Ana Luísa — Escola estadual, 2009
Eu tentava manter meus olhos abertos enquanto o professor Vicente explicava física às 9:00h da manhã, seja lá o que eu fiz no passado, eu não mereço passar por isso. Olhei pro lado e vi Fernanda mexendo no celular descaradamente, se eu ousasse fazer isso na aula dele, era capaz que eu fosse expulsa.
Peguei um pedaço de papel e escrevi para Fernanda.
“Hoje é seu dia de pagar o picolé, sem cobrança, só lembrando.”
Joguei em sua direção e ela me olhou antes de ler. Revirou os olhos e me deu o dedo do meio. O sinal tocou e engatamos uma conversa aleatória e saímos pelo colégio, Fernanda comprou nossos picolés e sentamos na nossa mesa de sempre, no pátio.
— O que você achou da última temporada da série?- Fernanda perguntou enquanto olhava os alunos.
— Fraca, esperava bem mais.
— Eu gostei, não vou mentir. Foi a realidade no fim, sabe. Se eles estivessem ficado juntos teria sido muito forçado.- fiquei pensativa e Mariana passou na nossa frente, na mesma hora minha amiga Fernanda foi teletransportada para outra dimensão.— Volta aí, garota.- estralei os dedos próximo ao rosto dela, que me ignorou e voltou a tomar seu picolé quase derretido.
— Ela é muito linda, Lulu. Eu ando conversando com ela ultimamente, acho que vai rolar, hein. De hoje não passa.- olhei pra Mariana que estava sentada em cima da mesa da cantina enquanto ria com as amigas.
Fernanda era o tipo de menina que gostava somente de outras meninas, isso sempre foi nítido para mim, para os outros e para ela também. Lembro do dia que conheci Fernanda, tínhamos oito anos e vi quando o carro do pai de Fernanda estacionou na casa ao lado da minha, em seguida o caminhão da mudança parou atrás.
Aquela menina magrinha, de pele morena e cachinhos lindos e olhos escuros segurando um lençol pequeno, eles vierem de carro do Rio de Janeiro para cá, passaram dias na estrada.
Dias depois, Fernanda começou a brincar com as crianças da rua, incluindo eu, numa certa noite um menino brigou comigo e me empurrou, eu caí de bunda no chão. Lembro dos gritos esganiçados de Fernanda, totalmente revoltada e com toda coragem que tinha, tentou revidar. Depois daquele ocorrido, ficamos inseparáveis.
E de Luísa, eu virei Lulu para ela, para mim ela se tornou a Fefe. A menina mais corajosa que eu conhecia, mas eu sabia que de baixo daquela coragem, tinha uma garotinha sensível e emocional. Eu sabia da sua paixão platônica por Mariana, eu torcia muito por sua felicidade, só tinha medo dela se machucar.
Fernanda passou a aula distraída no celular, quando fomos liberadas eu me surpreendi ao ver Mariana chamá-la.
— Lulu, me espera um pouquinho? É rápido, prometo.- ela nem esperou minha resposta, só correu ao encontro de Mariana e eu segui pro portão de saída, esperei um pouco e minutos depois elas apareceram. Fernanda estava diferente.
— O que eu perdi?- ela riu, enquanto parecia flutuar pela calçada.
— Eu falei que eu ia pegar, não falei?- arregalei os olhos, desde o primeiro dia do ano letivo quando a novata chegou, Fernanda era babando nela.
— Como assim? Vocês ficaram mesmo?- Fernanda sorria enquanto segurava as alças de sua mochila, o olhar bobo estampado na cara.
— Que beijo, Luísa. Queria morar naquele banheiro.- senti um formigamento no meio do peito e sorri pra ela, mas tive a impressão que saiu forçado, meu rosto parece que esticou a força pra dar aquele sorriso.
— Que bom, né. Fico feliz por você, Fefe.
— Seria loucura pedir ela em namoro já?- arregalei os olhos.
— Fernanda, vocês acabaram de ficar. Não faz uma hora.- ela riu e chegamos em casa, ela me abraçou apertado e eu fiquei olhando ela entrar em casa.
Minha mãe servia o almoço e eu parti pro banho, voltar da escola com o sol rachando a cuca, suada e fedendo, era foda. Durante o meu banho, parei para refletir a situação de Fernanda, somente um beijo era o suficiente para namorar de cara? O que será que Mariana fez pra Fernanda ficar assim? Eu nunca sei o que fazer com as mãos...
— Meu pai chegou?- sentei com minha mãe para almoçarmos.
— Ele não pôde vim hoje, vai chegar de uma vez. Como foi no colégio?
— Normal, mesma coisa.
— E aquele menino? Como é o nome dele... Luiz. Você é apaixonadinha por ele, né.- eu e o Luiz brincávamos bastante quando crianças, estudamos juntos mas não somos tão próximos mais. Minha mãe jura que eu sou apaixonada por ele, ela só não sabe que ele é gay.
— Mãe, não começa.
— Não precisa ter vergonha, boba. Eu na sua idade já tinha vários namoradinhos, você precisa aproveitar a vida, Ana Luísa.
— Mãe, eu não quero falar sobre isso.
— Ana Luísa, você já fez sexo, minha filha?- arregalei os olhos e o gole que dei no meu suco desceu rasgando minha garganta, tossi descontrolada e meus olhos lacrimejaram com o engasgo, minha mãe deu tapinhas nas minhas costas.
— Mãe! Você não precisa saber disso.
— É claro que eu preciso, Ana Luísa. Eu não posso ser avó, ainda sou muito jovem e você só tem 16 anos. Minha filha, você sabe que precisa usar camisinha, né? Exija a camisinha.- fechei meus olhos com força, eu queria sumir.— Me conta quando acontecer que eu te levo na minha ginecologista, ela é ótima.- levantou e deu um beijinho na minha testa. Ajudei ela a organizar a cozinha e fui para meu quarto.
"É oficial, eu estou apaixonada S2"
Um único beijo...
"Amanhã temos uma missão, Lulu. Você vai me ajudar a fazer a surpresa de pedido de namoro."
Puta que pariu. Um beijo, cara.
"Tá, Fernanda. Semana que vem é a surpresa de pedido de casamento?"
"Como você é exagerada, Luísa."
Ah, claro. Eu sou.Enquanto eu resolvia uns exercícios da escola, meu celular vibrava com as mensagens de Fernanda sobre ursos, chocolates, flores, cartões e etc.
Eu não entendo muito sobre o amor, mas se ele é tão bonito e forte o quanto falam, se ele é puro e sincero, eu não acho que deveria ser algo tão rápido. Sabe, deve ser analisado antes, ter calma e conhecer a pessoa que, provavelmente, seja o amor da sua vida. Pois, se essa pessoa não for, você apenas atrasou o encontro do seu verdadeiro amor.
Eu nunca vi a minha amiga assim por ninguém, então, eu realmente espero que eu esteja errada e ela esteja certa. Ver ela chorar, é doloroso e desesperador pra mim, ela não é de chorar na frente de ninguém, então, quando ela chora comigo é por que algo realmente a magoou.
E eu tenho medo que magoem a Fernanda, ela é boa demais pra ser machucada e eu sei que pessoas como ela são as que mais se machucam.
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Ligadas por um fio
FanfictionO significado de amor na forma adaptada, se fosse um cheiro seria um café recém passado, a grama molhada pela chuva, cheiro de alho e cebola refogados. Se fosse um gosto, seria chocolate quente em um dia frio, seria o bolo de fubá da vovó, seria...