Parte IV

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Os dias foram passando e os gatos continuaram de prontidão, guardando o ovo. Eu espiava, às vezes, eles se revezavam para enroscá-lo e formar as fileiras. Até pararam de viajar durante esse período, e todos os novos que chegavam assumiam a nobre causa. Nutri uma afinidade tão grande por eles que acabei por tomar o papel de uma verdadeira mãe de gatos, comprando ração, trocando a água e até escovando seus pelos, quando algum deixava.

Minha relação com Agda melhorou, a ferida ainda estava aberta, mas as mães possuem um incrível dom para perdoar mesmo quando não merecemos. A parte dolorosa foi ter parado de comparecer ao centro de ensino, mas não quero ver Kyle nunca mais na minha vida. Respondi a carta da direção avisando sobre minha falta de interesse em prosseguir com os estudos, e, sinceramente, não se importaram muito. A formação no centro de ensino é completamente opcional em Ravenyx.

Em um dia qualquer, sem nada de especial, enquanto lavo as tigelas de ração, os gatos saem do quarto da minha mãe, finalmente abandonando seus postos.

Assustadas, nós corremos para ver o que se sucedeu.

O ovo não estava mais rachado e sim partido ao meio, ao seu lago se espreguiçava uma criaturinha escamosa e feia, o filhote de dragão.

— Mãe!

— Céus, só podem ter sido os gatos.

— Claro que sim!

Com cuidado, nos ajoelhamos ao seu redor, abismadas com o milagre da vida. Ele era como um lagarto grande, de olhos fechados e pele cor-de-vinho escamosa capaz de cortar a pele. Sua cabeça era larga, e a calda grossa e pequena caia entre as patinhas traseiras, as dianteiras eram minúsculas, e não havia nem sinal de asas.

Nosso dragão nasceu, a missão foi cumprida.

— Eu sabia! — Ganho um abraço grande de Agda, incrédula que os gatos consertaram meu erro. — Eu sabia que ia ficar tudo bem!

Retribuo o abraço com muita força, era como se um nó no meu peito tivesse se desfeito, permitindo a meu coração bater normalmente outra vez. Rapidamente, mamãe pega um pano limpo de cima da cama e coloca ao redor dele.

— Temos que avisar o príncipe, imediatamente!

— Sim, antes que ele comece a cuspir fogo.

Com cuidado, ela põe o novo integrante frágil da família sobre o travesseiro, e se apressa em escrever um correio mágico ao príncipe, uma carta que será levada ao endereço por alguma ave amigável.

Abracei e beijei todos os gatos que encontrei, principalmente Tonho. Eles começaram a sumir de um por um, tendo em vista que sua missão foi cumprida, e precisavam seguir seus caminhos.

Enquanto mamãe faz seu trabalho de avisar, corro até a sala onde aprendemos a magia, passo a mão pelas lombadas velhas de livros antigos e sinto a textura de cada uma das plantinhas e objetos que costumamos usar.

— Esse é meu lugar.

Admiro tudo com um pouco mais de atenção, mamãe entra com um largo sorriso em seu rosto.

— Maya, eu já escrevi para o príncipe sobre o dragão, ele não precisa saber da nossa pequena desventura. O importante é que conseguimos.

— Estou feliz que ele não tenha descoberto, foi difícil dar notícias falsas aos seus mensageiros.

— Sim.

— Mãe, obrigada por me acobertar. Eu juro que aprendi a lição.

— Que lição seria essa?

— Aceitar meu papel, ser quem eu sou. Não vou mais tentar fazer parte de um mundo que não me pertence, sou uma bruxa e esse é meu lar.

— Não é assim. — Segura minha mão com doçura, e sem entender muito bem, presto atenção em suas palavras. - Eu cometi um erro grave, tentei te forçar a seguir meus caminhos, reprimindo seus sonhos.

— Mas...

— Maya, uma família não é um grupo de pessoas completamente iguais, são pessoas diferentes que se respeitam e ajudam durante as dificuldades.

— O que quer dizer?

— Eu amo a magia, é a minha vida. A sua é diferente, então, eu vou te apoiar em frequentar o centro de ensino e aprender o que quiser. Desculpe não ter feito isso antes.

Foram dias estranhos, e o desfecho deles seria fabulosamente belo se assim o fosse, apesar de meus sinceros esforços em ser, finalmente, como ela sonhou.

— Mãe, eu sou uma bruxa — afirmo.

— E quem disse que não pode ser bruxa e cientista ao mesmo tempo? Não é a ciência, afinal, um tipo de bruxaria?

— Acho que sim...

— O príncipe Asafe conversou comigo no primeiro dia em que veio aqui, além do ouro, sei de uma outra recompensa. Você gostaria de estudar no centro de ensino da família real? Os professores e o método de ensino lá são diferentes do seu antigo.

Nunca pensei na possibilidade de ir até lá, mas por se tratar de algo criado pelo próprio rei, nas proximidades do castelo, só pode ser um lugar enorme, com extenso acervo literário e salas riquíssimas de experiência. O melhor.

— Mas mãe... Fica tão longe. Como vou poder ir todos os dias?

— Com certeza existe algum programa de internato para que os alunos possam morar lá.

— Mas e meus estudos com a senhora!? E a magia?

— Vai trocar essa oportunidade por causa da magia? - Ela ri.

— Não?

— Maya, esta velha cabana sempre será seu lar, mesmo que seja muito pequena e limitada para sua mente que está nas alturas, pesquisando ciência. Também sempre será o meu lar, dos gatos e de algum outro possível ovo de dragão abandonado.

— Não sei o que dizer — Soluço.

— Se ainda quiser aprender algumas coisinhas úteis como deixar seu melão mais doce, sabe a quem recorrer.

Abraço ela novamente, dessa vez demoradamente, e posso ter a certeza de que todos os dias ruins foram necessários, para que pudéssemos alcançar nosso entendimento.

Mamãe não insistiria nunca mais em controlar meus sonhos, e eu, quando chegasse ao novo centro de ensino, não teria vergonha de contar a ninguém que sou bruxa. Duvido que algo seja tão legal quando cuidar de um ovo de dragão e ter vários amigos gatos. E se alguém me criticar ou tiver vergonha de andar comigo, vou saber que são apenas pessoas de mente fechada, que não entenderam que ciência e magia são praticamente a mesma coisa.

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O Lar do Dragão, das Bruxas e dos Gatos | ContoOnde histórias criam vida. Descubra agora