Depois de ter entregado a chave da antiga casa ao síndico, peguei um táxi até a casa dos meus pais. Tudo voltou a minha mente no momento que reconheci as ruas e esquinas do bairro onde morava. Nem parecia que se passaram anos desde que sai de casa. A livraria parecia mesma da última vez que vi, as poucas mudanças existentes pareciam ser uma triste perspectiva de certas coisas que acabaram se perdendo ou fadadas ao abandono, um dos lugares era o antigo fliperama que era um dos mais populares e um dos mais visitados pelas crianças e até adultos, deu lugar a uma loja de conveniências que parece ser um ambiente triste ou desmotivador olhando de longe. Nem tinha percebido que o táxi chegou no destino quando o taxista cutucou meu ombro "Senhora..? Chegamos.." disse o taxista com receio de uma reação ruim. Fiquei um pouco desnorteada "Oh, desculpe..Quanto será?" Perguntei meio perdida. "25 reais moça" disse. Dei uma nota de 20 e uma de 5 reais e disse com um sorriso leve "Aqui está". "Quer ajuda com as malas?" o rapaz disse e só assenti que sim, mesmo que eram só duas malas. "Obrigada..". O motorista e eu saímos do carro, tirou as malas do porta mala e só sorriu levemente até entrar no carro e dirigir. Pego minhas malas e encaro a casa por um tempo, incerta se devo desistir ou não disso tudo mas respiro fundo, pego a chave de casa e abro a porta.
Parecia que nada havia mudado desde que saí de casa, cada detalhe dos móveis pareciam não ter sido tocados há anos como uma memória que não existe mais, distante demais para alcançar. Mas resquícios de vida ainda estavam lá, podia sentir.
"Parece que ninguém viveu aqui desde meus 20 anos...." Disse, enquanto levava uma das malas para o meu quarto. Incomodo. Peito doía. Não deveria estar aqui mas não tinha como fugir mais, por mais que quisesse, essa possibilidade já desapareceu. Na prateleira sobre a TV, tinha algumas fotografias da família. Me aproximei para examinar melhor. Meus pais e eu quando era uma simples garotinha, inocente, imaculada e até preservada antes que a escuridão a corromper. A outra foto tinha os meus avós sorrindo para a câmera e no fundo, estava correndo de vestido e segurando um coelho de pelúcia roxo. Sempre que vejo as fotos dos meus avós, me faz lembrar os momentos em que os visitava no hospital depois da escola....A escola naquela época não era uma das melhores e ter a noção de que a pessoa que amava tanto indo embora piorava as coisas, mas não os culpo. Minha avó morreu primeiro, em sua casa enquanto dormia, infelizmente o meu avô tinha perdido a luta no hospital, dias depois. Estava no final do fundamental quando soube da notícia em uma semana só. Nunca superei as mortes deles.O grande sofá estava coberto com uma manta branca. A mesa de jantar estava coberta com uma manta junto com as cadeiras. Na mesinha do centro tinha algumas velas aromáticas e livros decorativos sem graça. O cheiro de mofo era insuportável e o fato das janelas estarem fechadas não ajudava nem um pouco. Abri a janela da cozinha e a porta da varanda. Dava para perceber o ar fresco de fora entrando. Fui para a varanda e acendi um cigarro, ainda processando tudo e olhando para a paisagem da minha infância.
Não imaginava que voltaria a bater de frente com a escuridão depois de anos, porém, não esperava que dessa vez seria ainda pior.
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Fragmentos do passado
رعبClara, depois de receber a notícia da morte de sua mãe, terá que voltar a casa de infância, o lugar que ela jurou nunca voltar por causa dos horríveis fantasmas do passado. Ela terá que enfrentar seus demônios para sobreviver. Aviso: Gatilhos relaci...