A investigação anterior provocou sensações jamais sentidas antes à Dandara; era difícil explicar, sentia-se dentro de si, parecia estar mais forte, revigorada. De certa forma, fazer o que gostava, evidenciava o quão viva sentia-se, ela amava o seu trabalho.
O dia começara mal naquela semana. Dandara havia acabado de acordar, e levantou-se da cama de cabelo em pé, pois seu telefone começou a tocar repetidamente com um barulho estridente de uma chamada. O seu companheiro de trabalho Lucas a ligava, de maneira repentina, e em um horário nada agradável.
- O que você quer? - Respondeu de forma ríspida.
- Nossa! que mal humor para quem acabou de receber o caso do ano.
- Olha, Lucas. Eu acabei de acordar, não tomei minha xícara de café ainda, isso significa que não estou dopada o suficiente para ligar para o que você irá dizer, então falta-lhe noção da merda que faz ligando neste horário...
Dandara fez uma pausa para olhar o relógio de cabiçeira. Marcava 5:30 da manhã, duas horas antes de seu expediente começar. Enraivecida, ela o respondeu de maneira franca:
- Eu realmento quero que você tenha uma boa desculpa para estar ligando neste horário. - Lucas engoliu em seco perguntando-se o motivo era mesmo importante. Apesar disso, decidiu responder à altura, mesmo sendo péssimo em discussões.
- Escuta aqui, viciada em cafeína, tem algo de estranho no assassinato. - Dandara sabia que tinha, passara dois dias desde o acontecido, porém até agora não tinha conseguido descobrir nada.
- Por que diz isso? - Dandara questionou sinceramente, assombrada, pois buscava novas pistas do ocorrido.
- Porque não havia sinais de arrombamento e nem de luta, significando que quem matou o presidente foi um conhecido - Lucas não expressava confiança em sua voz. Afinal, quem havia sido morto era o chefe de estado, o homem mais importante, e Lucas nutria certa admiração pela capacidade política dele.
- Eu sei disso.
- Então, por que diabos você marcou nos documentos que tinha sinais de arrombamento? - Dandara deu um pulo da cama, estava completamente furiosa, ela não tinha marcado nada. Sugerindo que outra pessoa tinha alterado as evidências, e ela sabia exatamente quem tinha sido.
Passou-se algumas horas, Dandara pensou minunciosamente no caso. Vestiu-se com suas vestimentas costumeiras, com sua marcante jaqueta azul. Foi até o departamento de polícia.
Entrou furiosa, e foi conversar com a secretária.
"Só duas pessoas tinham acesso para a modificação de documentos o detetive chefe, no caso ela, e o delegado do caso, Alex", marcava os seus pensamentos, aumentando suas incertezas.
- Onde está o delegado? - Ela perguntou para a secretária .
- Está em reunião. Você... - Dandara não esperou nem ela terminar de falar. Quando subiu as escadas e abriu as portas da sala, reunião... Dandara sabia que Alex sempre dizia aquilo apenas para ninguém ir importuná-lo, e ele evitava a grande maioria das reuniões. Alex a olhou com desdém.
- Não ouviu a secretária... - Dandara jogou os documentos na mesa.
- O que significa isso, Alex?
- Delegado Alex, por favor, não te dei tal honraria. - ela revirou os olhos... Presunçoso! Era isso o que ele era, pensou Dandara.
- O que é isso? - ela falou apontando para os papeis jogados na mesa.
- Ora, estes são os papeis da investigação. Estou começando a duvidar de sua capacidade de detetive - deu um sorriso irônico e olhou profundamente nos olhos de Dandara.
- Por que mudou os documentos? Você colocou que havia sinais de arrombamento. E eu sei bem do que sou capaz, senhor.
- Ah, isso, Dandara... - disse como se não fosse nada de especial. E olhou novamente com aquele rosto despretencioso, com ar de ironia e superioridade.
- Detetive Dandara para você - ela deu um sorrisinho forçado. Estava completamente enfurecida.
- Cara detetive Dandara, colocar que não havia nada, significará que foi um conhecido. Ou seja, minha querida, causaria mais alvoroço, repórteres insuportáveis aos nossos pés e mais dor a família do presidente.
Dandara ficou incrédula.
- Preste bem atenção, o caso é meu, então quem dita as regras aqui sou eu, mais uma coisa... não vou compactuar com essa mentira. Delegado. Você sabe tão bem quanto eu, que isso significará caso encerrado, porque sinais de arrombamento serão classificados como um simples "procurado". No caso, sem investigação, sem suspeitas, sem assassino.
- Minha cara detetive Dandara, as coisas não estão bem explicadas a você, permita-me explicar melhor. O delegado sou EU, então quem dita as regras sou EU e o departamento é MEU e até o seu trabalho é pertencente a mim, então, ou você sai dessa sala sem pestanejar e volta a assinar formulários, ou pode deixar sua arma e distintivo na mesa, e busque algum lugar que admita toda a sua vontade. Então, como será? - o ódio manifestou-se em Dandara, ela queria o certo, e ele não encontrava-se naquela sala com aquele homem indistinto.
- Está bem, delegado - ela pegou os papeis e saiu andando.
Lucas estava na porta aguardando.
- E ai, como foi?
- Nós nos encontraremos na cafeteria em vinte minutos.- e saiu andando, precisava diminiuir sua raiva explosiva.
- Se estivéssemos em um dos seus livros... diria que está bufando como um dragão... o que vai fazer se não pode mais mexer no caso - Dandara o olhou.
- A não, nem vem...
- O que?
- Eu conheço esse olhar. Dandara.
- Que olhar?
- Esse seu olhar sem brilho... que você faz quando tem um plano péssimo. E eu ouso segui-lo... dá última vez, fiquei um mês de suspensão.
- Mas pegamos o ladrão, não pegamos? - Lucas tinha acabado de ser transmitido de Brasília. Ele era um ótimo policial de perícia e sabia que ele iria aceitar trabalhar ao seu lado, pois ele sempre aceitava.
- Qual é o plano desta vez? - Dandara deu uma risada, não esperava uma intuição tão firme por parte dele, e Lucas revirou os olhos provocando.
- Quero que vasculhe todas as câmeras de segurança do bairro. Por ser um bairro da alta sociedade, todas as casas possuem várias câmeras, assim como as ruas, enquanto isso eu farei o que faço de melhor. Irei investigar, minha intuição diz que isso não trata-se de um simples assassino. - Na verdade, ela tinha certeza.
- Um serial killer? - indagou Lucas .
- Possívelmente. E se precisar conversar mais a respeito comigo, me liga. Mas nenhuma palavra sobre isso na delegacia, entendido?
- Claro, chefe - brincou Lucas - Lucas sentia-se mal em seu âmago.
- Então vamos ao trabalho....
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Crimes Indistintos
Misterio / SuspensoPolicial Dandara uma mulher trans, negra, de 25 anos, atualmente ela é uma policial, igual seu falecido avô. Finalmente consegue um caso bom e misterioso para poder investigar, depois de um tempo recebendo caso simples de ser resolvido, mal sabia el...