... EM REVISÃO
RomanceEra o ano de 1520 existia dois reinos o reino de Hope Dream e Perfect Love ,dois reinos cheio de amor onde a prosperidade reinava e todos eram felizes, mais tudo iria mudar pois um grande mal tava por vim o grande inimigo do reino sequestrou a herd...
