03. DESENCONTROS

47 7 0
                                    


No dia seguinte, Luna ainda sentia como se estivesse carregando dois pesos na cabeça. Um que poderia nomear como sendo o próprio orgulho, o qual a fazia hesitar em dar ouvidos ao clamor de Rafael, e outro que dizia respeito à memória afetiva daquela amizade que era tão antiga quanto a própria existência da garota.

Por terem se conhecido muito novos, ela não conseguia se lembrar de si mesma, sem lembrar de Rafael junto. Portanto, era óbvio que acabaria o ouvindo mais cedo ou mais tarde. Porém, ainda assim, Luna acabou fugindo dele pelo segundo intervalo seguido, dessa vez sob o pretexto de encontrar Jonathan para devolver a jaqueta.

No dia anterior, depois de superado o sentimento misto referente à mensagem de Rafa, Luna tentou contato com Jonathan para saber como poderia devolver a jaqueta para o dono, mas o rapaz não tinha sequer visualizado a mensagem. Então ela levou a roupa para o colégio e, assim que notou Jonathan em sala de aula, dividiu-se entre ir até ele na frente de todos, esperar pelo intervalo ou falar com Maressa para que a amiga fizesse a devolução em seu lugar.

Contudo, a timidez de Luna a impediu de abordá-lo em sala de aula e, apesar de a garota ainda não ter conseguido se reunir com os amigos para falarem sobre o baile, ela tinha pescado pedaços de comentários que tinham lhe feito acreditar que Maressa não estava nada contente com Jonathan. Logo, só lhe restou a opção de procurá-lo no intervalo e, felizmente, Jonathan era previsível o suficiente para que ela o encontrasse no lugar de sempre.

Ele estava no telhado do colégio, sentado no chão como se o lugar não fosse completamente imundo e com as costas apoiadas na parede do parapeito. As pernas dele estavam encolhidas e ele observava um avião de papel com todo o interesse do mundo, tendo nos ouvidos seus característicos fones de ouvido da cor laranja.

Mesmo de longe, ele parecia um retrato triste.

E, a cada passo hesitante que deu, Luna teve certeza de que não o estava abordando em um bom momento. Porém, quando fez menção de dar meia volta, o olhar do rapaz a encontrou e ele imediatamente se empertigou, arrumando a postura e substituindo as feições tristes pela carranca irritada de sempre enquanto fungava, tentando disfarçar que estava chorando.

"O que você quer aqui?".

Por um instante, Luna não soube o que dizer. Embora a resposta fosse óbvia, ela não encontrou palavras dentro de si que não correspondessem às dúvidas do porquê Jonathan estava naquele estado, então apenas mostrou a jaqueta.

"Eu esqueci de te devolver".

Jonathan apenas a encarou em silêncio e, apesar de tudo no garoto representar um aviso de perigo, Luna ignorou e caminhou até o lado dele, impulsionando-se para sentar no parapeito, porque, por mais curiosa que estivesse, ela jamais sentaria naquele chão.

"Acho que vou ter que procurar um novo lugar para ficar sozinho", o rapaz concluiu em voz alta, levantando-se com a carranca ainda mais acentuada somente para estender a mão para Luna.

Ela entendeu o recado e lhe passou a jaqueta.

"Eu não pretendia te atrapalhar. Só sentei aqui porque não estou muito a fim de encontrar as pessoas lá embaixo".

"Por causa do seu drama adolescente com o mauricinho e aquele outro?" Jonathan desdenhou.

E Luna se sentiu ridícula pela forma como ele falou, o que trouxe cor a seu rosto.

"Não é um drama ridículo...".

"Então o que é?" Da água para o vinho, Jonathan se fortaleceu naquele deboche e escancarou um sorriso que em nada lembrava da imagem patética que ele representava quando a garota chegou. "Porque, para mim, você parece uma protagonista estúpida que não sabe com quem ficar e transforma isso em um grande dilema...".

CRUSH II - Em Busca da Fórmula do AmorOnde histórias criam vida. Descubra agora