Capítulo 6 - Bella doente.

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Meu celular começa a tocar em algum lugar distante, mas estou afundada em um sono pesado demais para conseguir atender. O som se apaga, deixo que o toque desapareça na noite.
Quando finalmente acordo, sinto um arrepio percorrer meu corpo. Estou completamente descoberta e o frio parece tomar conta de mim. Reviro as cobertas em busca das meias que perdi durante a noite, vestindo-as rapidamente, tentando recuperar algum calor.
A casa está silenciosa, mergulhada em uma calma inquietante que só o amanhecer pode trazer. Deduzo que seja bem cedo. Passo os dedos pelos cabelos emaranhados, aplicando um pouco de creme na tentativa de domá-los, mas minha mente está enevoada demais para realmente me importar com isso.
Vejo chamadas perdidas de Jake. Uma às duas da manhã e outra às quatro. Meu coração pesa um pouco mais. Ligo para ele, mas cai direto na caixa postal.
- Bom dia, Jake. Aconteceu alguma coisa? Acabei de ver que ligou. - deixo a mensagem e desço as escadas.
Meu pai está debruçado sobre a mesa, rodeado por papéis, a farda ainda desgastada pelo dia anterior. Ele nem se quer deve ir ido para cama, reflito sobre que horas que ele chegou em casa.
Começo a esquentar água para fazer café e aproveito para ligar o forno, tentando fazer menos barulho possível para não acordá-lo. Pego meu livro de receitas no meu quarto para preparar uma torta de maçã e canela, a mesma que fazia quando minha mãe não estava bem. Vejo que Jake já me respondeu: "Não consegui dormir. Estou trabalhando, depois falamos." A mensagem dizia.
Quando retorno à cozinha, meu pai esfrega o rosto nas mãos, como se tentasse afastar a preocupação e o cansaço acumulados.
O semblante do meu pai era a imagem viva da exaustão e do desespero. Seus olhos estavam fundos, cercados por olheiras escuras que contrastavam com a palidez de sua pele, como sombras que revelavam noites sem dormir.
- Bom dia. - ele murmura, com a voz rouca. - Acordou cedo. - seus gestos lentos para organizar os papéis eram agonizantes.
- Bom dia, e você foi dormir tarde. - retruco, tentando não parecer preocupada. Pego os ingredientes e começo a preparar a forma circular para assar a torta.
Alguns segundos de silêncio carregado se passaram, meu pai respirava pesado à mesa, e eu tentava transmitir tranquilidade, mesmo que não fosse condizente com o emaranhado de coisas que eu sentia agora.
- Recebemos um memorando de Seattle. Estão ocorrendo vários casos de desaparecimento, principalmente de jovens. - ele explica, o olhar distante. - Ainda está pensando em fazer faculdade lá?
- Sim. - respondo, sentindo um nó se formar em minha garganta. Não queria que quando eu fosse ele ou minha mãe se sentissem distantes ou preocupados com coisas incomuns acontecendo. Mas depois que viemos para Forks, e depois de todo o meu envolvimento com a alcateia e os sanguessugas, não tenho mais o direito de não querer que suas preocupações caiam sobre minha irmã e eu.
- Quer cursar jornalismo, você tinha falado. - era uma afirmação que soava como uma pergunta. Seus olhos me seguiam, implorando para que eu sanasse suas dúvidas.
- Isso mesmo. - respondi apenas. Se me alongasse no assunto, minhas lágrimas aprisionadas poderiam escapar involuntariamente.
- Não quer voltar para o Arizona, não é? - a pergunta soa mais como um pedido, uma esperança velada.
Virei-me em sua direção, finalmente fazendo contato visual, mexi a cabeça em negativa. Cada vez mais ficávamos próximos e eu finalmente estava o conhecendo de verdade, não sentia mais vontade de estar todos os dias com minha mãe e sua rotina agitada depois de conhecer a rotina de meu pai, que apesar de ter seus altos e baixos, nem se compara com as várias viagens cansativas e desconfortáveis que éramos obrigadas a fazer por conta do atual marido.
- Depende do andar da carruagem. - respondo mantendo a expectativa.
