O Jantar

10 1 0
                                    


Eu tinha acabado de chegar em casa. O dia no escritório tinha sido muito corrido, muitos atendimentos e prazos quase esgotando. Passei o dia pensando no final de semana para descansar e finalmente tinha chego em casa.
Coloquei meu celular para carregar, pois tinha acabado a bateria em algum momento do dia e só fui sentir falta quando tentei conectar a música no som do carro no caminho para casa.
Fui direto pro banheiro, liguei as luzes terapêuticas que eram nas cores do por do sol e tomei uma ducha bem quente. Meu deus como estava precisando disso.
Quando desliguei o chuveiro, escutei o meu celular tocar na sala. Me enrolei na toalha e sai correndo.
Tinha duas chamadas perdidas dele.
Meu coração gelou. A última vez não eram notícias boas. Não pensei duas vezes e retornei a ligação.
No terceiro toque ele atendeu.
- Jade! Oi, como você está? - ele estava com uma voz alegre e tinha muito barulho de trânsito ao redor.
- João, você está bem? O que aconteceu? - meu tom de voz estava ofegante
- Calma, estou bem ...
- Ah graças a deus - disse aliviada. Andei em direção ao quarto
- Não se preocupe comigo. Eu enchi seu celular com chamadas perdidas, mas eu estava tentando falar com você sobre algo importante
- Desculpa, passei o dia no escritório cheia de pendências, meu celular descarregou ... enfim, o que você queria me dizer mesmo? - coloquei o celular no viva voz enquanto procurava algum pijama para vestir.
- Acho que você não vai gostar disso, estou vendo que esteve ocupada o dia todo. Que tal a gente se encontrar hoje? Estou chegando na cidade, tenho algumas coisas para resolver por aqui.
- Hoje? - perguntei com a voz arrastada. tudo que eu queria era deitar na minha cama, colocar uma comédia romântica no netflix e comer sushi. mas lembrei dos acontecimentos anteriores e isso pesou muito na minha consciência. - Claro, podemos. Onde quer ir?
- Então, sei que deve está cansada, prometo ser rápido. Eu escolhi uma restaurante. Te mando a localização por mensagem.
- Podemos marcar as 20h?
- Perfeito.
- Até lá então. Dirija com cuidado.
- Até. Beijo

Meu deus eu passei meses evitando e acabei de aceitar um pedido para ir jantar com ele. Depois daquele episódio, eu estava certa que ia me afastar de vez. Tenho certeza que ele algo importante para dizer, vou tentar encerrar esse capítulo da minha vida hoje. Quero tirar esse peso das minhas costas. Afinal, eu não tenho mais espaço na vida dele. Pelo menos não o que eu gostaria.
.
.
.
Cheguei no restaurante que ele tinha me mandado o endereço. Era um restaurante italiano, tinha música ao vivo e era bastante aconchegante.
Dei uma olhada rápida pelas mesas procurando por ele. O restaurante estava bem cheio. Ele estava sentado em uma mesa no canto do restaurante que tinha vista para o lago que ficava logo atrás.
Me aproximei da mesa. Ele não estava sozinho. Diminui a velocidade dos passos. Claro, como fui burra de pensar que ele vinha sozinho. Meu deus que arrependimento. Podia ter ficado em casa, era só eu ter dado qualquer desculpa.
- Oi. - disse com a voz baixa e confusa ao lado da mesa.
Eles se levantaram. João estava usando jeans com uma camisa social e um blazer azul marinho. Ele estava usando o mesmo perfume. Minha mente usa esse cheiro pra me confundir de vez em quando. As vezes estou no mercado e sinto cheiro dele. Olho para trás procurando por ele, mas lembro que está a quilômetros de distância.
Ela levantou-se também e eu a cumprimentei com um abraço. Mulher impecável.
- Oi fulana, como você está? - ela perguntou com um sorriso no rosto.
- Estou bem e você? Foi tudo bem na vinda para cá? - estava segurando um dos braços dela. nunca estive tão desconfortável, mas fiz de tudo para não transparecer.
