Em seguida à saída de Prissy, Scarlett entrou no vestíbulo e acendeu um lampião. A casa fervia de tão quente, como se tivesse retido em suas paredes todo o calor do meio-dia. Parte do entorpecimento estava passando, e seu estômago clamava por comida. Lembrou-se de que não comera nada desde a noite anterior, exceto uma colherada de canjica, e, pegando o lampião, foi até a cozinha. O fogo tinha se apagado, mas o cômodo estava sufocante. Ela encontrou meia broa de milho seca na frigideira e deu uma mordida enquanto procurava por alguma outra coisa para comer. Havia um resto de canjica na panela, que ela comeu com uma grande colher de cozinha, sem esperar para se servir em um prato. Precisava muito de sal, mas estava com fome demais para procurar. Depois de quatro colheres cheias, o calor da peça ficou insuportável e, pegando o lampião em uma das mãos e um pedaço de broa na outra, ela foi até o vestíbulo.
Sabia que devia subir e sentar-se ao lado de Melanie. Se tivesse algum problema, Melanie estaria fraca demais para chamar. Mas repudiava a ideia de retornar àquele quarto onde passara tantas horas de pesadelo. Mesmo que Melanie estivesse morrendo, ela não podia voltar lá. Nunca mais ia querer ver aquele quarto. Pôs o lampião no aparador de velas próximo à janela e voltou à varanda. Estava mais fresco ali, mesmo com a noite abafada. Sentou-se nos degraus, no círculo de luz lançada pelo lampião, continuou roendo o pão.
Ao terminar, readquiriu alguma força e, com esta, retornou uma pontada de medo. Ela podia ouvir um burburinho de vozes na rua lá embaixo, mas não fazia ideia do que pressagiava. Não conseguia distinguir nada além de um som que subia e baixava de volume. Fez um esforço para escutar e logo percebeu os músculos doendo de tensão. Mais que qualquer outra coisa no mundo, ela queria ouvir o som de cascos e ver os olhos displicentes e confiantes de Rhett rindo de seus temores. Rhett as levaria embora, para algum lugar. Ela não sabia para onde. Nem se importava.
Ao se sentar com os ouvidos atentos na direção do centro, um leve clarão apareceu acima das árvores. Aquilo a intrigou. Observando, ela viu que ficou mais claro. O céu escuro ficou rosado, depois vermelho e, de repente, acima das árvores, ela viu uma enorme língua de fogo bem alta no céu. Ficou de pé em um pulo, o coração recomeçando a bater desordenadamente.
Os ianques tinham chegado! Ela sabia que eles tinham chegado e estavam incendiando Atlanta. As chamas pareciam vir da parte leste do centro da cidade. Ficavam cada vez mais altas e aumentavam rapidamente em uma vasta extensão encarnada diante de seus olhos apavorados. Uma quadra inteira devia estar queimando. Uma leve brisa quente trazia o cheiro de fumaça.
Correndo para cima, ela foi a seu quarto e debruçou-se para fora da janela, tentando ver melhor. O céu tinha uma terrível coloração lúgubre e grandes redemoinhos de fumaça preta subiam pairando como nuvens encapeladas acima das chamas. Agora o cheiro de fumaça estava mais forte. Sua mente corria incoerentemente de um lado para outro, pensando quanto tempo levaria para que as chamas se espalhassem, subissem a rua dos Pessegueiros e queimassem a casa, quanto tempo levaria para que os ianques estivessem correndo atrás dela, para onde ela correria, o que faria. Todos os demônios do inferno pareciam gritar em seus ouvidos, e seu cérebro girava em tal confusão e pânico que ela se segurou no parapeito para não cair.
"Preciso pensar", ela dizia a si mesma sem parar. "Preciso pensar."
Mas os pensamentos lhe escapavam, indo e vindo em disparada, como beija-flores amedrontados. Enquanto se segurava no parapeito da janela, uma explosão ensurdecedora atingiu seus ouvidos, mais fragorosa que qualquer canhão. O céu foi tomado por uma labareda gigantesca. Em seguida, outras explosões. A terra tremeu e as vidraças acima de sua cabeça lascaram, caindo sobre ela.
O mundo se transformou em um inferno de barulho, chamas e tremores de terra conforme uma explosão se seguia a outra, em uma sucessão de estourar os ouvidos. Torrentes de faíscas se lançavam aos céus e desciam lenta e preguiçosamente, atravessando nuvens de fumaça cor de sangue. Ela teve impressão de ouvir um débil chamado do outro quarto, mas não deu atenção. Não tinha tempo para Melanie agora. Não havia tempo para coisa alguma, exceto para o medo que corria por suas veias com a rapidez das labaredas que via. Ela era uma criança e estava louca de medo, querendo enterrar a cabeça no colo da mãe e interromper aquela visão. Se pelo menos estivesse em casa! Em casa com sua mãe.