- Que bom que você é mais flexível que sua irmã. - ele tenta sorrir, mas seus olhos estão carregados de tristeza. - O que está preparando? - ele pergunta, tentando mudar de assunto, o que eu vejo como uma ótima ideia.
- Uma torta de maçã. - continuo besuntando a forma com manteiga e farinha, como sempre fiz.
Ele resmunga algo incompreensível.
- Estou gostando de ter uma cozinheira todos os dias. Cuidado, se não vou acabar me acostumando. - ele sorri, mas há uma melancolia no gesto. Talvez ele esteja considerando que não vou mais visitá-lo quando eu for para a faculdade.
- Tudo bem, não vou te deixar. Mesmo fazendo faculdade, vou vir cozinhar para você, pai. - Digo, forçando um sorriso, com o choro ainda entalado na garganta.
- Obrigado. - ele responde, a voz carregada de gratidão e algo mais profundo.
- Não se preocupe com isso. - reforço.
- Não me preocupo com você, mas com ela. - ele volta a atenção para a papelada, mas o peso de suas palavras fica no ar.
Concordo com a cabeça. Bella já foi mais responsável, mas algo parece quebrado dentro dela agora.
- Quer chamar o Billy e o Harry para virem experimentar minha torta? - tento desviar a conversa.
- Se estiver tudo bem para vocês. Acho que Billy quer trazer algo para a Bella. - diz, arrumando a postura na cadeira pequena demais para suas pernas.
- A tal sopa que levanta defunto. - tentei sorrir ao falar, mas não tive muito sucesso.
- Essa mesma. - meu pai concordou com um suspiro pesado.
Termino de misturar os ingredientes e coloco sobre a massa crocante já assada, colocando mais alguns minutos no forno. Coloco o restante das maçãs caramelizadas em um pote e algumas torradas em um prato, pego uma xícara de café e vou para o quarto da minha irmã.
O semblante de Bella era vazio. Seus olhos fundos contrastavam com a palidez de sua pele, que parecia ainda mais fina e frágil. O olhar vazio e distante, os lábios ressecados e rachados, as maçãs do rosto proeminentes e o cabelo emaranhado e sem vida refletiam noites sem dormir e dias sem comer, apesar dos meus cuidados. Mantinha os ombros curvados e as mãos tremiam ligeiramente, revelando seu nervosismo constante. Abraçava-se como se tentasse se proteger de um frio interno, e cada gesto parecia exigir um esforço monumental. Bella era a personificação da melancolia, perdida em um mar de preocupações e medo, carregando um peso ao qual não estava preparada em seus ombros frágeis.
- Bom dia, Bella. Vou deixar seu café da manhã aqui. - coloco tudo sobre a mesa de cabeceira. - Vão vir algumas pessoas aqui hoje, então quando puder tome um banho e troque de roupa. - Faço uma pausa, analisando seu rosto, mas ela parece perdida em um mundo de dor. - Eles querem ver você, Bella. Querem ver se você melhorou. Estão todos preocupados.
Ela permanece paralisada, quieta.
- Se precisar de ajuda estarei lá embaixo. - digo, fechando a porta com um peso no coração. Meu pai me olha com expectativa quando apareço na cozinha, mas nem preciso dizer nada.
Pego um livro da pilha ao lado da televisão e começo a ler Edgar Allan Poe, imergindo nas palavras sombrias enquanto termino de cozinhar.
No final da tarde, Billy, Harry, Seth e Jacob vêm aqui em casa. Bella não desce, e dizemos a eles que ela está dormindo, mesmo que todos saibam que não é por esse motivo.
Comemos a torta que fiz enquanto Harry contava histórias de quando caçavam no mato. Comentam sobre os desaparecimentos em Seattle, mas não há novas informações.
Seth fica me seguindo de um lado para o outro, até a hora que preparo um jantar rápido, um macarrão com carne e queijo que comemos. Ele fica perguntando se pode me ajudar, mas não se contenta quando peço para ele sentar e esperar.
Harry e Billy vão embora antes de anoitecer, deixando os rapazes comigo. Meu pai diz que vai passar na delegacia e depois se encontrar com um colega, voltando tarde.
