Capítulo 03

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Camila Cabello

Me chame de louca, mas, estou cogitando a ideia de um simples soldado que apareceu à duas semanas me acusando de ser uma fada. E, acreditem ou não, eu fui misericordiosa o suficiente para não o mandar para a prisão. Por algum motivo que ainda não descobri, mas pretendo, o soldado Mendes, ao mesmo tempo que me irrita e me tira do sério, me faz desejar coisas e imaginar situações em que eu não sou uma princesa que está noiva de outro homem e ele não é apenas um guarda, somos apenas duas pessoas normais. Eu sei, parece loucura e toda vez que me pego pensando nesse guarda em particular me dou broncas mentais. Por que ele me fazia sentir coisas estranhas? Toda vez que o olho meu corpo parece pegar fogo e um desejo brutal de beijá-lo me invade.

Até parece, Mendes é um petulante que parece não ter medo de morrer antes mesmo de entrar no campo de batalha.

Mas de qualquer forma ainda estou aqui, em frente a biblioteca privada do palácio. Eu detesto admitir, mas talvez, Shawn tenha razão. A ideia é estúpida, claro. Mas, não posso descartá-la. 

Tudo tem sido tão estranho, tenho sentido demais e tenho a sensação de poder tocar coisas sem nem ao menos estar perto do objeto. Me chame de louca, mas, percebi que a planta do meu quarto cresceu um centímetro à mais que ontem e nem ao menos foi regada para continuar com tanta vida.

Talvez a ideia estúpida não seja tão estúpida assim, mas Shawn nunca saberá que admiti, como também me recuso que desejo sua proximidade cada dia que se passa. 

— A senhorita tem certeza que quer ficar sozinha aqui? — O soldado John pergunta e eu assinto com a cabeça o dispensando. Antes de ir, ele se reverência e eu abro a porta.

A biblioteca era enorme, as quatro paredes eram cobertas por livros separados por assunto e, alguns livros avulsos, recentes e que não haviam sido estudados ainda ficavam em prateleiras menores que ficavam no meio da sala junto de duas longas mesas de madeira escura. Sei que teria um trabalho enorme.

Vou até a seção da letra ''F'', uma vez que o sistema era organizado por ordem alfabética. Encontro dois livros de história que citam vagamente as fadas. Então me lembro do que Shawn havia dito, que foram banidas e a sua mera menção era proibida. Então, procuro nos arquivos proibidos do palácio que ficavam escondidos atrás de uma das prateleiras e, finalmente, encontrei. Diversos livros, documentos e protocolos de segurança.

Segundo o primeiro livro, muito antigo e desgastado, fadas eram seres místicos de vida livre e até então, inofensivas. Foram as primeiras residentes do Velho Mundo, além das sereias, elas permeavam a terra antes do primeiro homem pisar nelas. Mas, tiveram suas terras roubadas, sendo condenadas a aceitar o mínimo dos grandes reis e imperadores. Com o tempo se concentraram apenas em um reino, Vermenia. Ao que parece meus ancestrais eram simpatizantes com as fadas, viviam em harmonia e, segundo um historiador comenta, era comum ver fadas passeando pelas cidades e vivendo como um cidadão comum.

Mas então, em outro livro antigo, estava registrado grande guerras envolvendo-as, as primeiras durante as colonizações, as fadas não desistiram das suas terras, mas não sabiam do que se tratavam todas aquelas armas e canhões utilizados pelos humanos e então foram derrotadas. Não tinham chance nenhuma, elas não esperavam por aquilo. 

O mais recente conflito entre fadas e humanos tem pouco mais da minha idade e tudo provocado pelo meu pai, Alejandro Cabello. Ele era apenas um príncipe quando tudo aconteceu. Ao que tudo indica, se apaixonou por uma fada, o que provocou a fúria das fadas. A mulher foi banida e exilada da sua própria família, perdendo os poderes e seus dons. Anos mais tarde, após darem a luz a uma menina, as fadas quiseram participar da sua vida, por ela poder ter herdado os antigos dons da sua mãe e foi quando o rei, meu pai, expulsou as fadas do reino, definitivamente, decretando que fadas eram perigosas e uma ameaça a raça humana. 

