Parte I

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Dizem por aí, que todas as bruxas são velhas amarguradas buscando descontar as frustrações nos outros. Isso é uma tremenda mentira. No meu reino, as bruxas não são perigosas nem boas, elas são somente insignificantes e desnecessárias. Desajustadas, perdidas na multidão. Ainda não se libertaram das antigas amarras da magia.

Minha mãe contou que durante sua juventude, a magia fazia tudo que pessoas comuns não eram capazes, quem não a dominava normalmente perdia espaço no mundo. Isso mudou quando um novo rei subiu ao trono de Ravenyx.

Ele considerava a magia como algo ultrapassado, antiético e um tanto perigoso. Ofereceu recompensas altas a todos que encontrassem soluções científicas e objetivas aos problemas. Foi aí que grande parte do que usamos apareceu nas prateleiras de lojas, e profissões foram inventadas.

De repente, surgiram as costureiras, pois uma varinha mágica não era mais necessária para se criar um vestido. Vieram os garçons, quando notaram que fazer a macarronada flutuar da panela até o prato era nojento. Os zeladores, pintores, escultores e todas essas coisas incríveis que as pessoas nem sequer faziam ideia que suas mãos eram capazes de produzir.

Eu concordo veementemente com esse incentivo a ciência do nosso rei, pois as desigualdades e a fome diminuíram consideravelmente. O reino não era mais dependente de somente uma classe de pessoas "especiais" para realizar absolutamente tudo, cada um desenvolve seu potencial de acordo com o que sabia e gostava de fazer.

Se um dia você visitar Ravenyx, vai encontrar um mundo em mudança, as ruas possuem casas de todos os tipos, grandes, pequenas e até umas construções super arquitetadas chamadas de prédios. Temos parques, praças, restaurantes, e bugigangas novas e super interessantes que os chamados "cientistas" - Nossos novos bruxos - passaram a criar. Tenho consciência que ainda falta bastante, mas recentemente começou a circular o boato de um tal "relógio", um dispositivo redondo de marcar o tempo.

Alguns dos mais espertos, até dizem que irão trazer uma tal de "energia", que seria mais ou menos como guardar um pedacinho do sol dentro de uma bola de vidro para iluminar as noites e fazer uma variedade de outras coisas. Eu espero, um dia, ser uma das cientistas responsáveis pela chegada da energia em Ravenyx, nossa nova magia. Ela foi descoberta em um outro mundo, onde faz cidades inteiras funcionarem com fios e engenhocas metálicas. Quando conseguirmos trazê-la para cá, será realmente um grande passo.

A única construção rústica, mas que também pensam em modernizar, é o palácio do rei, uma questão de cultura, eu diria. Ademais, posso dizer que tudo muda em questão de semanas. A substituição da carruagem por veículos de menor porte é uma realidade cada vez mais próxima depois que uma mulher construiu em casa um "cavalo de metal" que funciona com duas rodas, freios manuais e corrente.

Agora a parte ruim é que eu, Maya, sou a única pessoa em toda Ravenyx que, apesar de ser completamente fascinada pelos avanços, não participo de nada. Tudo culpa da minha mãe.

Como já disse, durante sua juventude ela vivenciou a idade da escuridão e dependência total da magia. Seus pais foram bruxos, e ela é também. Eu, uma futura cientista, que trará energia, sou obrigada a aprender coisas de bruxa como flutuação de objetos, por culpa dela.

Agda é a velha mais cabeça dura, conformista e medrosa do mundo. Ela diz que a magia é a solução e resposta dos problemas, vive em um eterno comodismo se negando a socializar e ser, digamos, normal. É por isso que moramos em uma casa acabada, pequena e úmida escondida atrás de um pântano fedorento. Seria inconveniente usar magia no centro do reino ou em uma região habitada por seres civilizados, por isso ela insistiu em mudar-se para cá, e enquanto passa os dias recriando feitiços velhos que ela jura, ainda serão reconhecidos, todos seguem em frente do outro lado.

O Lar do Dragão, das Bruxas e dos Gatos | ContoOnde histórias criam vida. Descubra agora