Nos deitamos no sofá e assistimos a clipes de músicas na MTV. Passam vários do Green Day, e percebo que Seth nunca os tinha ouvido. Agora toca "She".
Começo a pensar sobre aquele lobo que vi. Não era ninguém que eu conhecia, mas parecia tão familiar. O jeito como ele me olhava era tão acolhedor. Por um momento, parecia que só nós dois existíamos.
O que seria esse sentimento tão forte que tenho com os lobos? Poderia ser alguma descendência? Assim como meus cabelos ruivos, que não apareceram em mais ninguém nas últimas gerações? Talvez fosse por esse motivo que sou tão próxima dos Quileutes, todos na reserva me recebem tão bem e sinto como se fossem o meu lar.
Sinto Jake fazer carinho nas minhas pernas, que estão sobre as dele. Ele desliza os dedos pela minha pele, causando leves arrepios. Olho para ele, que está concentrado na televisão, e admiro seu rosto, seus olhos, seu sorriso, que nunca desaparece. Observo seus cabelos compridos presos em um coque bagunçado. Sinto vontade de dizer que o amo.
Jake é meu segundo namorado. O primeiro foi Victor, já faz um ano que terminamos. Ele mora em Phoenix. Foi bom por um tempo, mas, como minha irmã disse, aquela fruta apodreceu com o tempo. Não ficamos muito tempo juntos, mas foi o suficiente para ele mudar de um cara fofo para um doente que me importunava.
Jacob é bem diferente dele, e isso me agrada bastante. Victor era filho de um amigo de meu padrasto, ou seja, o pai dele é jogador de beisebol. Eles têm uma condição de vida melhor do que a nossa, então é um cenário muito diferente. Ele é mais velho que eu também, e, assim como a grande maioria que conheço, quer se mudar para Seattle para fazer faculdade. Acredito que, se ele passar, no final desse ano ele já deve estar de mudança. Victor foi uma boa primeira experiência, colocou na minha cabeça do jeito mais prático o que aceito e não aceito em um relacionamento.
Jacob é ótimo para mim. Não somos apenas namorados, mas também somos amigos. Ele é a pessoa que quero por perto sempre. É ele quem mais me faz sorrir e sentir o que é esse amor que temos.
Agora toca "Harley-Davidson" de Brigitte Bardot, e isso me lembra que quero uma moto, e ninguém melhor para conseguir uma para mim do que Jake.
- Do que você precisa para fazer uma moto para mim? - pergunto, e ele riu incrédulo antes de responder.
- Por que quer uma moto? - agora um sorriso travesso assumiu sua face.
- Me responda você. Por qual motivo você tem motos? - retruco, e seu sorriso se alarga. Seth deixa de prestar atenção na TV para assistir à nossa conversa.
- Bom, é mais barata que um carro, mais rápida, prática, dependendo do modelo, mais bonita. São muitas as vantagens.
- Então essa é a minha resposta. - concluo, e ele ri.
- Legal. - Ele faz uma pausa, agora realmente pensando sobre o que vai precisar para fazer uma moto para mim. - Quer que eu faça ou quer que eu te ensine?
- Pode me ensinar? - questiono.
- Posso, só preciso que você consiga alguma sucata. Depois veremos se vamos precisar comprar algo ou se vou ter na minha oficina.
- Ótimo, quando começamos?
Jake pensa por um segundo.
- Amanhã, tente ir todo dia depois da aula.
- Eu também quero! - Seth grita, colocando-se sentado no sofá. Jacob ri alto.
- Seu pai não vai te deixar dirigir uma moto.
- Não, mas posso ajudar a montar uma.
- Não sei, não, Seth. Acho que isso vai atrapalhar seus estudos. - Jacob argumenta, soando como o pai dele.
- Mas e os estudos de vocês... - o menino tenta argumentar.
- Converse com Harry primeiro, depois conversamos. - Isso foi o fim. O garoto se calou e voltou a se deitar no sofá pequeno de dois lugares.

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⏰ Última atualização: Apr 15, 2025 ⏰

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