A MORTE ÀS VEZES É TÃO AZEDA,
Íris tem apenas nove anos, mas já tem que aprender a lidar com a morte. Sua mãe se foi desse mundo tão cedo, a garota até tenta entender o porquê daquilo acontecer, porém, ela continua sem entender. A pergunta que ela s...
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- Eliot você não vai acreditar! Eliot?
Íris chegou cedo hoje. A garota olha ao redor tentando encontrar o garoto, mas nada dele. Íris chega a pensar que ele não virá hoje. Porém, a pequena permanece ali no balanço, movendo ele para frente e para trás. Quando a pequenina escuta passos ela pensa ser Eliot, ela olha para trás e vê... seu pai. A garota murcha de tanta decepção. Íris está com saudade do amigo. Ela gostaria de saber o porquê de gostar tanto de Eliot. Gosta tanto, mais tanto que chega a pensar ser um amor. A pequena Íris está cumprindo seu destino, ela está apaixonada por Eliot. Tudo o que ela queria naquele momento era contar isso a ele, mas a pessoa que se senta no balanço ao lado não é ele, e sim seu pai.
- Por que mentiu para mim? - O pai de Íris pergunta baixinho tentando entender a pequena.
- Porque eu queria ver o Eliot.
- Eliot? Quem é Eliot?
Tudo o que Íris não queria era ter a tql conversa do primeiro amor com seu pai, mas se não for com o pai vai ser com quem? As poucas amizades que ela fez na escola não são seguras o suficiente para revelar algo tão íntimo e profundo, é assim que a pequena e inteligente Íris pensa. Por isso ela decide contar ao pai. Ela não quer mais mentir para ele. Desde o início Íris mentia dizendo que iria passar o restante da noite na casa da tia, no entanto, a pequena nunca colocou os pés na casa da senhora rabugenta, esse foi o apelido que Íris deu a ela.
- Eliot é o garoto que eu gosto.
O pai de Íris fica paralisado, apenas piscando os olhos muitas e muitas vezes. O homem está surpreso com a revelação da filha. "O garoto que ela gosta? Ela só tem nove anos. Como pode gostar assim de um garoto?" Esses pensamentos do pai da pequena Íris fez ele chegar a uma conclusão preocupante.
- Quantos anos esse garoto tem?
- Nove - Íris juntou as sobrancelhas ao ouvir o suspiro do pai.
Íris quer ser sincera com o pai, quer que ele saiba de tudo que está guardado em seu coração. Já o pai só está pensando no castigo que dará a ela por sua desobediência. Afinal, poderia ser um tarado que se aproveitou da fragilidade de uma criança, poderia acontecer inúmeras tragédias. Porém, não era nada disso, não mesmo. Oras, o que estou dizendo, você sabe disso, sabe que Eliot é apenas um garotinho amoroso, e solitário.
- Papai - Íris se vira para o pai que está olhando para ela com muita atenção - Por que não vai embora? Eliot deve não querer aparecer porque você está aqui.
- Íris não! E não vou mais te deixar sozinha. Você não vai mais sair nesse horário, é perigoso filha! Sabe quantas atrocidades podem acontecer com você?
Íris faz um biquinho fofo, mas compreende o pai. A vontade de ver Eliot não passou e nem vai passar tão cedo. A pequenina sabe que o pai tem razão.
- Eu queria ver ele só hoje. Porque eu encontrei uma pista papai.
- Pista? Que pista? Do que está falando pequena?
- É que o Eliot não se lembra dos nomes e nem das carinhas dos papais dele. Hoje eu descobri que o sobrenome dele é Jones, e que a mamãe dele está procurando por ele. Olha isso papai.
A pequena tira do bolso do casaco um papel amassado, conforme ela vai tentando deixar a folha menos amassada, Eliot se aproxima. O pai da menina está ansioso para ver a descoberta da pequena espiã. Porém, quando ele vê a foto estampada na folha branca sua curiosidade desaparece, e seu rosto se torna algo... triste.
