Enquanto Heyoon mordiscava algo sem ânimo aparente, Sina criava teorias mirabolantes sobre o que acontecia dentro da cabeça de sua esposa.
Heyoon andava quieta ultimamente, mais do que o normal. Ela parecia triste, como se as horas não importassem; como se tudo tivesse perdido a graça.
-- Você está bem? -- Sina perguntou, visivelmente preocupada. Haviam se casado quatro dias atrás e o aparente "entusiasmo" de Heyoonquanto a isso era notório.
-- Sim. -- Heyoon se limitou a dizer apenas isso.
Seus olhos acompanharam o exato momento onde Sina se levantou, deixando suas coxas à disposição dos olhos de Heyoon novamente. Usava apenas uma camisa larga que ia até o meio de suas pernas e o que usava por baixo disso não dava para ser visto; provavelmente um short curto. Sina caminhou até a geladeira e pegou leite, entornando o líquido numa leiteira e pondo a mesma para esquentar.
-- O que está fazendo? -- Heyoon perguntou curiosa.
Rosália geralmente era a única pessoa da casa a tocar no fogão, mas a mulher havia ido à feira de domingo e por isso não estava presente. Sina não gostava de ter outros empregados na cozinha, Rosália mesmo fazia questão de ser a única a cozinhar e, caso houvesse casos onde Rosália saía, Sina não se importava de cozinhar. Havia aprendido muita coisa com a doce senhora, afinal, passara maior parte de sua infância com a mulher.
-- Meu pai me dizia quando eu estava triste... -- Deu uma pausa para para pegar mais algumas coisas. -- Que um pouco de chocolate quente ajuda.
-- Mas eu não estou triste. -- Heyoon protestou.
-- Isso é o que você, minha cara, diz. -- Sina disse sorrindo e Heyoon suspirou, fitando-a.
-- A Hina costuma dizer que chocolate quente é a melhor coisa do mundo. -- Heyoon disse sorrindo amplamente diante da recordação da amiga.
-- Hina? -- Sina perguntou confusa, enquanto entornava uma barra de chocolate na leiteira, juntamente com um pouco de açúcar e começou a revolver o líquido.
-- Sim. Minha melhor amiga. -- Explicou.
-- Estava no casamento? Eu a vi?
-- Não. Mamãe achou melhor ela não aparecer por lá -- Disse.
-- E por quê? -- Disse ainda sem entender.
-- Ela não se encaixa na nobreza, de acordo com a minha mãe.
-- Vocês... se conhecem há muito tempo? -- Perguntou assim que despejou o líquido na xícara e estendeu para Heyoon. A mesma ia beber um pouco, mas Sina se apressou em falar. -- Cuidado! Está quente.
-- O nome é "chocolate quente" por alguma razão. -- Heyoon disse brincalhona e Sina sorriu, vendo Heyoon rir antes de soprar o vapor acima do líquido, experimentando logo em seguida.
-- E então?
-- Uma delícia. -- Heyoon respondeu. -- E quanto a sua pergunta... Conheço desde que tinha 13 anos.
-- Parece gostar muito dela. -- Sina analisou.
-- A amo. -- Apontou. -- É como a irmã que nunca tive.
-- Quase consigo imaginar vocês duas correndo entre as barracas do povoado enquanto sua mãe gritava seu nome enfurecida. -- Falou rindo. - "Heyoon, volte aqui sua insolente. Não foi essa a educação que eu te dei." Fez uma voz imitando Katherine e Heyoonarregalou os olhos, rindo. Eram exatamente as palavras de sua mãe.
-- Isso era algo que ela diria, com certeza. -- Sorriu. -- Hina sempre foi aventureira e, bem, correr da minha mãe era uma das melhores aventuras.
Sina não podia imaginar o porquê da mãe de Heyoon impedir sua amizade, mas ela não se importava com a mesma, porque era nítido a importância da garota para Heyoon. Sem perceber levou sua mão até uma das mãos de Heyoon e apertou, de uma maneira respeitosa.
