A Herança do Vazio
A fotografia do seu rosto ficou amarelada.
A voz perdeu a pressa e se tornou um sussurro.
Você finalmente parou de lutar contra o oxigênio espesso.
O medo, antes um incêndio, se tornou apenas cinzas.
Então, você começou a morar nas rachaduras da casa:
As paredes que te continham, perderam-se com a sua presença.
Suas memórias se foram, assim como as minhas.
O espelho parou de imitar o seu reflexo.
E o orgulho que te sustentava foi corroído com silêncio.
A vastidão retornou ao quarto claustrofóbico;
Quando você se desfez dos nomes e das roupas que pesavam.
Tornou-se o vazio que eu vira existir em ti.
A paralisia parou de ser peso e passou a ser abraço.
E o silêncio extremo, carrasco, transformou-se em seu manto.
Você deixou de ser a carne que sofre para se tornar a dor.
Ocupou o espaço exato entre o que foi dito e o quase nada.
Talvez, um pouco como eu — vácuo que atravessa séculos.
Quando, por fim, entendeu que correntes só existem para quem insiste em ser.