Epílogo

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Querida Sophie,

Estou te escrevendo pra dizer que eu te superei. E penso que você sabe disso porque eu já não procuro saber onde você está e o que está fazendo à anos. Eu também passei a evitar encontros casuais e me limitei a ficar distante dos lugares que você poderia aparecer (mesmo que você não aparecesse neles nem quando eu te procurava). Eu te superei de um jeito que por mais que eu ainda sinta aquele arrepio desagradável na espinha quando escuto seu nome, agora permito que as pessoas o pronunciem desde que seja de forma rápida e mantendo um tom de voz ameno.
Eu estou escrevendo para dizer que superei a sua foto amassada que ficava na minha estante e eu pegava quando queria lembrar de você. Superei até aquela lembrança do nosso quase último encontro que eu guardava bem escondida dentro da gaveta de meias. Joguei tudo fora, cada lembrança que restava em mim de você ou de nós. Tudo que poderia ter um vestígio do que você é, eu me livrei. Parei de me preocupar com quem você estava, onde você estava e se algum dia você ia aparecer aqui por perto. Eu te superei num nível que eu não precisei mais escrever sobre você durante muitos meses da minha vida. Porque julgo que agora estou inflando mais devagar e antes eu era tão cheia de você que precisava esvaziar por algum lugar e eu preferia escrever do que chorar. Ainda que, no fundo, eu soubesse que toda vez que eu fosse escrever sobre você cairia uma lágrima daquelas fugitivas.
Superei aquela história de dormir mexendo os dedos da mão direita como se te fizesse uns cafunés. E ao invés de contar teus fios de cabelo passei a contar carneirinhos, como a maioria das pessoas. Aquele meu medo de você me assombrar a noite quase sumiu, hoje eu já apago a luz principal do quarto e consigo ficar tranquila só com um abajur. Quer dizer, menos nas datas especiais como o dia em que tu me pediu em namoro e o último dia que nós se vimos antes de eu te superar.
Hoje conto nos dedos às vezes que chorei lembrando de você e garanto que elas quase não existiram nos últimos anos. Foi mais no primeiro mês, quando acontece aquela fase de aceitação e nós quase desidrata pensando que dá pra lavar o coração.
Na verdade, não dá não. O meu continua sujinho, mas tudo bem porque superei.
São poucas às vezes que sinto seu cheiro no meio da multidão. Agora acontece só quando bebo demais. E é nessa hora que ouço sua voz também. Geralmente quando vou deitar meio tonta escuto você dizendo que é para eu dormir de lado para que não me asfixie durante a noite e uma série de broncas que as pessoas que se preocupam, dão quando veem alguém de quem gostam bêbado.
Na semana passada enquanto eu escrevia um trabalho para a faculdade pude jurar que te ouvia dizendo aquilo que você sempre dizia: que meus dedos compridos batendo nas teclas do computador e soltando sentimentos parecem com os de uma pianista tocando uma canção de amor. Sempre achei isso uma bobagem e hoje acho ainda mais, porque é visível que eu te superei.
Aconteceu de eu publicar um livro que tem mais você que letra A (agora parafraseando com todo o respeito Clarice Falcão). E penso que você se orgulharia disso, já que livros fazem parte daquela sua imagem culta, da qual você nunca abre mão.
No último final de semana minhas amigas falaram muito sobre você, porque elas sabem que agora não tem problema nenhum, já que eu te superei. E cada vez que elas diziam o seu nome, não sei se por mania ou por estresse, eu dava uma piscadinha com o olho esquerdo. Uma coisa que chamo secretamente de “tique de você” que foi uma das poucas coisas que restou desde que eu te superei.
E é porque eu te superei que venho te dizer que os teus olhos já não têm o mesmo significado para mim. E que eu só os vejo toda noite quando fecho os meus ao deitar. Isso demonstra um grande ato de superação, já que eu costumava enxergá-los todo dia, sem parar. E é ao deitar que meu coração sujinho me pergunta se eu não gostaria de pedir a Deus pela sua eterna felicidade. Pergunta se eu não gostaria de rezar um pouquinho para que você esteja bem onde quer que esteja e mais do que isso, que esteja sendo amado por alguém que sinta que vai explodir de tanto você que tem dentro dela.
Pergunta se eu não poderia deixar sair bem de finazinha, duas lágrimas que gostam de passear pela noite, e deixo porque você sempre me disse que todo mundo merece ser livre…

Att., sua ainda não tão querida Emma.

Querida Sophie,Onde histórias criam vida. Descubra agora