O primeiro contato que tive com o luto, foi quando minha bisavó morreu, eu devia ter por volta dos dez anos. Naquela época eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, era de meu conhecimento que minha bisa tinha ido para um lugar melhor, provavelmente junto a Deus.
Hoje era o dia em que eu mais desejei que o luto não fosse o preço que pagamos por amar demais alguém. Nada me preparou para enfrentar o que senti ao vê-la morta, com o olhar sem brilho e o corpo gélido. Parecia apenas repousar como sempre fazia em meu colo, só que não havia vida ali.
Quis não acreditar no que estava acontecendo, que eu te apertaria em um abraço caloroso mais uma vez, sentiria seu cheirinho e a chamaria de fedida mesmo que fosse mentira, eu queria poder enchê-la de beijos e ouvir seus resmungos. Depois de muito relutar, questionei infinitos porquês, procurando cegamente alguém para culpar.
Dizem que quando estamos à beira da morte, um filme de nossas vidas passa diante de nossos olhos, exatamente como acredito ser neste lamentável estagio do luto. Cada momento, desde a adoção até virar uma aborrecente foi acompanhado com tanta felicidade, cheia de saúde e vida. As fotos são lembretes memoráveis de que quem morre está em um lugar melhor, mas a dor que é a saudade se enraíza nos que ficam, de forma tortuosa. Os dias se arrastam lentamente prolongando o sofrimento que é seguir quando o tempo parece ter se estagnado. Você só quer ser acolhido e se sentir em casa em meio a algum abraço, mas não há consolo disponível e você tem que lidar com toda a barra sozinha. Porque as pessoas só sentem muito.
Quando criança eu tinha dúvidas do porquê em um velório eu via pessoas tristes quando do outro lado uma parcela sorria, dançava, brigavam sem respeito algum. Agora adulta, conheço a maldade dos seres humanos. É por isso que choro a morte de Bellatrix, uma gatinha tricolor de quase três anos, a rabugenta considerada uma filha.
Eu te amo Trixie, a cada batida do meu coração.