Capítulo 1 (único)

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Recostei-me na parede para respirar um pouco. Estive dançando intensamente nos últimos dez minutos, e música após música eu não conseguia parar, já que a setlist da casa está particularmente incrível hoje. Vibe anos 70, 80, do jeito que eu amo. Faz um tempo que não venho aqui, na verdade. Mas quando eu vinha, naqueles longos meses de 2017, era quase uma tradição: pelo menos duas sextas-feiras consistiam em virar a noite dançando e bebendo vinho barato (na época eu não ainda não curtia cerveja). E essa parece uma sexta-feira como qualquer outra daquele tempo, em que eu canto Bee Gees a plenos pulmões e só percebo o suor que banhou meu corpo quando paro pra respirar na parede ao lado do bar, como estou agora. Até está tocando uma que eu amo, "Sweet Sixteen", mas eu precisava parar ou desmaiaria no meio da pista; e tenho certeza que o Carlos e o namorado dele estão bem ocupados em outro canto da casa para terem de carregar um quase-bêbado desfalecido pro lado de fora. Então tomo minha água, que está quase no fim, e seco a testa com o punho da jaqueta. Ah, é, a jaqueta provavelmente é um dos motivos de eu estar cansado. Mas eu não consigo me livrar dela, você sabe. E pensar nisso me faz querer voltar a dançar imediatamente antes que as memórias voltem.

Mas aí resolveram que seria uma boa ideia continuar a setlist do Billy Idol com "Eyes Without a Face". "Ah, eu amo essa!", ouvi Marina gritar pra alguma das amigas dela. Ela olhou pra mim e entendeu o porquê de eu estar quieto. Mordeu o lábio inferior, colocou uma mão no meu ombro e deu uma sacudida. Eu dei aquele sorriso murcho que me acostumei a fazer nos últimos meses e acenei com a cabeça, como se estivesse dizendo que tudo bem elas irem dançar. Eu precisava ficar um pouco sozinho mesmo. Quando elas foram para o centro da pista de dança, dei uma conferida no lugar. É realmente estranho como um lugar tão pequeno comporta tanta gente. É quente, só dois dos quatro ventiladores funcionam, e a água é cada vez mais cara, então calor é uma das coisas que se tem que lidar quando se resolve passar a noite aqui. Pelo menos hoje tenho desconto vip na batata frita, graças ao aniversário de Marina (que foi semana passada, mas tudo bem), e é isso que resolvo fazer enquanto tocam alguma música que não conheço.

Dirigi-me ao bar e vi que outro amigo de Marina teve a mesma ideia que eu, então dou uns trocados pra ele e espero a batata ser feita. O nome dele é Eduardo, acho. "E aí, cara, tá curtindo?", ele começa a conversa. "Marina disse que faz um tempo que cê não vem aqui". Eu concordo com a cabeça e termino de tomar a minha água. "É, tenho muitas memórias aqui", digo desviando meu olhar para a pista novamente. Acho que Eduardo não sabe o que aconteceu, mas tudo bem, ele entrou recentemente na lista de amigos da Marina. Não teria pra quê ela ter contado, mas se tivesse, tudo bem, porque a essa altura eu já deveria estar mais confortável em falar sobre isso. É um dos motivos de eu estar aqui hoje: retomar a minha vida sem você. Antes que meu pensamento se conclua, Eduardo me mostra a batata frita pronta, e saio do mundo da Lua por uns segundos. A mesinha que o grupo pegou está a poucos metros, e algumas pessoas estão sentadas aqui. Perdi a conta de quantas pessoas Marina convidou, mas gostei de todos (ela tem um dom para encontrar pessoas legais e colocá-las em seu círculo de convívio social, então rolês organizados por ela sempre são positivos nesse quesito).

Tirei a jaqueta e comecei a comer com eles quando Carlos chegou (o dom dele é sentir cheiro de comida de longe). Começamos a falar sobre o carro que o pai dele estava comprando, e eu não entendo nada de carros, como você bem sabe, mas tento acompanhar o fluxo da conversa. A batata está boa, o clima está bom, a falação está ótima. Mas desde que saí de casa, sabia que me sentiria vazio. A cadeira ao meu lado não está preenchida por você. E antes que eu deixe o pensamento continuar, bebo a cerveja que um dos amigos de Marina ofereceu. "Eu achei que ele ia me dar um carro de duas portas usado de algum tio meu ou algo assim, mas ele tá vendo um carro novinho!", Carlos comenta cheio de alegria. O pai dele o presenteia sempre que ele conquista algo na faculdade de medicina. O meu de vez em quando pergunta se tenho um cliente novo (ou empurra algum conhecido dele que "precisa de um projeto de apartamento", o que é a maneira dele de me incentivar). E eu começo a lembrar de você me ajudando em cada conquista daquela maldita faculdade, que nunca mais vai ser a mesma. Pelo menos Marina desistiu de trancar o curso, então ainda tenho companhia pra esse longo ano de 2019.

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