Capítulo 3

48 12 64
                                    

Segunda feira

Não tem dipirona no mundo que resolva a dor de cabeça imensa que estou sentindo, talvez isso seja resultado da noite mal dormida ou excesso de trabalho.

Caminhei em direção a cozinha e peguei o remédio para dor de cabeça na caixinha de remédios

Engoli o comprido com certa rapidez, querendo chegar o mais rápido possível no banheiro, minha cabeça lateja de tanta dor e só uma ducha pode aliviar o incômodo.

A cama quentinha e o ar  condicionado gelando o ambiente é a combinação perfeita para relaxar

Deitei na cama pra descansar e esperar o remédio agir , comecei a lembrar da minha infância, quando meus pais levavam eu e meus irmãos no pão de açúcar e depois nossa parada era na barraquinha de cachorro quente com tudo dentro.

Esses momentos não eram muito frequentes porque minha mãe e meu pai trabalhavam demais, fui criada mais por babás do que pelos meus próprios pais.

Meu irmão mais velho foi o mais sortudo em certos pontos, quando ele nasceu o restaurante era apenas o bar na praia de Copacabana e por causa disso, Jorge pode contar com a presença dos nossos pais, coisa que tive muito pouco.

Eu e minhas irmãs nascemos em outra época, época onde os dois trabalhavam demais mas reconheço que tudo isso foi para nos dar qualidade de vida.

O momento nostalgia acabou e decidi pegar o notebook para checar o e-mail Daniel não pode ir ao restaurante hoje mas ele disse que mandaria um anexo falando todas as informações essenciais sobre o filme.

Torci mentalmente pra não ter tantas páginas mas infelizmente minha torcida foi em vão, o anexo continha mais de quatro páginas.

                     Verão cinzento

O nome do filme é meio brega mas a história é interessante.

Uma jornalista vai passar as férias em Salvador e descobre que vinte anos antes houve uma chacina na pousada onde ela está hospedada e com o passar dos dias vai descobrindo que por algum motivo, ela tem ligação com essa tragédia.

Ivete é minha personagem, mora perto da pousada e será peça essencial nas descobertas da moça.

Mulher forte e de poucas palavras, olhar altivo e sabedoria para dar e vender, essa é a descrição de Ivete.

O bom é que dani garantiu que não precisarei atuar muito. Se me dedicar e tudo colaborar, em menos de duas semanas ele terá todas as minhas cenas gravadas.

A última página chamou minha atenção, nela estão todos os atores e atrizes, analisei o nome e personagem de cada um com demasiado tédio.

Mas quando li determinado nome precisei esfregar os olhos e ler repetidas vezes para ter certeza que não li errado.

Bruna Paiva

Confesso que gelei, Bruna é a atriz principal e será a única pessoa com quem terei interação em todo o filme

Mas que merda! O elenco recheado de gente, vou atuar ao lado de uma pessoa só... E essa pessoa tinha que ser ela?

Eu e Bruna estudamos juntas por longos onze anos, dos seis até os dezessete e posso dizer que nossa convivência nunca foi agradável, sempre foi péssima na verdade. Essa rivalidade começou na infância e se estendeu até o último ano do ensino médio.

Já sabia a profissão escolhida por ela, assisti alguns trabalhos seus e admito que talento como atriz ela tem.

Se eu desistir seria covarde da minha parte?

Óbvio que sim !

Tentei desencanar um pouco desse assunto e sair para caminhar na beira do mar.

A praia não está muito cheia, se tiver vinte pessoas é muito. 

Decidi visitar alguém que me conhece desde menina, que viu a tianinha banguela correr e brincar pela areia da praia, pessoa que sempre ouvia minhas decepções amorosas e chororôs infinitos na adolescência.

- Sabia que estou com saudades da senhora ?  - apoiei os cotovelos no balcão do quiosque

- Faço das suas palavras a minha, menina Tiana - dona Rita dando beijos estalados na minha bochecha

Rita trabalha há anos aqui na praia, proprietária do meu quiosque favorito lugar onde vende o camarão mais gostoso e de quebra, encontro conselhos melhores ainda. Dona Rita é a madrinha que escolhi para mim, amiga desde sempre e não importa a minha idade, para ela sempre serei a menina Tiana.

Conversa vai conversa vem, contei a ela sobre o filme e a questão da Bruna participar dele.

- Destino é uma coisa louca, você e a Bruna eram igual cão e gato, foi assim durante anos e agora trabalharam juntinhas. - o olhar de Rita era distante, como se lembrasse das incontáveis vezes que reclamei sobre minha inimiga com ela.

- A senhora acha que devo desistir ? - falei girando o canudo do refrigerante

- Escute Tiana, entendo a sua preocupação e é algo normal mas pensa só, você não convive com essa mulher a tanto tempo.

- Eu sei

- Você já tem trinta anos e ela também, aposto como pra ela toda essa treta já ficou no passado, na infância e adolescência de vocês.

- Pra mim também

- Então pronto. Não tem porque esquentar a cabeça com isso menina Tiana.

Refleti e vi que Dona Rita tem razão

Afinal de contas, o que pode dar errado ?



Setenta e duas horasOnde histórias criam vida. Descubra agora