- Tá vendo papai? - Ela ergue a folha apontando para a foto de Eliot - Está dizendo que ele está desaparecido, mas eu o encontrei. Eliot mora aqui nesse parque.
A pequena está tão animada com a descoberta, e Eliot atrás dela sente uma leve dor na cabeça. O pai da pequenina pega a folha das mãos da filha e morde o lábio inferior tentando pensar em como ele dirá o que deve ser dito.
- Minha pequena onde você encontrou isso?
- No lixo da nossa vizinha. Lá estava tão fedido, e parecia assombrado, mas eu criei coragem e entrei lá. Então eu vi dentro da lixeira da cozinha esse papel sujo. Mas olha papai eu lavei bem as mãos depois de pegar.
- Que bom que lavou, minha querida. Fez bem - O pai disse com tanta suavidade que até eu senti a brisa de seu hálito de menta - Eu preciso te contar uma coisa, Íris.
A pequena continua a encarar o pai, e Eliot encara os dois sentados no balanço. A dor na cabeça não o abandonou. Então é agora que o criador resolveu mostrar a verdade? Eu gosto dessa parte. Porém, dessa vez eu não sinto a confortável sensação de liberdade. O que eu sinto é apenas o desconforto por saber a dor que a pequena pode sentir.
- Meu amor. Esse menino está morto.
O sorriso no rosto de Íris vai desaparecendo aos poucos formando uma careta de confusão. A pequena passa a mão no cabelo tentando saber se aquilo é verdade ou não.
- Não papai, ele está vivo. Eu converso com ele todos os dias e...
- Não, princesa não. - O pai se ajeita no balanço pegando no braço da filha para ela ficar em pé em sua frente - Eliot era um garoto incrível, eu brincava com ele quando era criança. Ele era meu amigo, meu melhor amigo. Vivíamos brincando, principalmente nesse parque. Eliot amava esse parque, de verdade.
O riso fraco que o pai soltou não amenizou nem um pouco a angústia da filha, e muito menos de Eliot que está ouvindo os dois. Meu pequeno Eliot... se eu pudesse te proteger.
- Um dia combinamos de vir pra cá a noite, e eu não lembro o que aconteceu com nosso outro amigo só lembro que ele disse que não iria poder vir. Então restou apenas eu e Eliot. Eu tentei vir, tentei muito, mas...
O pai de Íris para de falar apenas para soltar um soluço doloroso. Tão doloroso que parece atingir algo dentro da filha. Íris não consegue controlar as lágrimas ao ver o pai daquela maneira, chorando feito criança.
- Minha mãe não deixou eu sair, tentei ir escondido e ela me pegou no flagra. Então Eliot ficou sozinho...
Minhas mãos alcançam os ombros de Eliot que olha para mim. Seus olhos ficam totalmente pretos, e então ele vê. Eliot vê a sua morte. Ele sente a sua morte. Ele sente a dor das pedradas que esmagavam seu crânio, ele sente o ódio da mulher que queria o sacrificar em nome de Satã, ele vê o rosto dela pintado de vermelho do seu sangue.
Meu pequeno e querido Eliot finalmente percebe o que ele realmente é. Sim Eliot, aceite. Esse foi o seu fim. O pequeno pega em minha mão e eu abro o meu sorriso mais lindo e cativante, Eliot está me aceitando. Esse momento é magnífico. Finalmente ele vai poder ter paz. Antes de passarmos para o outro lado da luz branca que surgiu à nossa frente, Eliot olhou para trás, para Íris.
- Não papai, não. Eliot não morreu. Eliot está vivo. Ele está aqui. Apareça Eliot, Apareça, por favor!
Ele quer ir, mas não pode. A querida Íris se ajoelha no chão ao ouvir seu pai dizer o quanto ele queria que Eliot estivesse vivo. O grito que a pequena solta, faz meu Palácio tremer. O tamanho da dor dela, não tem como medir. O vazio que permaneceu com ela, não será preenchido. Eu sinto muito pequena, mas essa é a vida.