O sol brilhava intermitente na manhã seguinte, e o vento forte que carregava velozmente as nuvens escuras sacudia as vidraças e gemia baixinho pela casa. Scarlett fez uma breve oração de agradecimento pela chuva da noite anterior ter cessado, pois ficara acordada escutando, sabendo que significaria a ruína de seu vestido de veludo e do chapéu novo. Agora que conseguia captar relances fugazes do sol, readquiria o ânimo. Ela mal conseguira ficar na cama e parecer lânguida, gemendo, até tia Pitty, Mammy e Tio Peter terem saído de casa a caminho da Sra. Bonnell. Quando, por fim, o portão da frente se fechou e ela ficou sozinha em casa, exceto pela presença da cozinheira, que cantava na cozinha, saltou da cama e tirou a roupa nova do cabide do armário.
O sono a revigorara e lhe dera energia. Ela tirou coragem do cerne duro e frio no fundo do coração. Havia algo na perspectiva de uma luta de sagacidade com um homem — qualquer que fosse — que lhe enchia de brios, e, depois de meses batalhando com incontáveis desânimos, saber que enfim iria encarar um adversário definitivo, alguém que poderia desmontar com o próprio esforço, deu-lhe uma sensação de alegria.
Vestir-se sem ajuda era difícil, mas ela finalmente conseguiu e, botando o chapéu de sol com suas penas, correu até o quarto de tia Pitty para se olhar no espelho de corpo inteiro. Como estava bonita! As penas do galo lhe davam um ar vistoso, e o veludo verde do chapéu deixava seus olhos brilhantes, quase cor de esmeralda. E o vestido era incomparável, luxuoso, bonito e ao mesmo tempo elegante! Era maravilhoso ter um belo vestido novamente. Era tão bom saber que estava bonita e provocante, e impulsivamente ela se inclinou e beijou o próprio reflexo no espelho, rindo de sua tolice. Pegou o xale de lã de Ellen, mas suas cores gastas colidiam com o vestido verde-musgo, empobrecendo-o. Abrindo o armário de tia Pitty, ela retirou um manto preto de casimira, um traje outonal que Pitty só usava aos domingos, e vestiu-o. Pôs nas orelhas furadas os brincos de brilhante que trouxera de Tara e balançou a cabeça para ver o efeito. Eles tilintavam de leve e ela pensou que devia se lembrar de balançar a cabeça com frequência quando estivesse com Rhett. Brincos dançantes sempre atraíam um homem e davam a uma moça um ar animado.
Que pena tia Pitty não ter outras luvas, além das que usava agora em suas mãos gordas! Nenhuma mulher conseguia se sentir uma verdadeira dama sem luvas, mas Scarlett não tinha um par desde que deixara Atlanta. E os longos meses de trabalho duro em Tara haviam deixado suas mãos ásperas, e elas estavam longe de ser bonitas. Bem, não tinha jeito. Ela pegaria o pequeno regalo de foca de tia Pitty e ali esconderia as mãos nuas. Scarlett sentiu que aquilo lhe dava o toque final de elegância. Ninguém que a olhasse agora desconfiaria de que pobreza e necessidade pairavam em seus ombros.
Era muito importante que Rhett não desconfiasse. Ele não podia achar que qualquer outra coisa, além de sentimentos ternos, a impulsionava.
Na ponta dos pés, ela desceu as escadas e saiu da casa enquanto Cookie continuava berrando na cozinha, despreocupadamente. Apressou-se pela rua Baker, evitando os olhos dos vizinhos que tudo viam, e sentou-se em um descanso de carruagem da rua Ivy, em frente a uma casa incendiada, esperando por alguma carruagem ou carroça que lhe desse carona. O sol aparecia e desaparecia por trás de nuvens apressadas, iluminando a rua com um falso brilho sem calor, e o vento agitava as rendas de suas calçolas. Estava mais frio do que esperava, e ela se enrolou no manto fino de tia Pitty, tremendo impacientemente. Quando se preparava para começar a andar o longo caminho que atravessava a cidade até o acampamento ianque, apareceu uma carroça alquebrada. Nela havia uma velha com o lábio cheio de rapé e um rosto calejado pelas intempéries sob um chapéu de sol pardacento, dirigindo uma velha mula preguiçosa. Ela ia na direção da prefeitura e, de má vontade, deu uma carona a Scarlett. Mas era óbvio que o vestido, o chapéu e o regalo não contribuíam para lhe causar boa impressão.
"Ela acha que sou uma assanhada", pensou Scarlett. "E talvez tenha razão!"
Quando enfim chegaram à praça da cidade e a alta cúpula da prefeitura se assomou, ela agradeceu, desceu da carroça e observou a camponesa seguir em frente. Olhando em volta para certificar-se de não estar sendo observada, beliscou as faces para lhes dar alguma cor e mordeu os lábios até ficarem ardendo de vermelhos. Ajeitou o chapéu, os cabelos e olhou para a praça. O sobrado de tijolos aparentes da prefeitura sobrevivera ao incêndio da cidade, mas parecia abandonado e malcuidado sob o céu cinzento. Cercando o prédio e cobrindo a praça, havia fileiras e mais fileiras de cabanas do exército, sujas e salpicadas de lama. Soldados ianques flanavam por toda parte e Scarlett olhava para eles insegura, parte de sua coragem a desertando. Como faria para encontrar Rhett nesse acampamento inimigo? Ela olhou para o fim da rua na direção do posto dos bombeiros e viu que as largas portas curvas estavam fechadas e bem trancadas, sendo que dois sentinelas passavam para cá e para lá nos lados do prédio. Rhett estava lá. Mas o que ela deveria dizer aos soldados ianques? E o que diriam a ela? Ajeitou os ombros. Se não tinha temido matar um ianque, não deveria temer falar com um deles.