Meu pai e minha mãe? Se a fada por quem meu pai se apaixonou foi minha mãe e eles tiveram uma filha, isso quer dizer que eu...

Palavras demais para serem processadas, muita informação. Então, minha mãe não morava na floresta como uma camponesa, morava ali como uma fada. Ela tinha poderes e desistiu de tudo pelo meu pai. Então, é por isso que ela sempre está amargurada quando se lembra do passado e sempre diz que o amor que sente pelo meu pai lhes custou muitas coisas. Tudo então faz sentido.

Os protocolos de segurança, não há mais um endereço mas, ainda há nomes. Documentos de restrição e processos ainda abertos contra fadas.

Vasculho um pouco mais. E encontro um caderno, um pouco antigo e com suas páginas desgastadas e algumas páginas rasgadas. Lembrava mais um diário pelas datas constantes e a dissertação aberta e pouco formal. Ao observar a contracapa, não há como ler o nome do dono do diário, mas, eu reconheceria aquela assinatura mal feita com o comum Estrabao no final. Era da minha mãe, eu não tinha dúvidas.

Por um momento, hesito em lê-lo. Eu não estava com medo, mas, se eu lesse e tudo se tornasse real. E se, naquelas páginas inocentes estivesse a confirmação plena de que Mendes estava certo?  E por que minha mãe não havia me contado? Por que tive que descobrir isso por um guarda e por livros de historiadores patéticos que nem se quer conhecia minha mãe de verdade. Bem, nem ao menos eu conhecia ao que parece.

E é quando a curiosidade toma conta de mim e a coragem me domina por um minuto, que o abro. Mergulho naquela leitura como se minha vida dependesse disso, e talvez até dependesse.

Aparentemente, minha mãe começou a escrever o diário quando conheceu meu pai, a forma como fala sobre ele é tão doce e gentil, como se estivesse realmente apaixonada. Ela conta em detalhes, o dia em que o conheceu e também o quanto estava assustada por isso. Ela diz que seus sentimentos estavam descontrolados, assim como seus poderes e ela tinha medo de machucar meu pai por isso. Dois dias depois desse registro, ela conta que desistiu dos poderes por ele, para evitar que o machucasse, porque era justamente quando ele estava por perto que ela perdia o controle.

Então, minha mãe não teve os poderes tomados, ela desistiu deles por conta própria, por amor.

Ela conta como a família dela a apoiou, pois segundo ela, naquela época, fadas e humanos viviam em harmonia. O problema sempre foi meus avós, os pais de Alejandro, não aceitavam minha mãe, por não ser uma nobre e por ser uma fada. Minha mãe tentou de tudo para agradar meus avós, tudo. Mas, nada era bom o suficiente.

Mas, os dois se casaram mesmo assim e minha mãe engravidou de mim. E logo o sentimento de medo lhe afligiu novamente. E se a futura rainha de Vermenia tivesse os mesmo dons que ela? Afinal, de certa forma isso ainda era possível, minha mãe abdicou dos seus poderes mas, ainda sim, nasceu como uma fada.

 Foi então que os pais de minha mãe vieram até o palácio, para conhecerem a neta. Foi quando o rei de Vermenia, meu avô, se sentiu envergonhado perante de todos no meu batismo, dois camponeses sujos em seu palácio, que logo revelaram ser fadas, na frente de todos. Meu avós ficaram furiosos e por isso, o rei, meu avô, ordenou que meu pai proclamasse o banimento das fadas. Meu pai não queria, além de que, a mulher e supostamente sua filha eram fadas. Mas, ele estava sem escolha, ou faria isso ou não se tornaria rei e todos os anos de preparação seriam jogados no lixo.

Desde então, as fadas vivem em segredo na floresta, não passeiam pela cidade e são consideradas perigosas. E nem se quer, fizeram nada contra ninguém serem abominadas. Tudo isso por uma história de amor proibido.



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⏰ Última atualização: Nov 30, 2025 ⏰

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