Momentos antes de Abyssal Voyager ter de fato alcançado sua implosão.
O Abyssal Voyager agonizava. A sombra oceânica, espessa e impenetrável, envolvia-lhe as entranhas metálicas como mortalha de ferro e sal. Apenas os lampejos caducos do painel e o pulsar trêmulo do sistema de emergência ousavam interromper a treva — luzes que piscavam como olhos moribundos, fitando a agonia iminente.
No coração da sala de comando, a doutora Lena Halberg arquejava. Seus pulmões, já envenenados pela rarefação do ar, buscavam desesperados um sopro que não existia. Estava só. Sós, restavam-lhe o ranger metálico da estrutura em colapso e o próprio pensamento, dilacerado entre a lucidez e o delírio. Seus companheiros — Adams, Marta, Thomas — haviam se extinguido, uns tragados pela loucura, outros pelo mar, todos pela presença invisível que os espreitava: o Abyssodon, aquele cujo nome era apenas uma sombra débil diante de sua imensidade.
A implosão não viera de súbito. Fora um prelúdio lento, um crescendo fúnebre. A cada tremor, a cada vibração que serpenteava pelas vigas, soava como toque de sinos de bronze em uma igreja deserta. E, antes que o colapso final se abatesse, Lena sentira algo — um ímpeto estranho, como se mãos incorpóreas a empurrassem ao centro da sala de comando. Como se o próprio horror exigisse testemunha.
Ali, diante das telas que já não refletiam senão distorções, ela compreendeu o destino. O mar não a esmagava sozinho; era o olhar invisível do monstro, sua vontade curvando as águas como o vento dobra a chama. A pressão era da profundeza — e da psique.
Sabia que devia registrar. Não por esperança de salvação, mas por aquela estranha compulsão que impele o condenado a gritar antes de ser tragado pelo nada. Com dedos que tremiam como cadáveres convulsos, iniciou sua gravação.
— “Aqui fala... a doutora Lena Halberg, última voz do Abyssal Voyager. Se estas palavras alcançarem a superfície, lembrem-se: fomos longe demais. O que jaz sob o Pacífico não é criatura, mas conceito. Não é carne, mas essência. Chamamo-lo de Abyssodon. É forma e desforma. É o que antecede o pensamento, e o que resta após a ruína.”
Ela cessou, pois o som retornara.
O som.
O pulsar titânico, grave, rítmico, como coração de leviatã, ecoava nas paredes. Não era ruído do mar, mas hino. Um eco de eternidades, reverberando desde eras em que a Terra era apenas sombra.
— “O som... sempre o som...” — murmurou, os lábios entreabertos em febre. — “Pensamos tratar-se de anomalia. Mas é anúncio. É reflexo. É a lembrança de que não somos os primeiros... e não seremos os últimos. Ele permanecerá, quando nada mais houver.”
As luzes vacilaram. O ar rarefeito mordia-lhe os pulmões. Ainda assim, concluiu:
— “Se ouvirem... detenham-se. Não desçam mais. O oceano é fronteira. É portão. Não devemos forçá-lo. Pois ao outro lado... há apenas o que não pode ser suportado. E já está desperto. Já nos observa.”
A cápsula de dados repousava ao seu alcance. Pesava como sentença. Lena a selou, sabendo que, naquele frágil invólucro, repousava mais que advertência — repousava o fardo do saber proibido.
— “Adeus...”
Com gesto exaurido, acionou a liberação. A cápsula sumiu nas correntes, seu corpo pequeno elevando-se como confissão ao tribunal das marés. E enquanto seus olhos seguiam-na, um último ressoar — o Bloop, batimento final — reverberou, impregnando-lhe os ossos.
E então, o fim.
A pressão atingiu o ápice.
O casco gemeu, verteu, rasgou-se.
O Voyager não explodiu — colapsou sobre si mesmo, como mente que se rende à loucura.
Na derradeira visão de Lena, não havia luz nem esperança, apenas o oceano — vasto, silencioso, eterno — ocultando sob seu véu de trevas horrores que jamais deveriam respirar à superfície.
O Abyssal Voyager desceu ao nada. Mas a cápsula, minúscula centelha, prosseguiu.
Anos depois — ou séculos, ou instantes, pois o tempo do mar não é o tempo dos homens — pescadores de uma costa esquecida ergueram em suas redes um objeto corroído pelo sal. Ao abri-lo, ouviram-na. Ouviram o sussurro de Lena Halberg, último eco da insanidade. Palavras que se espalhariam como praga, como febre, como sombra. Advertência? Ou convite?
Pois quem escuta o chamado do abismo, cedo ou tarde, atende.
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Abyssodon - ByLiFear
HororNo silêncio das profundezas, algo antigo desperta. A Dra. Lena Halberg, uma renomada especialista em bioacústica, é chamada para liderar uma missão no remoto Pacífico Sul, onde sons misteriosos conhecidos como "Bloop" ecoam do fundo do oceano. O que...
