Prólogo

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Uma ilha em algum lugar da Itália: anos 2000

2h30 da madrugada


Ela abriu os olhos. No primeiro momento achou que estivesse acordando de um sonho ruim, mas aos poucos a veracidade dos fatos a confrontou. Não era um sonho, era a sua realidade sinistra e nefasta.

A claridade exagerada do ambiente incomodava a visão e o frio excessivo causava-lhe dores pelo corpo, seguido de uma sensação de vulnerabilidade e impotência.

Tentou levantar, mas desistiu quando o quarto todo começou a girar. Respirou com lentidão, inspirando, expirando e tentou novamente. Quando sentou na cama sentiu o corpo todo estremecendo, o abdômen chacoalhou como se os órgãos internos estivessem soltos e sem conseguir conter os espasmos lançou várias golfadas de um vômito escuro no chão do quarto. Tremendo incontrolavelmente e suando gelado, ela segurou o crânio com força porque a cabeça parecia que ia explodir.

Estava ali há tempo demais e todos os dias ao acordar se surpreendia por ainda estar viva, só não sabia até quando. Talvez nunca mais voltasse para casa e seu corpo fosse enterrado na areia em algum lugar naquela ilha.

O seu ser estava pedindo socorro, mas socorro para quem? Quem a ouviria? Quem a ajudaria?

Ali, o isolamento e a solidão estavam sempre presentes torturando-a, massacrando-a, flagelando seu psicológico. O tempo, inexorável, levava os seus dias e mostrava como a vida era efêmera. Aquela prisão mirrava suas expectativas, contudo, no sonho da liberdade encontrava esperança e conforto e quando o coração desiludido queria esmorecer vinham-lhe à mente os grandes libertadores, os revolucionários como Gandhi, Mandela, Jesus Cristo.

Talvez estivesse enlouquecendo. Tinha coisas que não lembrava. Os flashes surgiam e ela não conseguia organizar as imagens, as cenas e não sabia mais o que aconteceu ontem ou há um mês. Estava cada vez mais assustada, não aguentaria por muito tempo. Sentia-se fraca física e mentalmente, com a vida esvaindo-se, saindo dela.

Descobriu no cativeiro como amava a vida! Percebeu que a felicidade estava em coisas simples como seguir uma rotina qualquer: cumprimentar os vizinhos, andar de metrô, tomar sorvete. E não queria morrer naquele lugar, isolada de tudo e de todos.

Passou a fazer algo que há tempos não fazia: ajoelhar e conversar com o Criador. A sua vida inteira só ia à igreja no final do ano e nas procissões, sempre dispersa, olhando para os lados, apenas cumprindo um ritual. Mas ali, isolada naquela ilha, ela conversava com Deus pedindo-lhe que a ajudasse a sair viva daquele lugar. Só queria isso, sair viva.

Passos no corredor a deixaram em estado de alerta. Pegou alguma coisa na bandeja que estava sobre a mesinha de cabeceira e voltou a deitar fingindo que ainda estava desacordada. O homem alto e magro, com uma mancha de nascença acima da sobrancelha direita, abriu a porta e entrou usando roupas brancas impecáveis. Olhou para o amontoado de vômito no chão e sem nenhuma pressa se aproximou da cama.

Ao chegar mais perto, levantou o braço e fez menção de tocá-la, mas nesse exato momento ela injetou o liquido da seringa no pescoço dele. O homem ainda a segurou com força como se estivesse tentando estrangulá-la. Ambos se encararam com os olhos arregalados e aos poucos ele foi desabando por cima dela.

Ela empurrou o corpo do homem para o lado, saltou da cama e caiu. Seus músculos estavam enrijecidos, suas pernas e braços não lhe obedeciam. Arrastou-se por cima do vômito, passou pela porta do quarto que estava aberta e com muito esforço conseguiu firmar-se sobre os pés. Com passos cambaleantes caminhou descalça pelo longo corredor de paredes claras, pisando no chão liso como se andasse sobre gelo.

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