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Antes de cair, a única lembrança que veio na mente do homem era a de um enorme vulto negro, carregando uma espada que refletia a luz do luar avançando em direção. Após isso, nada além da escuridão.

Em seguida, quando voltou a abrir seus olhos sabe-se lá quanto tempo depois da última imagem que estava em sua cabeça, sentiu o amargo gosto de uma erva medicinal descer por sua garganta, fazendo-o abrir seus olhos rapidamente, assustado. Estava deitado numa pequena cama improvisada, pois via que a palha do colchão não havia sido amarrada de forma correta, fazendo com que diferentes partes de seu corpo coçassem.

Estudou o local com olhos e, por uma pequena fração de segundos, imaginou estar em um quarto de algum nobre, pois o ambiente era bem decorado e feito da mais pura madeira existente naquele mundo. Os objetos que conseguiu encontrar com sua visão - ainda meio embaçada - pareciam ser de grande valor, contudo o local não estava organizado. Papéis e penas jogadas em um lado, enquanto a tinta parecia estar encaixotada em pequenas caixas de madeira e sob estas, um alaúde vermelho decorado com uma coloração tão dourada que parecia ser de verdade.

Então, conforme os seus sentidos voltavam, o homem ouviu vozes vindo do lado de fora e notou finalmente que não estava em um quarto e sim em uma carroça, pois junto com as vozes, também ouvia cascos golpearem o chão de terra batida rapidamente.

Agora, com todos os seus sentidos de volta ao corpo, levou a mão esquerda até sua testa e sentiu uma forte dor vinda do local e também compreendeu a gravidade do problema: apesar de já estar respirando, enxergando e ouvindo com clareza, as lembranças do que acontecera na sua vida antes de abrir os olhos desaparecem completamente.

Qual era o seu nome? De onde vinha? Por que estava ali? Eram perguntas que não saberia responder, mas talvez as pessoas que estavam do lado de fora saberiam responder-lhe. Contudo, no exato momento em que seu pé saiu da cama onde estava, o veículo que o transportava passou em cima de um pequeno buraco e aquela irregularidade no terreno, junto com o fato dele não estar preparado, jogou o rapaz no chão fazendo com que o encontro de seu corpo ao solo de madeira fizesse as duas pessoas que conversavam animadamente lá fora silenciarem-se de imediato.

- Acho que ele acordou. - Disse a primeira voz, aparentemente masculina. Era uma tonalidade musical e afinada, como se o seu dono fosse acostumado a passar horas e mais horas em frente a uma plateia se apresentando.

- Vá lá ver. - Respondeu a segunda. Dessa vez, não parecia ser tão gentil quanto a primeira. Era mais áspera e séria, como se o seu dono fosse um homem de poucas palavras e sim preparado para situações de perigo, onde falar não adiantaria nada.

Então, o silêncio perdurou no local por poucos segundos.

O homem dentro da carroça não soube dizer por quanto tempo ficou ali sentado, esperando alguém aparecer. Poderiam ter se passado apenas algumas poucas frações de segundos, mas a sua ansiedade por respostas fez aquele pouco tempo parecer longos minutos intermináveis. Seu coração palpitava conforme os cavalos andavam. Parecia uma criança ansiando por respostas, mas na verdade, ele era curioso. Será que aquelas pessoas desconhecidas saberiam dizer quem ou o que era aquele homem trajando vestes negras? E qual era o seu nome? As dúvidas pipocavam em sua mente e, quando ele viu o primeiro corpo adentrar aquele local, teve a esperança delas serem respondidas.

O homem, talvez o dono da voz mais afinada, aparentava ser belo. Era uma pessoa alta e de corpo frágil. Não era possível enxergar músculos em seus braços, mas o que mais chamava a atenção era seu rosto: a pele branca caia perfeitamente com seus olhos esverdeados, seus cabelos - bem penteados com algum óleo - eram de coloração castanha e sua barba rala dava uma beleza a mais naquele rosto triangular de lábios finos. A primeira vista, o desconhecido parecia ser uma pessoa gentil, pois era claro o sorriso estampado em suas feições animadas.

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