Alice cambaleava pelas ruas vestida por trapos e olheiras formando bolsas que carregavam o mundo e toda sua corrupção, seu nariz vermelho e irritado com a coriza e seus olhos lacrimejavam pela poeira, poluição, miséria e dor. Arrastava-se sem rumo por entre as ruas de Londres e com suas mãos apoiava-se nas paredes das casas, direcionando-se até um beco.
Seu estômago não lhe deu trégua, grunhia alto de maneira desesperada e seu tórax queimava de fome. Já não se aguentava em pé, seus braços tentaram buscar algum apoio como se já soubessem o que aconteceria e suas pernas esqueléticas torceram e ela caiu. Seu corpo foi jogado ao chão pela gravidade sem piedade, tomou então o mesmo espaço onde situava uma poça de lama suja e mau cheiros, vinda diretamente de um cano quebrado; a mente não resistiu e sucumbiu a inconsciência instantânea, depois de meses ela poderia ter descanso.
Pessoas andavam em frente onde a pobre maltrapilha se encontrava, olhavam-na e o vômito subia-lhes a garganta ao ver as fezes, os ratos e demais formas vivas e repugnantes se misturaram aos trapos. Algumas pessoas achavam que estava morta, outras xingavam-na de morfética, leprosa, nojenta, mas outras que possuíam o minúsculo traço de humanidade deixaram ao seu lado algumas trocas de roupa, como uma calcinha já que a menina estava desnuda senão pelo trapo que vestia e uma blusa masculina com estampa de algum time de futebol qualquer, estava rasgada, mas ao menos era alguma roupa; além das peças fornecidas deram à garota moribunda um cobertor e três garrafas de água potável, no entanto tudo que lhe faltava era comida.
Ao cair da noite o corpo da garota continuava imóvel, mas despertava curiosidade entre os ratos e ratazanas, que a farejavam e até mesmo mordiam. O incômodo fez com que a garota levantasse aos sustos, espantando todos os ratos que nela se aconchegavam, mas a presença de um único rato que fora estúpido o bastante para observar a morena, teve seu destino arruinado quando ela o agarrou pelo pescoço e fincou em sua barriga suas presas, drenando todo o sangue que podia.
Sugou todo o sangue que o minúsculo animal tinha e jogou a carcaça morta e anêmica longe. Teus olhos tomados pela luz quente refletiam no azul tão claro e cristalino, reluziam naquele beco escuro onde ninguém ousava entrar. Alice olhou para os lados e viu a garrafa da água e novamente em um ato de desespero abriu a garrafa e bebeu tudo que podia, até que não houvesse nenhuma gota restante. Saciada apenas a sede, recobrou a humanidade que tinha e começou a chorar. Seu choro doído fazia com aparentasse ter doze anos, soluçando e trazendo à tona o motivo de estar ali naquela noite, sozinha e acabada, sem ninguém para consolá-la. Ela decidiu assim, decidiu partir morte de e fez de sua ambição a vingança, mas nem mesmo ela sabia por onde começar. Fora dada como desaparecida, ainda via por vezes em jornais jogados pelas ruas sua antiga cuidadora tocando os negócios deixados pela própria Alice antes de partir.
Com lágrimas em seus olhos preenchidos pelo vermelho da irritação, se pôs a olhar para cima e observar as estrelas. Abriu a boca para amaldiçoar a vida que tinha, mas a fechou antes que proclamasse qualquer palavra, sentindo um cheiro delicioso e ela iria segui-lo. Tirou os trapos que vestia e colocou as vestes a ela doadas fez do cobertor uma bolsa malfeita, colocando as garrafas da água e um pedaço do trapo rasgado e sujo. O intuito de andar desta maneira era disfarçar seu cheiro e consequentemente seu reconhecimento, não poderia arriscar ser reconhecida. O assassino de seus pais ainda estava à solta e certamente procurando a última e única herdeira do título e poderio Knight, isto implicava a ela cautela e infelizmente uma vida imunda.
Andou com passos suaves até o cheiro, cada vez mais se afastando da cidade e adentrando as matas, até que se deparou com uma toca de lebres onde havia uma grande família., aproximou-se cuidadosamente, sem deixar que a percebessem e atacou com voracidade cada animal que naquela toca habitava. A fome não lhe deu espaço para a humanidade, seus dentes enfincavam na carne das duas lebres maiores e logo em seguida quebrou o pescoço dos dez filhotes que restaram e os levou até a beira de um lago segurando-os pela orelha, onde lavou e com uma pedra afiada o bastante a lixou seus corpos até arrancar todo o pelo e abriu a barriga deles. Naquela noite a grandiosíssima herdeira de um título nobre comeu lebres em uma fogueira improvisada no meio da mata.
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A Dama das Trevas
VampireUma vingança envolta de sangue, coágulos que endurecem nas presas dos assassinos de uma família inteira; um poderio ameaçado de extinção e uma jovem que busca reconquistar sua vida. Alice Knight é herdeira do maior poderio de Inglaterra, com fortuna...