- Sim, tudo ocorreu bem. - Ele colocou as mãos na minha cintura, me abraçou rápido e indicou meu lugar.
Ele parecia nervoso. Nunca tinha visto essa expressão no seu rosto. Rolou um silêncio de 10 segundos, então decidi quebrá-lo
- Esse restaurante é lindo! Não o conhecia. - disse olhando ao redor.
- é fantástico! Uma amiga me recomendou, disse que tinha que provar a especialidade do chef. - fulana estava com muito bom humor. ela sempre está animada com qualquer coisa.
- Então, já sei o que vou pedir. - dei uma risada que espero que não tenha saído tão forçada.
- Você vai amar eu tenho certeza.
Olhei para joão e ele estava fitando o menu.
Suas mãos estava sobre seus joelhos. Estava esfregando sobre a calça. Alguma coisa aconteceu. Algo importante.
- Eu vi nas suas redes que você foi promovida no escritório. Meus parabéns. Fiquei muito feliz com a notícia. Vocês advogados parecem trabalhar muito. É muito bom ser reconhecido no trabalho.
- É sim. Muito obrigada. Eu ainda estou me acostumando com a vida corrida, mas já estou pegando o jeito.
João levantou a mão e chamou o garçom que logo se apresentou.
- Boa noite. Você pode trazer uma garrafa do seu melhor vinho? - João pediu com a voz calma para o garçom. Ele ainda estava desviando o olhar.
- aliás já queremos fazer o nosso pedido. Pode trazer a especialidade do chef para todos. Espero que seja tão bom como a fama diz ser. - Fulana brincou com o garçom e eu dei outra risada nervosa
- O garçom anotou nossos pedidos e se retirou.
- Passamos 30 minutos escutando fulana falar sobre outros restaurantes que foi e que gostaria de conhecer. Ela era fã de culinária e sempre acompanhava críticas de chefs mais renomados.
é uma garota interessante, educada e bonita. Ela só parece sempre que bebeu 5 latas de energéticos e eu sou aquele tipo de pessoa que demora 2horas para raciocinar depois de acordar.
O garçom nos serviu. Ela me perguntou sobre minha rotina, sobre o que eu fazia, como eu penteava meu cabelo e outras mil perguntas. João sorria as vezes, concordava com poucas palavras, mas permaneceu quieto ao longo do jantar.
Estranho, na ligação ele não aparentava estar assim.
Eram quase 22h quando fulano pediu a segunda garrafa de vinho e a interrompi
- Olha, eu estou dirigindo, então não pretendo beber mais. Desculpe. - disse antes que o garçom anotasse o pedido.
- Pode trazer uma garrafa do vinho e água para as meninas, por gentileza. - João disse com uma voz serena. O garçom assentiu.
- obrigada. - sorri agradecendo.
- Bem, vejo que está cansada. Não pretendo prolongar mais a noite. Te chamamos aqui, por ser minha amiga de longa data e nos acompanhou no nosso momento mais difícil - ele estava se referindo aquele episódio. Fulana apertou sua mão sobre a mesa, foi então que percebi o anel.
- Vocês vão se casar. - afirmei antes que ele continuasse
- Sim. - ele olhou para fulana que estava com o sorriso de orelha a orelha. ele sorriu e passou o braço sobre os ombros dela.
- Não é lindo? - ela aproximou a mão para que eu pudesse ver. O que não era necessário. O anel brilhava mais que o clareamento dentário da fulana.
- Meu deus... - eu não sabia como reagir. Só queria ir embora o mais rápido possível. - Sim, é perfeito. Você escolheu muito bem, João! Combinou muito com você. E-Eu não estava esperando por isso, desculpa. - gaguejei - Estou muito feliz por vocês!
- Então, não é só isso. Fulana recebeu uma oferta de trabalho na Espanha -
Já sabia o que estava por vir. A respiração de Joao pesou quando viu minha expressão estampa no rosto. Eu estava tentando ao máximo parecer neutra naquela situação. - Sempre foi nosso sonho morar fora do país e aconteceu tudo tão rápido...
