Capítulo 41 (parte 1): Azul.

975 174 167
                                        

"E foi assim que aconteceu" falei ao final da história. "Acabei contado para o meu amigo mais tarde, precisava de um conselho."

"E qual foi a reação dele?"

Levou um tempo até que eu conseguisse colocar em ordem todas as cenas e acontecimentos para poder conta-los em cronologia e detalhes. Me recostei no acento da poltrona, afastei o cabelo do rosto e comecei:

"Fan-ge ficou em choque, acho que ele não esperava algo assim vindo de mim. Ele colocou o dedo na minha cara e falou: 'Pois se eu fosse ele teria te socado. Você conseguiu ser mais imaturo do que eu, meus parabéns, é um feito impressionante'.".

"Eu estraguei tudo, não foi?"

"Estragar?" Fan-ge me encarou por alguns minutos, sua expressão me dizia que ele estava a três segundos de esquecer a coisa toda e me jogar de um canhão direto no rio Hai. "Estragar é pouco. Você fodeu com tudo, querido. Sei que gosta de se sabotar, mas isso já está parecendo masoquismo. Sério, se queria entrar para o mundinho BDSM por que não escolheu chicotes e algemas como toda pessoa normal? Umas palmadinhas no traseiro de vez em quando são uma coisa, mas foder com os sentimentos de outras pessoas é diferente."

"Realmente perdi a cabeça. Eu estava mal."

Eu parei, pensando que talvez ele fosse como um tiranossauro rex, e que não me atacaria se eu não me movesse. O que não foi o caso, já que ele disse:

"Você ter problemas não justifica e nem te da o direito de tratar as pessoas feito merda. Se você falasse comigo como falou com o Gun, eu teria quebrado as suas duas pernas. E reze para que Off não descubra, pois eu duvido que ele seja tão benevolente quanto o Gun foi."

De fato eu estaria morto, e não de forma figurativa (desconfio que Off saiba mesmo como esconder um corpo sem deixar vestígios).

Eu machuquei duas pessoas importantes, e pelo que? Quando vi o quanto eu os magoei, percebi que a minha loucura já não afetava mais só a mim, mas as pessoas ao meu redor também.

Fan parou por um momento, internamente decidindo se agiria como o policial bonzinho ou o malvado. E eu deveria estar péssimo, porque ele optou pelo policial bonzinho.

Impaciente, ele sacudiu as mãos na frente do meu rosto.

"Xô! Xô! Acabei de desviar toda a sua energia negativa. A merda já foi feita, ficar se martirizando não vai mudar nada. E não espere que alguém resolva isso por você, porque não vai acontecer. Portanto, cara, levanta essa bunda magra e vira homem."

Obviamente não argumentei contra, afinal ele estava certo. Além do mais, pela primeira vez em anos, eu não queria fugir das minhas merdas. Eu quis resolver aquela situação o mais rápido possível. A possibilidade de perdê-los foi aterrorizante.

Eu precisava de ajuda.

Eu preciso de ajuda.

"Por isso estou aqui" fiz um gesto que abrangeu todo o consultório.

Tentei explicar da melhor maneira possível, me esforcei ao máximo para não ser prolixo. Ainda me sentia um pouco deslocado em falar abertamente sobre mim mesmo.

No entanto, eu sabia que era um desafio necessário. Se quisesse que isso desse certo, precisava me abrir sem reservas, ou seria dinheiro jogado no lixo, e não era como se eu tivesse muito de sobra.

"Como você se sentiu ao ouvir aquilo do seu amigo?" questionou a mulher de voz suave.

Quando jovem, a doutora Hangying devia ter sido muito bonita, pois mesmo após adquirir as rugas e vincos da experiência, ela ainda possuía aquela beleza graciosa somada a uma ternura que só o tempo era capaz de ensinar. Eu me sentia confortável perto dela.

FROST Histórias para pegar e não largar. Descubra agora