-- Você fica tão mais linda sorrindo. -- Disse genuinamente. -- E não estou tentando parecer galanteadora, pois falharia miseravelmente. -- Assumiu rindo. -- Digo porque é a mais singela e pura verdade. -- Heyoon enrubesceu e baixou seu olhar para sua xícara.
-- Obrigada. - Heyoon não desfez o contato das mãos.
Sina tinha um aperto calmo e mãos macias, deveriam tranquilizá-la, mas a imagem de Sina a desejando como esposa ainda a assustava, apesar de jamais ter sido desrespeitada. Sina nunca havia dito que se interessava por ela, mas a forma como a olhava deixava bem nítido isso.
-- Me sinto em débito com você. -- Heyoon confessou sem perceber que as palavras saíam em voz alta.
-- Por quê? -- Perguntou surpresa.
-- Você se casou comigo, porém não tem uma esposa que cumpra... você sabe. -- Terminou corando.
-- Mas tenho uma esposa que cumpre o papel de amiga. Estou mais do que satisfeita. -- Heyoon se sentiu pior ainda. Não tratava Sina como uma amiga e sim como uma ameaça.
Dizia para si mesma que deveria se sentir confortável perante àqueles olhos verdes intensos, mas não conseguia nada além de sentir-se intimidada. As palavras de Sina, ao invés de trazerem conforto, vieram como um soco na boca do estômago de Heyoon.
Claro que havia momentos onde ela esquecia que era casada e ria com leveza das coisas ditas por Sina, mas isso era apenas em uma fração de minutos. Logo estava ela sofrendo interiormente de pânico pela aproximação ou por algum toque de Sina. Um simples esbarro em suas mãos já fazia Heyoon achar que Sina mudaria de ideia e reclamaria seus direitos como esposa.
-- Ambas sabemos que não sei exercer esse papel com você. -- Heyoon confessou envergonhada. -- Ainda. -- Sina não disse mais nada, apenas tratou de se concentrar em não encarar Heyoon.
Sabia que seus olhares assustavam a garota, no entanto, não podia evitar sempre. As vezes se pegava fitando os lábios de Heyoon enquanto ela falava alguma coisa.
-- Ainda. -- Heyoon repetiu após algum tempo, decidida a tentar dar a Sina sua amizade. Tentaria se livrar de seus medos e confiaria que Sina realmente só quer sua amizade, sem maldade, sem segundas intenções. Apenas sua amizade, no jeito mais puro e sincero.
-- E você, não vai tomar chocolate quente?
-- Depois.
-- Por quê? Não te agrada chocolate quente pela manhã? -- Perguntou curiosa.
-- Adoro chocolate quente a qualquer hora do dia. -- Sua risada rouca fez Heyoon sentir-se confortável com sua presença. -- Mas a última barra de chocolate preparei para você. Vou esperar Rosália retornar. -- Heyoon não entendia como Sina podia ser tão prestativa e gentil o tempo inteiro. Se permitiu examinar as feições da mulher sentada a sua frente e enxergou satisfação.
Como poderia ela estar satisfeita tendo casado-se com alguém que não a ama, quase foge dela e ainda toma sua última barra de chocolate com leite? Desviou o olhar de Sina quando viu que a olhava por tempo demais. Era natural olhar para Sina, pensava. Todos ali perdiam longos minutos fazendo isso com suas expressões embasbacadas, provavelmente um efeito colateral por ter essa beleza cativante, pensou Heyoon novamente, voltando a beber seu chocolate quente diante a aquele silêncio constrangedor.
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Over The Rainbow - Heyna/Siyoon Version
RomanceOver the Rainbow é uma história romântica que se passa no século XX. A protagonista Heyoon, contrariando as regras da aristocracia a que pertence, se apaixona por John Parker, um camponês da classe baixa, mas sua mãe, Katherine, deseja que a filha c...
