Eu?

14 2 0
                                    

Era uma vez eu...

Atravessando as ruas apressadamente com os fones nos ouvidos desligados para ouvir meus passos e possíveis suspeitos naquela madrugada fria. Estrategicamente carregava um canivete no bolso do moleton com um capuz sobre minha cabeça, como defesa caso alguém corresse atrás de mim e tentasse me segurar pelos meus cabelos.

Sentia um confuso misto de confiança, medo e raiva. Emoções que sempre me acompanhava quando ia para o ponto de ônibus do serviço.

E ali depois de meses do conflito que sentia, por fim aconteceu.

Faltando dois quarteirões para o meu destino, logo na esquina que eu virava, havia um homem escorado de lado no muro, como se me esperasse. Estaquei na hora: por mais que ele estivesse de máscara, percebi seu sorriso lambendo meu corpo de cima a baixo. Minha primeira reação foi largar a bolsa e correr.

- Fogo, alguém me ajuda... Tá pegando fogo - gritei a frase estratégica que um professor de técnicas de defesa pessoal me ensinou.

Sabia que algumas casa para trás havia uma casa com câmera de segurança e foi para lá que corri. Ouvia os passos atrás de mim, mas aposto que o homem não imaginava que eu corresse tão rápido... Afinal, corria longos percursos em poucos minutos durante meses, como que se me preparasse para esse momento.

Tirei a touca da cabeça, puxei a máscara do rosto e me pus de frente as câmeras ao gritar a frase mais uma vez.

Finalmente o homem me alcançou, mas parou no momento que me virei de frente pra ele e apontei meu canivete.

- Fer, Fer... Vamos gatinha, não seja tão arisca.

Então eu percebi... Um rapaz da manutenção do meu serviço que desde quando entrei, me lançava sorrisos lascívios. Olhares intensos que me dava calafrios. Me enviava mensagens dizendo que queria me ver, me tocar, que não aguentava ficar só me olhando. Quando o nojento falou que toda vez que me via lá no serviço ia direto pro banheiro bater uma, o bloqueei de todas as redes sociais as quais me mandava mensagem.

Quando ele tirou a própria máscara, me virei para o lado e vomitei. Um segundo depois o sentia me agarrar por trás.

Deus, o nojo era tanto, que mesmo sendo bem maior que eu me enchi de raiva, me dando força, enfiando minha perna entre as dele, jogando meu corpo para frente fazendo o corpo dele rolar por cima do meu e por fim cair de costas no chão. No mesmo instante desci com a faca em direção ao pescoço do cretino.

Eu tremia em êxtase de raiva, adrenalina, medo, nojo quando o vi se esquivar e meu canivete rasgar apenas seu ombro. Quando vi um carro se aproximar com ele rindo debaixo de mim, sabia que não adiantava mais. Joguei meu canivete dentro da casa que filmava toda aquela cena, com sangue dele, com a prova do crime caso acontecesse algo comigo que eu não pudesse testemunhar.

O segundo rapaz que eu não conhecia logo desceu do carro enquanto aquele desgraçado no chão agarrava meus cabelos me forçando para perto dele. Uma luz na casa ao lado acendeu, um resquício de esperança se encheu em mim, que logo se dissipou quando os dois me arrastaram para dentro do carro e assim a pessoa saiu pelo portão da casa, tentando correr atrás do carro.

Se algo acontecesse comigo caso eu não pudesse acusar, ao menos eu tinha uma testemunha.

Era uma vez eu, que deixava de existir.

Era uma vez EuOnde histórias criam vida. Descubra agora