DEPOIS - Arrependimentos

13 1 0
                                    

A campainha tocou mais uma vez, e enquanto todos já tinham saído com a pressa habitual eu ainda estava a arrumar o meu material. A stora esperava por mim à porta, enquanto eu caminhava vagarosamente na sua direção. Quando saio da sala oiço uma voz distante que grita:

- Mariana!

E quando me viro para trás deparo-me com aquele sujeito com os olhos cor de mel que tinha conhecido nessa mesma manhã, o Miguel. Vinha com as mãos atrás das costas e com um grande sorriso. Ao aproximar-se de mim esticou na minha direção a minha muleta perdida, e eu recebi-a com o meu maior espanto.

- Como é que a encontraste? - perguntei-lhe lentamente, ainda surpreendida.

- Longa história... - disse ele na espectativa que eu quisesse que ele me contasse tudo (e queria saber tudo mesmo).

- Temos 18 minutos até ao fim do intervalo - constatei eu, ao olhar para o relógio - talvez me possas contar agora.

O Miguel pareceu apreciar a ideia, mas acho que o seu objetivo era maior, e por isso perguntou:

- Acho que te podia contar melhor à hora do almoço. Queres vir almoçar comigo? - e antes que pudesse responder alguma coisa, completou - conheço um restaurante fantástico que é perto da escola, e assim nem tens de andar muito. E também não costuma estar sobrelotado, por isso não te podes perder na multidão - disse ele com um ar de brincalhão.

Comecei a rir-me de uma maneira descontraída e com bastante vontade (sim, a última vez que me ri a assim foi no pior dia da minha vida) e ao relembrar-me de coisas que não queria, nem devia, fiquei com um ar sério. Sério de mais mesmo, e o Miguel ficou preocupado:

- Foi alguma coisa que eu disse? - olhou-me intensamente nos olhos - Desculpa a piada.

- Não Miguel - deviei o olhar - Não foi nada que tu fizeste.

- Mas estás bem? - tocou-me ligeiramente no braço.

- Sim. - voltei a olhá-lo, e o meu tom de voz aumentou significativamente - Bem, quero que me contes tudo, tudo. Almoçamos?

Ele sorriu durante uns segundos e respondeu:

- Claro. Está combinado.

Mas um pensamento para além da alegria evidente instalou-se na minha cabeça:

- Faltaste à aula por minha causa? - perguntei eu.

- Não foi nada de mais. - disse ele descontraído - Depois tentei ir para a aula mas a stora, mesmo explicando o motivo pelo qual não estive presente, não me deixou entrar.

- Porque é que não te deixou entrar?

- Porque... - hesitou - ela não gosta muito de mim.

Fiz uma cara um pouco confusa e ele leu nos meus olhos que procurava uma explicação, e que eu provavelmente iria perguntar "Porquê?", mas não cheguei a fazê-lo porque ele logo continuou, mas num tom mais baixo:

- Eu estou a repetir o 10º ano, - disse com um tom arrependido - porque até ao ano passado era um inconsciente...

- E porque é que a professora não gosta de ti?

- Antes de te contar seja o que for, espero que entendas que não me orgulho nada do que fiz. - Suspirou - Foi no segundo período, eu passava a vida a gozar com os stores nas aulas, e nessa altura já era mais do que óbvio que ia chumbar. Como não me preocupava com nada, muitas vezes não ia às aulas e as vezes que ia só fazia porcaria. - Fez uma pausa e afastou-se um pouco - Bem, houve um dia em que fiz uma aposta, muito estúpida mesmo, na qual tinha de fingir que estava a sentir-me muito mal e no final dizer que era a brincar. Eram 100€ apostados entre todos nós. E eu fiz.

- E o que aconteceu depois?

- A stora começou a ficar nervosa e a sentir-se mal, até que desmaiou. Tivemos de chamar uma ambulância e tudo. E quando os outros perceberam que tinha sido uma brincadeira, fui suspenso da escola durante 2 semanas. E nunca ganhei os 100€, mas isso também não é importante. Não me orgulho mesmo nada do que fiz. E estou diferente, tens de acreditar.

Parou de falar e olhou para mim como se esperasse uma reação. Ficámos um tempo em silêncio examinando-nos um ao outro, à espera que algo acontecesse, até que um rapaz que parecia mais velho passou por nós e gritou para o Miguel:

- O teu irmão é um boss, deu cabo dos dois gajos em três tempos. Vê só que a diretora até chamou a tua mãe à escola!

O Miguel olhou para mim com vergonha e falou baixo:

- Desculpa, vou ter com a minha mãe, encontramos-nos na sala, sim?

- Sim. Até já!

E quando o vi num andar rápido, quase a correr em direção ao gabinete da diretora, pus-me a pensar em tudo o que tinha acontecido em tão curto espaço de tempo. Não sei se hei-de acreditar nele, mas quero tanto! Parece-me realmente arrependido... Acho que vou esperar pelo almoço para tirar conclusões.

"Para que serve o arrependimento, se isso não muda nada do que se passou? O melhor arrependimento é, simplesmente, mudar."

- José Saramago

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Oct 25, 2014 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

Chama-se DestinoOnde histórias criam vida. Descubra agora