Minha visão começou ficar embaçada, então encarei fulana e forcei o melhor sorriso que pude.
- Meus parabéns, fulana. Não imagino o quão realizada esta se sentindo. - ela sorriu de volta e beijou as costas da mao do joão. - quando vocês vão? - fiquei o olhar apenas em fulana.
- Então, eu tenho que ir antes por conta da empresa, vou daqui uma semana.
- Uau! Foi tão rápido assim? - estava surpresa, com certeza estavam me escondendo algo
- Na verdade sabemos já faz um tempinho - a voz de joão saiu fraca e baixa.
Aí está. Bebi o resto do vinho que estava na minha taça em um gole. Tomei a liberdade de pegar a garrafa que o garçom tinha deixado ao lado e servir-me mais um taça.
Ergui a taça e deixei escapar uma risada nervosa quase debochada.
- Aos noivos! - encarei os olhos de joão que estavam inexpressivos. fulana rapidamente pegou sua taça e brindou comigo.
Foram mais 15 minutos torturantes em que Fulana falou sem parar sobre seus planos na Espanha. Ela mostrou fotos do apartamento que estavam pensando em alugar. Um duplex em Barcelona com uma bela vista. Perfeito. Depois, sobre seus medos de não se adaptar ao novo país. Sobre como estava sendo difícil organizar o casamento com essa mudança na vida deles. Eles decidiram casar-se em alguns meses após irem pra Espanha, mas o casamento seria aqui no brasil por causa da família. Ótimo, amo festas. Passei o resto do jantar tentando não olhar para o João, mas senti seu olhar em mim o tempo todo.
Enfim tive coragem de olhá-lo, ele estava com o braço sob o ombro de fulana acariciando-a. Esteve calado esse tempo todo apenas ouvindo Fulana me contar sobre os planos e as vezes soltava uns múrmuros para concordar com algo.
Preciso sair daqui. Não sei quanto tempo a mais eu consigo.
- Queridos, estou muito feliz por vocês, mas realmente preciso ir. - fulana soltou um suspiro de lamentação e João endireitou a postura na cadeira - hoje o dia foi muito agitado no escritório. Estou um caco.
Fulana não insistiu para que eu ficasse, disse que entendia meu cansaço. Chamei o garçom para pagar minha parte, mas João insistiu que ele pagasse. Eu não relutei, só queria dar o fora.
- Vou deixar vocês aproveitarem o resto da noite. - abracei Fulana e a parabenizei mais uma vez.
- Eu posso te acompanhar até o estacionamento? - joão perguntou de súbito.
- Não, jamais. Não precisa se incomodar. - já estava me afastando da mesa e ele se levantou.
- Eu vou ao banheiro, passei o jantar todo falando e minha bexiga está explodindo. Vá com ela enquanto isso. - Ela se levantou as pressas e se afastou de nós acenando para mim.
Respirei fundo e caminhei até o estacionamento. João ficou uns 5 passos atrás de mim até chegarmos ao meu carro. Eu abri o carro e me virei para ele. Seus olhos buscaram ao meu.
- O que foi? - perguntei
- Nada, é que acho que foi muita informação pra você em uma noite só.
- soltei uma breve risada
- Com certeza foi, mas não se preocupe comigo. Fico feliz por vocês. - menti
- Jade, eu...
- Olha, eu realmente estou muito cansada, podemos nos falar outro dia? Fulana já deve estar te esperando - entrei no carro em um pulo e fechei a porta. Abri o vidro e ofereci um sorriso singelo a ele.
- Até mais, João. - seu olhar o entregava, ele não conseguiu se despedir. Então, sai com o carro do estacionamento rumo a minha casa.
Olhei pelo retrovisor. ele ficou no mesmo lugar com a cabeça baixa e com as duas mãos em seu pescoço.
O que ele tinha na cabeça quando decidiu fazer isso? Puta merda

Coragem para amarOnde histórias criam vida. Descubra agora